domingo, 29 de maio de 2011

Missa das onze e meia


"(...) Estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir", São Pedro I (3,15).

Dioniso


“Para el occidental el inconsciente está debajo de la consciencia; para el oriental el inconsciente está arriba y la consciencia está debajo”, André Ortiz-Osés, em Cuestiones fronterizas, citando Nietzsche`s  Zarathustra, de C.G. JUNG.

Imagem: Google images (www.amandicaindica.com.br)

Magma III


Sono das Águas

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d`água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...

JOÃO GUIMARÃES ROSA, em Magma.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Cartuxa de Parma I


A Cartucha de Parma
Sthendal
Globo, 2004

I
Gia mi fur dolci inviti a empir le carte
I lunghi ameni.
                                 ARIOSTO, Sat. IV.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Chuvas

 
COMPOSIÇÃO

Frutas decapitadas, mapas,
aves que prendi sob o chapéu,
não sei que vitrolas errantes,
a cidade que nasce e morre,
no teu olho a flor, trilhos
que me abandonam, jornais
que me chegam pela janela
repetem os gestos obscenos
que vejo fazerem as flores
me vigiando em noites apagadas
onde nuvens invariavelmente
chovem prantos que não digo.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Entrelugar de aprender


"O corpo que faz uma travessia aprende, decerto, um segundo mundo, aquele para o qual se dirige, onde se fala uma outra língua, mas ele se aproxima sobretudo de um terceiro mundo, aquele pelo qual transita", Michel Serres, Le Tiers-Instruit;

"A dimensão local de que eu falo é muito mais perto da temporalidade que da historicidade; é uma forma de vida ao mesmo tempo mais complexa de uma 'comunidade', mais simbólica de uma 'sociedade', mais conotativa de um 'país', menos patriótica das pátrias, mais retórica da razão de estado, mais mitológica de uma ideologia, menos homogênea da hegemonia, menos concentrada da cidade, mais coletiva do 'sujeito', mais ligada à psique da civilização e, enfim, mais híbrida no desenvolver as diferenças culturais e as identificações [...]. Precisamos de um outro momento de escrita, à altura de manifestar as interseções ambivalentes e quiasmáticas de tempo e lugar que constituem a problemática experiência 'moderna' da nação ocidental", Homi K. Bhabha, DissemiNation: time, narrative, and the margins of the modern nation, citados por Ettore Finazzi-Agrò em Um lugar do tamanho do mundo.

Imagem: Google images (A cidade de Ouro Preto-MG)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Imaginação da matéria


"Quando começamos a meditar sobre a noção de beleza da matéria, ficamos imediatamente impressionados com a carência da causa material na filosofia estética. Pareceu-nos, em particular, que se subestimava o poder individualizante da matéria. Por que se associa sempre a noção de indivíduo à de forma? Não haverá uma individualidade em profundidade que faz com que a matéria seja, em suas menores parcelas, sempre uma totalidade? Meditada em sua perspectiva de profundidade, uma matéria é precisamente o princípio que pode se desinteressar das formas. Não é o simples déficit de uma atividade formal. Continua sendo ela mesma, a despeito de qualquer deformação, de qualquer fragmentação. A matéria, aliás, se deixa valorizar em dois sentidos: no sentido do aprofundamento e no sentido do impulso. No sentido do aprofundamento, ela aparece como insondável, como um mistério. No sentido do impulso, surge como uma forma inexaurível, como um milagre. Em ambos os casos, a meditação de uma matéria educa uma imaginação aberta.
"Só quando tivermos estudado as formas, atribuindo-as à sua exata matéria, é que poderemos considerar uma doutrina completa da imaginação humana. Poderemos então perceber que a imagem é uma planta que necessita de terra e de céu, de substância e de forma. As imagens encontradas pelos homens evoluem lentamente, com dificuldade, e compreende-se a profunda observação de Jacques Bousquet: 'Uma imagem custa tanto trabalho à humanidade quanto uma característica nova à planta'. Muitas imagens esboçadas não podem viver porque são meros jogos formais, porque não estão realmente adaptadas à matéria que devem ornamentar.
"Acreditamos, pois, que uma doutrina filosófica da imaginação deve antes de tudo estudar as relações da causalidade material com a causalidade formal. Esse problema se coloca tanto para o poeta como para o escultor. As imagens poéticas têm, também elas, uma matéria", G. Bachelar, em A Água e os sonhos.

Nietzsche e a tragédia 3


Friedrich Nietzsche
O Nascimento da tragédia
Cia das Letras, 1992

“Tudo o que na parte apolínea da tragédia grega chega à superfície, no diálogo, parece simples, transparente, belo. Nesse sentido, o diálogo é a imagem e o reflexo dos helenos, cuja natureza se revela na dança, porque na dança a força máxima é apenas, traindo-se porém na flexibilidade e na exuberância do movimento.  Assim, a linguagem dos heróis sofoclianos nos surpreende tanto por sua apolínea precisão e clareza, que temos a impressão de mirar o fundo mais íntimo de seu ser , com certo espanto pelo fato de ser tão curto o caminho até o fundo. Se abstrairmos, todavia, do caráter do herói, tal como aparece à superfície e se torna visível – o qual no fundo nada mais é senão uma imagem luminosa lançada sobre uma parede escura, isto é, uma aparência de uma ponta à outra –, se penetrarmos bem mais no mito que se projeta nesses espelhamentos luminescentes, perceberemos então, de repente, um fenômeno que tem uma relação inversa com um conhecido fenômeno óptico.  Quando, numa tentativa enérgica de fitar de frente o Sol, nos desviamos ofuscados, surgem diante dos olhos, como uma espécie de remédio, manchas escuras:inversamente, as luminosas aparições dos heróis de Sófocles, em suma, o apolíneo da máscara, são produtos necessários de um olhar no que há de mais íntimo e horroroso na natureza, como que manchas luminosas para curar a vista ferida pela noite medonha. Só nesse sentido devemos acreditar que compreendemos corretamente o sério e importante conceito de ‘serenojovialidade grega’; ao passo que, na realidade, em todos os caminhos e sendas do presente, encontramo-nos com o conceito falsamente entendido dessa serenojovialidade, como se fosse um bem-estar não ameaçado .”
“A mais dolorosa figura do palco grego, o desventurado ÉDIPO, foi concebida por Sófocles como a criatura nobre que, apesar de sua sabedoria, está destinada ao erro e à miséria, mas que, no fim,  por seus tremendos sofrimentos, exerce à sua volta um poder mágico abençoado, que continua a atuar mesmo depois de sua morte. A criatura nobre não peca, é o que o profeta profundo nos quer dizer: por sua atuação pode ir abaixo toda e qualquer lei, toda e qualquer ordem natural e até o mundo moral, mas exatamente por essa atuação é traçado um círculo mágico superior de efeitos que fundam um novo mundo sobre as reinas do velho mundo, que foi derrubado. É o que o poeta, na medida em que é ao mesmo tempo um pensador religioso, nos quer dizer: como poeta, ele nos mostra primeiro um nó processual prodigiosamente atado, que o juiz lentamente, laço por laço, desfaz, para a sua própria perdição; a autêntica alegria helênica por tal desatamento dialético é tão grande que, por esse meio, um sopro de serenojovialidade superior se propaga sobre a obra inteira, o qual apara por toda a parte as pontas dos horríveis pressupostos daquele processo. Em Édipo em Colono nos deparamos com essa mesma serenojovialidade, porém elevada a uma transfiguração infinita; em face do velho, atingido pelo excesso de desgraça, que, a tudo quanto lhe advém, é abandonado como puro sofredor – ergue-se a serenojovialidade sobreterrena, que baixa das esferas divinas e nos dá a entender que o herói, em seu comportamento puramente passivo, alcança a suprema atividade, que se estende muito além de sua vida, enquanto que a sua busca e empenho conscientes apenas o conduziram à passividade. (...)”
“À glória da passividade contraponho agora a glória da atividade, que o Prometeu de Ésquilo ilumina. Aquilo que o pensador Ésquilo tinha aqui a nos dizer, aquilo que ele como poeta apenas nos deixou pressentir através de sua imagem alegórica, é o que o jovem Goethe soube nos desvendar nas arrojadas palavras de seu Prometeu:

Aqui sentado, formo homens
À minha imagem,
Uma estirpe que seja igual a mim,
Para sofrer, para chorar,
Para gozar, para alegrar-se
E para não te respeitar,
Como eu!

“O homem, alçando-se ao titânico, conquista por si a sua cultura e obriga os deuses a se aliarem a ele, porque, em sua autônoma sabedoria, ele tem na mão a existência e os limites desta. O mais maravilhoso, porém, nesse poema sobre Prometeu, que por seu pensamento básico constitui o próprio hino da impiedade, é o profundo pendor esquiliano para a justiça: o incomensurável sofrimento do ‘indivíduo’ audaz, de um lado, e, de outro, a indigência divina, sim, o pressentimento de um crepúsculo dos deuses, o poder que compele os dois mundo do sofrimento à reconciliação, à unificação metafísica – tudo isso lembra, com máxima força, o ponto central e a proposição principal da consideração esquiliana do mundo, aquela que vê Moira tronando, como eterna justiça, sobre deuses e homens. (...)

“O pressuposto desse mito prometéico é o valor incalculável que o homem ingênuo atribui ao fogo como verdadeiro Pládio de toda cultura nascente: mas que o homem reine irrestritamente sobre o fogo e que o receba não como uma dádiva do céu, como raio incendiário ou como ardente queimor do Sol, isto é algo que àqueles contemplativos homens primevos parecia um sacrilégio, um roubo perpetrado contra a natureza divina. E assim o primeiro problema filosófico estabelece imediatamente uma penosa e insolúvel entre homem e deus, e coloca como um bloco rochoso à porta de cada cultura. O melhor e o mais excelso do que é dado à humanidade participar, ela o consegue graças a um sacrilégio, e precisa agora aceitar de novo as suas conseqüências, isto é, todo o caudal de sofrimentos e pesares com que os ofendidos Celestes afligem o nobre gênero humano que aspira as Ascenso: é um áspero pensamento que, através da dignidade que confere o sacrilégio, contrasta estranhamente com o mito semítico do pecado original, em que a curiosidade, a ilusão mentirosa, a sedutibilidade, a cobiça, em suma, uma série de afecções particularmente femininas são vistas como a origem do mal. O que a representação ariana distingue é a ideia sublime do pecado ativo como a virtude genuinamente prometéica: com o que é encontrado ao mesmo tempo o substrato ético da tragédia pessimista, como a justificação do mal humano e, na verdade, tanto da culpa humana quanto do sofrimento por ela causado”. F. Nietzsche em O Nascimento da tragédia, p.63-67).