domingo, 29 de julho de 2012

Movimentos textuais


Maria José do Espírito Santo nasceu pobre
no fundo do mundo em que nasceu.

José, seu pai, este nome lhe deu por nobre
o achar e um outro não o socorresse.

Maria, sua mãe, era a De Lourdes chamada,
que de seu nome também parte fazia.

Duas Marias e dois Josés (metades).
Ausências salientes na parede simples.

A casa não existe mais, mas todos
emolduravam, antigamente, a porta.

_____

“(...) E donde: palavra nova, só se satisfizer uma precisão, constatada, inscontestada.

 Verdade é que outros também nos objetam que esta maneira de ver reafirma apenas o estado larval em que ainda nos rojamos, neste pragmático mundo da necessidade, em que o objetivo prevale o subjetivo, tudo obedece ao terra-a-terra das relações positivas e, pois, as coisas pesam mais do que as pessoas. Por especiosa, porém, rejeitamos a argumentação. Viver é encargo de pouco proveito e muito desempenho, não nos dando por ora lazer para nos ocuparmos em aumentar a riqueza, a beleza, a expressividade da língua. Nem nos faz falta capturar verbalmente a cinematografia divididíssima dos fatos ou traduzir aos milésimos os movimentos da alma e do espírito. A coisa pode ir indo assim mesmo à grossa”.

(João Guimarães Rosa, em Tutaméia)


"032" The Canadian Affair from Departement on Vimeo.


Missa das onze e meia


17º Domingo do Tempo Comum
29 de julho de 2012

"Jesus tomou os pães , deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes" (João 6, 11).


terça-feira, 24 de julho de 2012

Sometimes, férias = (+)trabalho

Así, con Ibrahim Ferrer y Omara Portuondo, y el sueño tranquilo de los lirios y orquídeas,

este "Espaço Imaginário" entra em recesso por uns dias, graças à necessidade urgente que tem seu redator de trabalhar mais intensamente em outros projetos.

Agradeço a todos(as) os(as) amigos(as) visitantes e leitores(as), peço compreensão e que me esperem, pois aprendi a gostar daqui e quero voltar o quanto antes. Continuarei, sempre que possível, visitando todos(as) vocês, que são, na verdade o melhor que existe neste espaço. E eu não queria perder isso por nada.

Grande abraço a todos(as), obrigado e até já.
Gilson.


Los nardos y las azucenas





Luzes e absurdos



em nuvens vou.
como nunca, agora estou.

bruma da madrugada,
não pergunte por mim, apenas segure minha mão e leve-me ou mande-me para onde quiser.

peço ainda, por último e
se posso: não deixe chorar quem jamais merecer ou não quiser.
leve-me no vento leve desta manhã que não vem.

Para onde quiser.
Brisa leve, como nunca, eu estou em seus braços.




Luto e melancolia II



Quantas palavras me saem da necessidade
Tão minha de dizer o que não consigo calar!

Quantas me saem pelas metades nos sons e
Na sintaxe, facilmente ininteligível e seca!

Quantas vezes, noites inteiras, sonhei aqui,
Imaginando estar ajudando-a a ler o texto.

Sei ler? Talvez. Escrever me escapa, voa...
Perdem-se as palavras no berço da recepção.

Sei que ainda queria estar aí, com você,
Traduzindo um texto impossível.

Mas sinto que queria estar longe, na praia distante,
Ouvindo um coração que também sente a ausência.

Você não acredita mais em nós, você definiu
Muitas vezes o fim do casal. Que eu insisti existir.

Mas depois de tanto tempo uma brisa de mar,
me anima a sentir desejos de braços não seus.

Quantas dores vive tanta gente. Quantas!
Aprendi a ver almas. A senti-las e sofrer.

Aprendi a caminhar em meio a espinhos,
Reconhecendo raros e preciosos lírios...

Que não se deviam perder por nada.
São pedaços de mim mesmo que procuro encontrar.

O enlutado não sabe exatamente o que perdeu.
O melancólico sabe muito bem que perdeu seu próprio eu.

___

“Estudar a separação amorosa significa estudar a presença da morte em nossa vida. A ruptura amorosa corresponde a um sentimento equivalente a assistir a própria morte” (IGOR CARUSO).

Show me a way, Lord






There Must Be A Way

There must be a way to help me forget that we're
There must be a way to stop me from dreamin' of you
There must be a star in the skies that isn't reflecting your
I just don't know how to disguise how much I miss you
There must be a song that doesn't remind me of you
There must be a kiss that'll thrill me like yours used to do
I look for a way to be happy, happy with somebody new
Oh, there must be a way but I can't find a way without you
There must be a song that doesn't remind me of you
Yes, there must be a kiss that'll thrill me like yours used to do
I look for a way to be happy, happy with somebody new
Oh, there must be a way but I can't find a way without you


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Além


Rio São Francisco

"Aprendi com o tempo a olhar o lado de dentro, como quem olha a roupa e vê o corpo. Como quem olha o corpo e vê a alma. Como quem olha a alma e vê o quê, meu São Francisco?".
Carlos Rodrigues Brandão

Recortes




 

É o ermo em água.
Achei que uma árvore me vigiasse:
Desconfiã ou reconhecente.
a alegriazinha se insinua, tão vivaz que
de medo, acho,
corro para o seu abraço.

domingo, 22 de julho de 2012

Missa das onze e meia


16º Domingo do Tempo Comum
22 de julho de 2012

"Muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles. Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas" (Marcos 6, 33-34).


sábado, 21 de julho de 2012

Qualquer lugar










Voltei pra casa com a lua me olhando com um olhinho bem miúdo

Três dias enfiado nos textos, o meu e o dos muitos outros, foram o bastante para me fazerem buscar a estrada de novo. Ainda estudei um pouco pela manhã, almocei, mas à tarde saí sem rumo ou destino certo, apenas para olhar outros lugares.

Fui para em Pirenópolis-GO, não sei nem motivos nem razões. Apenas fui.

Trata-se de cidade histórica do estado de Goiás, fundada certamente na primeira metade do século XVIII, provavelmente em 1727. Tem sua origem na rota dos pousos dos paulistas em busca de ouro e esmeraldas mais ao norte, depois da derrota na Guerra do Emboabas. O primeiro nome da vila foi Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte.  Um século depois tornou-se cidade, com o nome de Meia Ponte. Lá foi editado o primeiro jornal do Centro-Oeste brasileiro, a Matutina Meiapontenese, rodado a partir de 1830 em tipografia adquirida com recursos privados, após a negativa do Imperador em liberar verbas para a compra. Haveria razões políticas também.

O nome da cidade hoje tem origem na Serra dos Pirineus, sob a qual está situada e cujo nome foi dado possivelmente pelos primeiros habitantes do lugar, que eram espanhóis, e que homenagearam a serra com o nome daquela (muito maior) que separa a Espanha da França. Aquela mesma que se partiu para que a Jangada de Pedra (ou a Península Ibérica) de Saramago pudesse navegar, ela inteira. Ir embora de uma vez.

Pirenópolis é hoje grande centro turístico e atrai gente de todos os lugares, especialmente de Brasília-DF (140km) e Goiânia-GO (130km) e é famosa por suas pedras, suas Cavalhadas (que simulam a luta entre Cristãos e Mouros  pela domínio da Península Ibérica), suas cachoeiras, seus patrimônio arquitetônico e histórico, entre outros atrativos. Nada disso me atraiu. Fui só para ir mesmo.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

No meio do caminho tinha



Outro dia anotei aqui um feito extraordinário que era o fato de eu ter plantado um ipê branco. Isso foi há quase um ano mas continuo achando fabuloso a arvorezinha crescendo ali. Eu a molho duas ou três vezes por semana nessa época de seca, como manda a cartilha.

Hoje descobri que eu também tenho, no meu "caminho-da-roça", um ipê rosa. Esse que aparece aí, todo elegante, cujas imagens (ainda que mal capturadas com equipamento inadequado e com falta de arte) ofereço à Anabela, que deles gosta tanto.



Algodoal!



“Porque, por fim, ele exigiu minha atenção toda, e disse:
– ‘Riobaldo, eu sei a amizade de que agora tu precisa. Vai lá. Mas, me promete: não adia, não desdenha! 
Daqui, e reto, tu sai e vai lá. Diz que é de minha parte... Ele é diverso de todoo mundo.’

Mesmo escreveu um bilhete, que eu levasse. Ao quando despedi, e ele me abraçou,senti o afeto em ser de pensar. Será que ainda tinha aquele apito, na algibeira? E gritou: – ‘Safas!’–; maximé.

Tinha de ser Zé Bebelo, para isso. Só Zé Bebelo, mesmo, para meu destino começar de salvar. Porque o bilhete era para o Compadre meu Quelemém de Góis, na Jijujã – Vereda do Buriti Pardo. Mais digo? O senhor vá lá. No tempo de maio, quando o algodão lãla. Tudo o branquinho. Algodão é o que ele mais planta, de todas as modernas qualidades: o rasga-letras, biból, e mussulim. O senhor vai ver pessoa de tal rareza, como perto dele todo-o-mundo pára sossegado, e sorridente, bondoso... Até com o Vupes lá topei.

Compadre meu Quelemém me hospedou, deixou meu contar minha história inteira. Como vi que ele me olhava com aquela enorme paciência – calma de que minha dor passasse; e que podia esperar muito longo tempo. O que vendo, tive vergonha, assaz. Mas, por fim, eu tomei coragem, e tudo perguntei:
– ‘O senhor acha que a minha alma eu vendi, pactário?!’ Então ele sorriu, o pronto sincero, e me vale me respondeu:
– ‘Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais...’

E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras.

Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro” (Riobaldo, em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa).


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Vidas e dias

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (20/08/1889 - 10/04/1985)

"Não podemos acrescentar dias à nossa vida, mas podemos acrescentar vida aos nossos dias"

(Cora Coralina).

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Casarão do Comendador




Museu Regional apresenta concerto com Elisa Freixo

O Museu Regional de São João del-Rei/IBRAM apresenta nesta quinta-feira,  dia 19 de julho, às 18h30, um recital com a organista Elisa Freixo. O evento acontece na galeria térrea do museu e faz parte de um conjunto de concertos do órgão de tubos, fabricado no final do século XVIII, na região de São João del-Rei. O instrumento é o único de origem civil em funcionamento, confeccionado com técnicas manuais e matérias-primas locais.

Concertista
A concertista, Elisa Freixo, é professora em São Paulo e organista titular da Arp-Schnitger da Sé de Mariana (MG). Estudou na Faculdade de Música Santa Marcelina, foi bolsista do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico e frequentou a Escola de Música de Hamburgo.

Serviço:
Fonte: Museu Regional de São João del-Rei.
Localização: Rua Marechal Deodoro, 12, Centro.
Entrada Franca.
Telefones: (32) 3371-7663 / 3371-7242

Museu Regional amplia horário de visitação

O Museu Regional de São João del-Rei/IBRAM tem novo horário de visitação. A partir desta terça-feira, dia 17 de julho, a exposição de longa duração estará aberta ao público de 10:30 as 17:30. Aguardamos sua visita.

FONTE: Assessoria de Imprensa do Museu.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Vazios plenos


Copo vazio

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar

É sempre bom lembrar
Guardar de cor
Que o ar vazio de um rosto sombrio
Está cheio de dor

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor
Que a dor ocupa a metade da verdade
A verdadeira natureza interior
Uma metade cheia, uma metade vazia
Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

GILBERTO GIL



Cenas do filme "Paris, Texas", de Wim Wenders.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

domingo, 15 de julho de 2012

Para uma filha da Luz



             

... ђ...
 Com meu carinho,
meus respeitos,
tropeços e
delírios
[diversos].

Ao meu eterno amor


À minha doce flor, que não está comigo, agora. Não demora, dor, se tiver mesmo que ir;
não demora, amor, se tem mesmo que voltar...





 
Pequenina
[Renato Teixeira]

São tão claros os presságios
e os encontros dessa vida
Quando as partes combinadas
surgem numa mesma estrada
E na dimensão dos sonhos
sob a sombra das palavras
É que eu mando um abraço pra ti
pequenina
Flor vermelha tão cheirosa,
tão bonita e amorosa
Onde a essência dessa estória
paira plena na memória
Não pergunte pelo tempo,
pois o tempo é agora
O futuro na luz da manhã
não demora.


Missa das onze e meia


15º Domingo do Tempo Comum
15 de julho de 2012

"Ele nos fez conhecer o mistério da sua vontade, o desígnio benevolente que de antemão determinou em si mesmo, para levar à plenitude do tempo (...) o universo inteiro: tudo (...) (Efésios, 3, 9-10)



Um dos eixos



Há um esquema muitíssimo simples em literatura para elaborar momentos decisivos na trajetória do herói e que é expresso por meio de uma imagem espacial. O personagem é colocado num ponto alto de onde pode contemplar o mundo, mas seu poder tem raízes no chão, num ponto obscuro.  A imagem nos traz Satanás a tentar Cristo no alto da montanha, mas a construção é rica em significação material. Não faltam exemplos na literatura: em Stendhal, a torre onde o Padre Blanès ensina Fabrizzio e a torre Farnésia em que o mesmo Fabrízzio é preso e ama Clélia Conti; o morro dos Alpes Delfinenses, onde Julien Sorel concentra-se para suas grandes decisões ou a torre da cadeia, em que espera a guilhotina; em Balzac, as alturas de Montmartre, em que Rastignac lança seu desafio a Paris (“Agora é entre nós dois”); Hugo mostra Paris a partir da pureza do alto de Nôtre-Dame, com Quasimodo. Cristo encontra forças no jejum do deserto; Fabrízzio vive sua glória, sem nem o saber, na batalha de Waterloo, na planície; Rastignac é instigado pelo demônio Vautrin, que habita a pensão; Victor Hugo não deixa de nos mostrar o Pátio dos Milagres, espécie de submundo parisiense.

Essa polarização entre o alto e o baixo, a claridade e a obscuridade, assume as formas da montanha e da caverna, da torre e do nível do chão, do morro e do fundo vale. Num dos pólos, o poder; no outro sua fonte. Em cima o céu, embaixo a água. No primeiro, expansão; no segundo, concentração. Será preciso esclarecer a sombra como fonte da luz, e não gostaríamos de voltar à Farbenlehre de Goethe para isso. Por hora apenas um trecho d` O Conde de Monte-Cristo de Alexandre Dumas. É o momento da narrativa em que Edmundo acaba de escapar do “subterrâneo”, ou seja, a prisão em que se encontrava, em outra ilha, e estava prestes a descer de novo à “caverna” para reunir as condições necessárias à realização de seus planos, concebidos na prisão. Agora, diferentemente, descerá livre, por sua vontade, às trevas.

“O sol tinha chegado mais ou menos à terça parte do seu curso, e os raios de verão caíam quentes e vivificantes sobre os rochedos que pareciam, eles próprios, sensíveis ao seu calor; milhares de cigarras, invisíveis pelo matagal, faziam ouvir um murmúrio monótono e continuado; as folhas das murtas e das oliveiras se agitavam frementes, produzindo barulho quase metálico; a cada passo que dava no granito aquecido, Edmundo espantava lagartixas que pareciam esmeraldas; ao longe, viam-se pular as cabras selvagens, que por vezes atraem ali os caçadores; numa palavra, a ilha era habitada, viva, animada, e no entanto Edmundo sentia-se só, debaixo da mão de Deus (...) Trazendo os olhos para as coisas que o rodeavam de mais perto, viu-se no ponto mais alto da ilha cônica, – frágil estátua desse pedestal imenso; abaixo dele, nenhum homem; em torno dele nenhuma barca: apenas o mar azulado, que vinha bater no pé da rocha, debruado de uma franja de prata pelo choque sempiterno”. 

Imagem: Fitzcarraldo, de Herzog, em www.cinemaeuropeu.blogspot.com




sexta-feira, 13 de julho de 2012

De medos e esperanças

Palavras e outros sons já muito ouvidos e bastante conhecidos, mas que não me cansam. Para quem estuda o espaço na literatura é preciosa a ideia de delimitar os lugares de sentimentos como o medo e a esperança.


MURAR O MEDO, por Mia Couto, na Conferência de Estoril 2011.

"O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incómodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe."



Stand By Me | Playing For Change | Song Around The World from Concord Music Group on Vimeo.