terça-feira, 10 de julho de 2012

Um pouco de quietude



Eu quero falar com estrelas. À sombra do velho Cedro de João de Deus, nem ouço bem a ordem, que desconfio provocadora, de Antero. “Surge et ambula”, parece querer de mim o tal realista. Desisto de conhecer bem o que quer que seja... Não quero mudar coisas que por si mudam. Não me importa lutar contra o efêmero, o passageiro. A aparência sai com água. 



“A estrela da manhã

Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noite
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
      [comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.”

MANUEL BANDEIRA








“Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.

E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, em “Confidências de Itabirano”.

22 comentários:

  1. "Um pouco de quietude" intitulaste, Gilson. Mas ela se desvanece nos poemas escolhidos. Não vou falar dos autores, porque estão sempre para além das palavras. Falo da interioridade da escrita, da raiva inquieta projetada na busca da "estrela da manhã" e na aceitação, quase tácita, do estado do eu, em Drummond. Há uma força interior comum neles, aquela que nos agiganta e nos leva à humilhação resignada. É a elas que temos de nos agarrar, naquele preciso meio termo, que nos permite, equilibristas, prosseguir no arame.

    Quando perdemos, pela perda, o equilíbrio temos de ser 'racionais' e pensarmos que a passagem pelo arame da vida não é programada por nós. Daí que a partida seja o início de estádio direcionado para a luz e perfeição, aqui ou Além.

    Quietude transdimensional!É só isso...

    Beijo

    Laura

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    1. Como sempre, Laura, muito atenta e certeira. Apenas não diria "humilhação", posto que também a calculamos, mas "quietude resignada ou possível". Eu fico me lembrando da "tristeza que me diverte", de Drummond; do "tango argentino", de Bandeira. São soluções, sempre provisórias, mas soluções.

      Agora, o quanto é difícil essa atitude! Talvez porque "o que é da gente está tão perto e a gente não sabe, não sabe, não sabe".

      Amiga Laura, é sempre muito honrado que recebo seus comentários, que enriquecem esse humilde espaço.

      Fica bem
      Abraço.
      Gilson.

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  2. Carlos Drumond!!! Lembrei que prometi a mim fazer a viagem de trem até Itabira e conhecer os caminhos drumondianos... Tão perto e tão distante!!!

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    1. Estranho isso, né, de "Tão perto e tão distante". De trem também nunca fui, não. Deve ser um espetáculo, por entre essas montanhas.

      Eu, pessoalmente, não gosto do jeito com que Drummond trata Minas Gerais. Ele parece rejeitar tudo quanto eu mais gosto em Minas. Sei lá, os amigos dele em BH, a ida com Capanema para o Governo Vargas e depois a vida no RJ, acho que tudo isso fez dele, ao final, bem pouco mineiro. Nas palavras, porque qualquer um desconhecido que olhasse para ele poderia perguntar, de cara: "O senhor é mineiro de onde?". Porque mineiro, era, só restava saber de onde. Dizem que Drummond tem muitas faces, mas a cara de mineiro sempre esteve lá.

      Obrigado, Anabela, pela sempre honrosa visita.
      Li o seu texto "Sá Luzia Quitandeira". Gostei muito.
      Abraço.
      Gilson.

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  3. Belos textos e belas fotos!!!
    Bjinhos

    queriadeti.blogspot.com

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    1. Obrigado, Cristina.
      Seja sempre bem-vinda a este humilde espaço.
      Abraços.
      Gilson.

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  4. Aquietar-se é optar por desligar. É prescindir do controle. É aceitar o comando do céu, tanto na vida como nas emoções. Aquietar-se é deixar-se ir na corrente, sem medos nem resistência, só pelo simples fato de que é assim que tem de ser.


    As fotos , o texto, a poesia, tudo tão autentico.
    Achei lindo.

    Obrigada!

    (fico sempre encantada com os comentarios da Laura,
    levo todos )


    Beijo

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    1. Estou com você, Margoh: não é descontrole, é decidir-se por não querer controlar... Descer "sem medos, nem resistência, só pelo simples fato...".

      De nada, foi pra você.

      (Ah, os comentários de Laura!! São sensacionais. Sabe do que eu mais gosto? Ela não deixa nada barato. E eu a respeito muito por isso, também - eu não duvido que entre aqui, já que teve o nome mencionado (risos)).

      Beijo.
      Gilson.

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  5. Textos nostálgicos, de autores esplêndidos, com imagens ótimas.

    Gilson, obrigada pelas palavras generosas em meu conto mitológico, cujo efeito em mim se equivalem a essas paisagens lindas, que são verdadeiros presentes da natureza.

    Um abraço.

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    1. Gosto de ler coisas boas, Rosa. Estou lendo seus textos para o meu prazer. Gosto especialmente do humor, da simplicidade e do insólito que seus textos trazem. Pelo menos como eu os leio, claro.

      Obrigado pela visita e pelo tão simpático comentário. Volte sempre, comente, critique. Assim a gente aprende.
      Um abraço.
      Gilson.

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  6. Ola Gilson,
    gosto mucho da sua entrada evocativa, de anti-heroi, humanizan estes poemas, sinto empatia por estas palavras, geran piedade e nos faz melhor personas.
    Estas aguas cristalinas sao uma especie do paraiso.
    Beijos.

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    1. Hola Carolina,
      você teve uma recaída com seu português. Talvez estivesse lendo ou escrevendo em espanhol e veio direto comentar aqui. Ficou tudo no meio (sonrisas): a cada duas palavras, uma saiu em espanhol. Mas não desista, por favor. Él sigue siendo muy bueno.

      Obrigado pela leitura. Fico contente que tenha gostado das imagens. Pela ordem: Salvador-BA, Itaparica-BA, Salvador-BA, Ilhéus-BA, Meu candeeiro/apontador de lápis, Ilhéus-BA e Morro de São Paulo, distrito de Cairu-BA, duas vezes.

      Abrazos.
      Gilson.

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  7. Duas escolhas muito apropriadas!

    Mas o que me cativou mesmo foi o comentário sobre meu post...você captou uma cena do caderno que nem eu percebera antes. Obrigada,

    Abraço do Pedra

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    1. Pedra do Sertão,
      quanta honra esta visita.
      Obrigado.
      Receba um abraço.
      Gilson.

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  8. Gilson, hermosos los poemas de Manuel Bandeira y Carlos Drummond de Andrade. Palabras que nos conducen por la naturaleza humana y por los bellos paisajes de Brasil.
    Las fotos nos transmiten serenidad y comunión con el entorno.
    Um abraço

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    1. Felicidad,
      no imaginas cuanta satisfacción receberla.
      Gracias por detenerte y hacer comentarios tan amables.
      (Yo sigo pensando hasta hoy en "La gasolinera" y sus 'non-lugares'"...).
      Outro abraço.
      Gilson.

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  9. Dois poemas,duas idades, duas vontades:O poema de Manuel Bandeira busca a esperança, luta por ela, vive o tempo em que um homem se sente a caminho do pico mais alto da vida, o seu olhar vai na direcção do alto e quer lá chegar;Drummond de Andrade é um homem conformado, o seu caminho está no sentido descendente, o que ele sente são meros arquétipos de que se sente despojado pelo decurso do tempo, pelo decorrer da vida!
    Desconheço em que fase da vida Manuel Bandeira escreveu o poema mas
    concluindo, eu diria que ele corre da noite para o dia; enquanto o texto de Drummond de Andrade me leva a crer que ele se encontra no caminho do dia para a noite, em que a esperança vai morrendo, as forças se vão diluindo e o verbo se usa apenas no passado -para mim particularmente -o mais difícil!
    Um abraço.Vitor

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    1. Vitor,
      agradeço imenso sua leitura atenta e comentários tão minuciosos. São dois gigantes da poesia brasileira e que pouca gente se anima a estudar, dada a complexidade das obras. A de Drummond mais plural que a de Bandeira (você mesmo o reconheceu, naquele "o mais difícil). Bandeira faz uma obra inacreditável, que fixou um mito em torno da humildade, da paixão e da morte, em que, segundo Davi Arrigucci Jr., "No fundo, busca sua concepção de poesia: talvez o meio que tenha descoberto para aprender a morrer". Este poema deve ter sido escrito entre o final dos anos 20 e começo dos anos 30 do século XX (o poeta devia ter seus 40, posto ter nascido em 1886).

      Não estudo poesia, dela sou apenas leitor (vou pelo sentimento). Gosto de ler também os comentaristas, como o amigo foi aqui neste humilde espaço, que se sentiu engrandecido.

      Obrigado, Vitor.
      Receba um grande abraço.
      Gilson.

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  10. ...Les paysages sont très beau, ça me donne envie de peindre et de remplir de couleurs mes carnets à aquarelle.
    Dommage pour moi, que je ne parle pas le portugais, j'aimerais pouvoir lire les textes sur ton blog.

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    1. Fabienne, merci pour votre visitation et commentaire.

      Ah, je ne sais pas si nous aide où non, mais j`ai installé un traducteur automatique de Google ici, le coin supériuer à droite.

      Lisez, commentez, critiquez, ainsi nous avance... Allons-y. Où? Je ne sais pas... De nouveau, pardón.

      Moi, j´aimerais voir les paysages brésiliènes dans votres aquarelles.

      Merci.
      Salue.
      Gilson

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  11. Preciosas imágenes llenas de paz.

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    1. Trimbolera, perdonadme el poco tiempo para responderla.
      Gracias por la visita y comentario tan hermoso sobre la paisage de mon país.
      Grancias.
      Saludos.
      Gilson.

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