Descia sempre àquele porão.
Ali guardava coisas velhas de
que poderia precisar um dia (“Quem guarda tem”, lembrava do avô a sentenciar),
ou objetos novos para os quais não havia ainda definido um lugar apropriado na
casa. Além de ferramentas as mais diversas. Havia muitos papeis antigos também.
Ele, muitas vezes, descia aquelas escadas automaticamente, sem nenhuma razão
clara ou interesse manifesto. De toda forma, sentia a exigência de descer.
Na descida daquela tarde,
sentia-se especialmente movido pela comoção. Era uma tarde como tantas outras
de junho, amena, de vento leve, céu cinzento. Estava sozinho em casa. Bastou que
chegasse e começou a chorar. Sorvia grandes porções de ar, tentando evitar
aquilo que para ele era um desatino. Assim que saiu da escada, dirigiu-se a uma
pequena caixa de papelão ordinário, dentro da qual estavam os pedaços de amor
guardados. Tocou, um a um, todos os
objetos, apertava-os com os dedos enquanto o pensamento mudava tudo de lugar na
memória. Por segurança, guardou tudo novamente na velha caixa e perguntou-se se
a vida não era mesmo em senhas. Ainda lembrou-se do filme do Buñuel antes de
subir correndo as escadas.
Na subida sentiu saudade do
futuro, e ainda lembrou-se, desta vez de Manuel Bandeira, da "vida inteira que
podia ter sido e que não foi”. Ou bien si
peu de choses.

