segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Borghettinho

Mensagem do Sul, por Renato Borghetti.

Elomar

Mensagem do "sertão", na voz do mestre Elomar:

A pedra

"Há uma diferença. Tenho aversão à subjetividade. Em primeiro lugar, tenho a impressão de que nenhum homem é tão interessante para se dar em espetáculo aos outros permanentemente. Em segundo lugar, tenho a impressão de que a poesia é uma linguagem para a sensibilidade, sobretudo. Uma palavra concreta, portanto, tem mais força poética do que a palavra abstrata. As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer 'eu estou triste'. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do 'eu estou triste'".
 
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
 
ver entrevista completa em www,desterritorio.blogspot.com

João Cabral de Melo Neto

domingo, 28 de agosto de 2011

Nenhum desses

Morro de São Paulo, distrito de Cairu-BA

Espa(r)cialidades
Prof. Silveira Bueno:
Espaço: s. m. Extensão em que se move o universo”.
Prof. Milton Santos:
O espaço deve ser considerado como um conjunto de relaçoes realizadas através de funções e de formas que se apresentam como testemunho de uma história escrita por processos do passado e do presente. Isto é, o espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente e por uma estruturta representada por relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos e que se manifestam através de processos e funções. O espaço é, então, um verdadeiro campo de forças cuja aceleração é desigual. Daí porque a evolução espacial não se faz de forma idêntica em todos os lugares. Mais uma vez aqui a noção de relatividade introduzida por Einstein aparece como fundamental porque substitui o conceito de matéria pelo conceito de campo, o que, o que supõe a existência de relações entre a matéria e a energia. Numa comparação talvez grosseira, as formas seriam comparáveis à matéria e a energia à dinâmica social”.
Diferentes, não? E ainda temos os desdobramentos da física quântica, Alice no país da maravilhas, o espaço da memória, o espaço vivido do Bachelard... E o WebSpace, existe mesmo? Qual sua forma? Quantas dimensões tem? É matéria ou onda?

Caminhos


Januária-MG, janeiro de 2010

Alguns espaços

Para mim, neste momento, há pouquíssimas alternativas teóricas. Meu espaço é mítico, ou, para forçar uma aproximação mais simpática, metafíco. Não há uma criatura conhecida minha que estude isso seriamente em literatura. Nem eu quero encontrar. Desculpa, talvez queira. O problema é que o que encontro não tem dado conta das minhas expectativas. Além do mais, já disse: minha perpectiva é mítica. Vou além e agora digo: mítico-reliogisa. Então leitura poética e mítico-religiosa. Não achem graça, por favor, mas quero fazer isso num âmbito de estudo que está ainda querendo se alinhar às “ciências” e que sequer tem consenso sobre o que seja o seu objeto. Literatura que ser quer “literariedade”? Mas então eu iria para a Línguística, que não se importa com isso e se relaciona mais apaziguadamente com a História, a Antropologia, a Sociologia... Quero Literatura e não tenho dificuldade, se for preciso, de me relacionar com essas outras disciplinas. Ainda acrescentaria a Psicologia Analítica, a Alquimia, o Tarô, Vedas, Xamanismo... Qual é o problema? A Antropologia, pelo menos nesse aspecto, parece que anda melhor. Tem menos coceiras.

Momento teórico


Difícil a situação. Três disciplinas no semestre, o que me coloca na posição de ter que sobreviver até dezembro para concluir os créditos em disciplinas. Daí é "só" ler e produzir o texto para a qualificação, no meio de 2012. A dificuldade mencionada consiste hoje em levar essas disciplinas, com compromissos externos de trabalho e sem bolsa. Isso significa estudar com um terço do tempo mínimo necessário para um desenvolvimento minimamente satisfatório. O que mais me atormenta, na verdade, é a definição do problema teórico e sua abordagem, que vêm sofrendo alteração a medida em que avanço nas disciplinas. Não encontro no modelo como a "ciência" está organizada, caminhos que julgo adequados à discussão que gostaria de levar. Anotei ciência entre aspas porque entendo que esse campo, unificado como querem, não existe. Prefiro tratar de linhas de pesquisa e, mais especificamente, de "pesquisadores" que, em torno de seus estudos conseguem reunir outros pesquisadores. Não tenho vocação para enfrentamentos desnecessários e, com isso, corro o risco de escrever uma dissertação como querem que eu faça, não como eu gostaria de ter feito. Nada demais, se considero tudo isso como um ritual de iniciação. Vou mudando o projeto, adequando-o, eliminando o que eu acho (que fique bem claro: sou eu aquele que acha) que a posposta tem de melhor. Não estou jogando nada fora. Guardo e depois (quem sabe com mais autoridade?) faço nova proposta, sob novas condições. De qualquer forma, tenho procurado responder e proceder a todas as leituras que me ordenam fazer. Seis das minhas lacunas conceituais, eu mesmo, ao longo da vida, neguei a "ciência", a razão como dona da casa do espírito... Tudo isso. Por outro lado, não escrevi um livro sobre minha concepção de mundo e de conchecimento. Então: abaixo e cabeça e trabalho, tornando meu texto "melhor", quero dizer, mais adequado. Se eu sobreviver não só até dezembro mas até o fim, terei duas vantagens, no mínimo: a) terei me iniciado na megera cartesiana e b) terei um título (apesar de que eu mesmo o negue - pelo menos o aceite com muita restrição).

Missa das onze e meia


22º Domingo do Tempo Comum

"Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar". Romanos (12,2)

Imagem: Google images: www.tijskelly.blogspot.com

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Fronteiras e ressonâncias


O que me parece mais pertinente a esta altura, é estudar as possíveis imbricações e interferências do imaginário de uma cultura em outra(s). A imagem que se me impõe é aquela da mulher sentada no batente da porta de sua (dela) casa. Não em qualquer porta, mas justamente aquela que dá para a rua.  Essa porta, se é um limite para o ambiente doméstico, é, ao mesmo tempo aquilo que permite acessar o universo público. Se penso numa mulher, posso pensar também que sua porta a separa e une a um homem em particular (geralmente pai ou marido), aos outros homens, agora indistintamente. As fronteiras, convencionalmente fixadas, estabelecem falsos limites, difíceis de sustentar. O próprio conceito de fronteira é um limite: uma linha, imaginada ou fisicamente demarcada, com pretenções de separação, mas se esquecendo de que é ela mesma que impõ a proximidade do estranho, do que se quer separado. A fronteira, querendo separar, coloca o outro mais perto do mesmo ou, dito de outra forma, denuncia a proximidade do diferente. Haverá casos em o outro é de fato o mesmo. O que faz diferentes o Ocidente e o Oriente? O que do Oriente permanece no Ocidente, de forma ostensiva ou, o mais comum, de forma velada ou ideologicamente dissimulada ou negada? Estou pensando muito mais numa espécie de raciocínio da gradação do que da separação. É possível pensar no imginário da renascença, mas dentro dele convivem níveis ou camadas culturais, sempre com discursos disponíveis, dos quais um deles terá voz privilegiada, ou local de fala hegemônico. Esse discurso silenciará os demais e fará isso por diversos meios. Poderia dizer que no interior do discurso hegemônico sobre o que é o Brasil há inúmeros outros discursos silenciados, que também poderiam dizer o que é o Brasil. De fato dizem, mas subalternizados, periféricos ou marginalizados. Imagino essa possibilidade para seja válida para todas as construções dos chamados estados nacionais, um dos resultados do imaginário da renascença. Assim, poderíamos ter múltiplos discursos que diriam melhor qual é a forma e a substância de Espanha, Alemanha, Austrália, Estados Unidos. Voltando ao tema das camadas de ressonâncias ou das imbicações dos discursos, eu poderia pensar na Andalucía, na Galícia, na Cataluña. Para o Brasil, imaginaria as diversas configurações do Sul, e aí a Serra Gaúcha, os Pampas; os grandes centros urbanos, multidiferenciados. Essa perspectiva teria que encontrar o traço, talvez possível, de união desses imaginários, e que fosse capaz, para além dos interesses meramente políticos ou econômicos, que as pessoas de um lugar ou outro se dissesse pertencer a esses lugares, reconhecerem que estão ali suas raízes mais profundas. O seu verso e a sua rima, no ritmo e na harmonia de suas vidas.

Imagem: Google images: www.academia.org.br

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Borges

Jorge Luis Borges, 24 de agosto de 1899 - 14 de junho de 1986


A  quien ya no es joven

Ya puedes ver el trágico escenario
y cada cosa en el lugar debido;
la espada y la ceniza para Dido
y la moneda para Belisario.

¿A qué sigues buscando en el brumoso
bronce de los hexámetros la guerra
si están aquí los siete pies de tierra,
la brusca sangue y el abierto foso?

Aquí te acecha el insondable espejo
que soñará y olvidará el reflejo
de tus postrimerías y agonias.

Ya te cerca lo último. Es la casa
donde tu lenta y breve tarde pasa
y la calle que ves todos los días.


JORGE LUIS BORGES
Imagem: google images: www.dibache.com

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O mundo texto eu


Simples cidade

Aquela estrada, tão física, para onde me levava?
No meio do sertão me vi no meio do meio
Do mundo. Absurdo mistério.
Se descia ou subia, tanto faria.
Importava que me iniciava no difícil exercício
Da construção do meu texto
Da composição do meu olhar
Que deveria fechar meu corpo
Com todo o mundo dentro
Do mundo. Absurdo milagre.
Difícil falar fácil
As palavras ainda são pedras atiradas.
Estou longe
Do mundo. Absurdo eu.

domingo, 21 de agosto de 2011

Missa das onze e meia


A Assunção de Maria. O tempo e a vida.

"Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. Então apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre as cabeças, sete coroas. Com a cauda, varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra. o Dragão parou diante da Mulher que estava para dar à luz, pronto para devorar o seu filho, logo que nascesse". Apocalipse, João (12,1-4).

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“E quando a morte e o tempo forem recusados ou combatidos em nome de um desejo polêmico de eternidade, a carne sob todas as suas formas, especialmente a carne menstrual que a feminilidade é, será temida e reprovada como aliada secreta da temporalidade e da morte”, Gilbert Durand, em As Estruturas antropológicas do imaginário, p.121. 

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Os chifres são de Úranos (O Céu, que chove e fecunda), em luta contra Cronos (o Tempo), que por fim, e por ordem de sua mãe Géia (Gaia, a Terra), imporá a ordem do ciclo vital, do círculo pemporal. João talvez estivesse pensando no Sol como representativo da luz da vida, vendo na noite (a Lua que está sob os pés da mulher) o símbolo da morte. É tradição muito antiga esse entendimento, comum a muitos povos anteriores aos gregos, que o sintetizaram na narrativa da hierogamia (hieros gamos = casamento sagrado) e na grande produtividade da relação entre Gaia (Terra) e Urano (Céu). Junito Brandão, Mitologia grega Vol 1. p.195.

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Esta é uma relação, contudo, pouco humanizada da história.  Acontece que no nível do simbólico e do imaginário,  muito mais representativo desta circularidade do tempo é a Lua, que nasce, morre, renasce e torna a morrer... Tanto que é o Dragão que tem o fogo na cor, fogo inimigo da água, fonte de toda a imaginação da matéria (Gaston Bachelard), valeria dizer de toda a vida. "Os filhos chegam como água", como disse uma vez uma personagem de Lorca.

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“A Lua (...) é um astro que cresce, decresce e desaparece, um astro cuja vida está submetida à lei universal do devir, do nascimento e da morte. Da mesma forma que o homem, a Lua tem uma 'história' patética, porque a sua decrepitude, como a daquele, termina na morte. Durante três noites o céu estrelado fica sem lua. Mas esta 'morte' é seguida de um renascimento: a 'lua nova'. O desaparecimento da Lua na obscuridade, na 'morte', nunca é definitivo. Segundo um hino babilônico dirigido a Sin, a Lua é 'um fruto que cresce por si mesmo'. Ela renasce da sua própria substância, em virtude do seu próprio destino. "Este eterno retorno às suas formas iniciais, esta periodicidade sem fim, fazem com que a Lua seja, por excelência, o astro dos ritmos da vida”. Mircea Eliade, em Tratado de história das religiões, p.127.

A Canção de Siruiz


Uma canção em Si.

As imagens se dissolvem umas nas outras
Era noite, quase madrugada, em casa do padrinho pai
Rompante barulho, porta em que se bate
Fora de hora – que mais em se pensar.

Figuras pesadas, representantes de altas honras
Conhecidas, precisadas de descanso,
Comida e abrigo.
Menino, leva e acompanha esses homens, todos amigos.

Muitas armas, muita gente e cavalos, conversas
Meio exército, meia-noite, altos segredos,
Muita coragem e cansaço.
O menino do destino ia, cumprindo, empírico modo.

Cavalos a se roçarem, cheiros de roupa suja,
Suar dos cavalos e dos arreios de muitas andanças.
Todos quase em festa, quando se ouviu,
Primeira vez a Canção de Siruiz.

Noite na casa de Padrinho Selorico.
A canção será guia do menino do destino,
Até o encontro de Deus com o Diabo,
No redemoinho, no meio da rua...

O menino desmaiado, no alto da Torre.

Pierre Menard, não.


Doce manhã quem disse...
Sandice!
Gamela suja na beira do fogão,
Isso, sim!
Folhas secas na terra solta
Promessa de fé, esperança, drum
Que caiu da mão que o sono levou.

O olhar parado na palavra
Dez vezes mil vezes muitas
Vezes lida e ainda ali, esperando
O quê?
Sua razão de ser?
Uma forma de dizer o mesmo
Num comentário de espírito...
Sempre melancólico.

Pierre Menard, não.
O labirinto, sim!
A biblioteca também.
E o Sertão.
E São Paulo de Álvares, Mário e Zé Paulo.
O que se formou porque era preciso.
Alguma forma necessária
Repetida de novo
Para a alegria de alguns.

Bem poucos.
Pierre Menard, não.

sábado, 20 de agosto de 2011

dia e noite

Mais que o dito latino recorrente, preciso aprender o carpe noctem. Primeiro pelo fato de que sempre, desde os tempos mais remotos, produzi melhor à noite. Estou pensando no mérito mesmo. Não creio produzir muita coisa de interesse, mas julgo que essas raras ideiazinhas me ocorrem muito mais frequentemente em companhia da Lua. Da luz parece que procuro me esconder ou me proteger. Há quem pense o contrário, o que é sempre de esperar. A questão agora é estatística, de quantidade de horas que tenho (ou não tenho) para fazer o que tenho (aí não há alternativa) que fazer, o que me obriga avançar pela noite, invariavelmente.
Devo buscar o mínimo de organização e disciplina para manter alguma eficiência durante os momentos de claridade, pois o cansaço é inadiável. Uma grande dificuldade é que eu não trabalho com o mesmo material que estudo. Valeria talvez dizer que são dois mundos diferentes. Minhas atividades profissionais são de caráter burocrático-administrativo. Outra parte de mim é literatura. Estão faltando horas. Mas o que adianta trabalhar ao luar, se a felicidade não está ao meu lado?


Sppanóico


Descobri que este “espaço imaginário” funciona de uma forma inusitada. Um dia um amigo comentou que existiria um novo transtorno mental sendo investigado, o SPPA, ou Síndrome Psicótica da Pesquisa em Andamento. Haveria outras manifestações mas um dos sintomas graves desse suposto transtorno seria o seguinte: os pesquisadores em geral, graduandos,  mestrando ou doutorandos, coisas desse tipo, “alugam” tantas pessoas quanto conseguem com um mesmo assunto todo dia, a qualquer hora, ou seja, o objeto de sua pesquisa, que é colocado sob qualquer pretexto no meio de qualquer conversa em andamento, não importa que seja sobre futebol ou criação de galinhas nas cidades.

A minha descoberta (deveriam ser já duas, pois estou a ponto de me declarar um Sppanóico) é que jogo tudo aqui. Vamos lá, ok, quase tudo. Com isso protejo muita gente da minha conversa chata que só interessa a mim mesmo, e me livro de “ficar falando sozinho” (já que escrevo para virtualidades) e, além disso, me livro ainda de levar uns “tabefes”, que, segundo o amigo, é a recomendação médica para tratar o paciente em crise de SPPA.

Imagem: Google images: tela de Ademir Martins.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Não demora!


 Pequenina
[Renato Teixeira]

São tão claros os presságios
e os encontros dessa vida
Quando as partes combinadas
surgem numa mesma estrada
E na dimensão dos sonhos
sob a sombra das palavras
É que eu mando um abraço pra ti
pequenina
Flor vermelha tão cheirosa,
tão bonita e amorosa
Onde a essência dessa estória
paira plena na memória
Não pergunte pelo tempo,
pois o tempo é agora
O futuro na luz da manhã
não demora.



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Muito(a)s amigo(a)s

Sombra tentando ler A Santa Joana dos Matadouros, de Brecht

O cão do tipo doméstico, desses que vivem juntos e acompanham uma família, o primeiro de que eu guardo lembrança é o Japi. Com esse nome estranho (do Tupi, para significar um tipo de ave, também chamada Xexéu), pertencia a um primo e era um cachorro bastante especial, que gostava de nos acompanhar nas brincadeiras de criança, mas era também bom guardador de rebanhos e caçador. Depois, talvez por causa do Japi, eu também tive meu primeiro cachorro, o Iuque I, ainda nos tempos da fazenda. O nome não sei testemunhar de onde veio. O “primeiro – I” é pela razão de que  haverá outro de mesmo nome. No seu tempo era conhecido só como Iuque mesmo. Esse cão acompanhou a família na mudança para a cidade pequena e, depois, para a cidade média, onde foi roubado ou fugiu com o circo. Ninguém soube dizer do seu paradeiro, desde que desapareceu. Meu pai me fez acalmar com palavras do tipo: é isso mesmo, cães criados em fazendas, livres, vivem despreocupados e... Na cidade, se perdeu, não soube voltar para casa.

Passou longo tempo e, já na cidade grande, arrumei a Lassie. O nome tem razões óbvias, com origem na heroína do seriado de TV, mas a cadelinha era mínima, devia pesar um quilo e meio, se muito. Daí para diante não me lembro de um tempo em que não tivemos cachorros em casa. Após a morte de Lassie, por atropelamento, arrumamos a Luanda, uma pastora alemã, “quase” pura mas de muito bom caráter. Levei-a para namorar com um belo pastor alemão, esse sim, com pedigree, registrado e tudo, que trabalhava na Polícia Militar. Desse idílio nasceram 6 filhotes, doados a boa gente, todos. Menos o Iuque II. Por essa época apareceu por lá também a Jaqueline (nome dado em homenagem àquela bela jogadora de voleibol). Viveram esses animais muitos anos e morreram todos na velhice. A Luanda está enterrada no quintal da casa de minha mãe. Promessas de nunca mais ter cachorros em casa.
Depois devo registrar a passagem rápida de... Rique, um cocker spaniel belíssimo e endemoniado, que destruiu todas as plantas, comeu todos os tapetes e sapatos e rasgou todas as cortinas. Esse cãozinho tinha o demônio no couro, eu acho.  Morreu muito jovem, vítima de uma doença que veio com o vento.  Ficou doente num dia e morreu no outro. Dor imensa. De novo, promessas de jamais ter cães em casa.

Passagem rápida também teve um cachorinho adotado pelo meu sobrinho, e que não chegou a viver uma semana com a gente, pois vinha muito debilitado e não conseguiu se recuperar, ainda que a ele fossem dispensados todos os cuidados. Logo depois arrumamos Bob, Bethovem, Bob, Lilo e Blue, que já estão quase caducos também e ainda vivem em casa de minha mãe.  

Há outro cão muito especial, mas que não cabe aqui, por hora, pelo fato de eu talvez não conseguir lhe fazer justiça. Deixo seu nome: Zeus. Além de muitas saudades, dele e de quem foi sua dona, junto comigo.

Quando vim para cá, num sábado de manhã, recebi um chamado de Simone, informando que tinha encontrado a Sombra para morar comigo. Eu vinha morar sozinho, depois da tempestade e havia decidido arrumar uma cadelinha, que já se chamava Sombra. O que a Simone informava era que a Sombra já existia. Veio morar aqui seis horas depois de eu ter me instalado. Está insuportável, mas é minha companhia, minha Sombra Viva.

O espaço de Diadorim


Se não havia lugar para Maria Deodolina da Fé Bettancourt Marins na casa onde ela nasceu, que pertencia a Joca Ramiro, seu pai, era muito provável não houvesse lugar no mundo para Diadorim.

Era espaço, sempre


Não tinha percebido. "Ando meio desligado", talvez bem como disse um dia Rita Lee, a bela tradução. Veja agora: toda ou quase toda a teminologia criada em torno dos todo-poderosos estudos sobre foco narrativo, ponto de vista na ficção, ou seja lá qual nome se dê, quase toda ela gira em torno de aspectos espaciais, ou se utilizam de termos espaciais, sempre tomados de forma abstrata. Vou começar pela terminologia do Sr. Norman Friedman, mas poderia ser outro. A sua teoria gira em torno de duas concepções contíguas: proximidade e distanciamento. Não preciso dizer: próximo e longe são possibilidades de posições no espaço em relação a um ponto neste mesmo espaço. Se o narrador se coloca numa posição mais próxima das coisas relatadas, podemos relacionar conceitos como tendências ao sumário, ao narrar, ao contar, à declaração, à exposição, ao explícito, à ideia; ao contrário, quanto mais longe se coloca dos fatos, o que Friedman quer dizer é que o narrador está mais disposto a produzir a cena, a imitar, a mostrar, interferir, apresentar, a dramatizar, a produzir o implícito e a imagem. Nas famosas "visões" de Jean Pouillon, é possível reconhecer as mesmas relações: Pouillon, na sua teoria das visões na narrativa, fala de algumas categorias de visão: visão com, visão por trás, visão de fora. Como se vê, novamente o problema é resolvido numa equação que envolve a distância e posição do narrador em relação aos fatos. Sempre o espaço.

Imagem: Google images, tela de Miró.