domingo, 11 de novembro de 2012

Missa das onze e meia



N.Sra. da Conceição, Congonhas-MG (Foto: Imaginário)


No centro da celebração, duas viúvas:

“Então, Elias se levantou e se foi a Sarepta; chegando à porta da cidade, estava ali uma mulher viúva apanhando lenha; ele a chamou e lhe disse: Traze-me, peço-te, uma vasilha de água para eu beber. Indo ela a buscá-la, ele a chamou e lhe disse: Traze-me também um bocado de pão na tua mão. Porém ela respondeu: Tão certo como vive o SENHOR, teu Deus, nada tenho cozido; há somente um punhado de farinha numa panela e um pouco de azeite numa botija; e, vês aqui, apanhei dois cavacos e vou preparar esse resto de comida para mim e para o meu filho; comê-lo-emos e morreremos. Elias lhe disse: Não temas; vai e faze o que disseste; mas primeiro faze dele para mim um bolo pequeno e traze-mo aqui fora; depois, farás para ti mesma e para teu filho. Porque assim diz o SENHOR, Deus de Israel: A farinha da tua panela não se acabará, e o azeite da tua botija não faltará, até ao dia em que o SENHOR fizer chover sobre a terra. Foi ela e fez segundo a palavra de Elias; assim, comeram ele, ela e a sua casa muitos dias (Reis 1, 17, 10-15).

"E, estando Jesus assentado defronte da arca do tesouro, observava a maneira como a multidão lançava o dinheiro na arca; e muitos ricos lançavam muito. Vindo, porém, uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, que valiam meio centavo. E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva lançou mais do que todos os que deitaram na arca do tesouro; porque todos ali deixaram do que lhes sobrava, mas esta, da sua pobreza, deixou tudo o que tinha, todo o seu sustento" (Marcos 12, 41-44).




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“No episódio do óbolo da viúva no Templo de Jerusalém, Jesus se mostrou, ainda uma vez, um Mestre admirável ao elogiar o gesto de uma pobre mulher, mostrando que seu donativo de pequeno valor estava acima de todas as outras ofertas daqueles  que depositaram vultosas  quantias.

Explicou então: “Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver” (Mc 12,44).. Não sabemos nada acerca desta mulher, nada sobre suas alegrias ou tristezas, nem das dificuldades para ajuntar as duas moedas. Sabemos somente que as viúvas da época de Jesus estavam entre as mais pobres do povo. Não tinham nenhum lugar garantido para morar, nem nenhuma fonte de renda.

Estavam destinadas praticamente à mendicidade. Entretanto, o que nos deve prender a atenção não é tanto a diferença entre a doação de uma daquelas viúvas e a dos outros, mas o significado daquele dom. Ela estava completamente sem recursos materiais, mas deu tudo que ela tinha para viver. Jesus se serviu do acontecimento para ensinar a seus seguidores a não julgar apenas pelo exterior. O Pai do Céu vê o que está secreto no íntimo do coração. Isto basta. Esta lição interpela a todos os cristãos que vivem o contexto atual onde o aparecer é que predomina. Tudo que se faz deve cair no conhecimento de todos.

A viúva do Evangelho, porém, é bem a imagem das pessoas muito simples que estão ao nosso lado sem que as vejamos. Na sua discrição passam despercebidas. Por isto, a caridade de muitos se transforma num espetáculo e os pequenos gestos de serviços são deixados de lado, a ajuda aos deserdados fica esquecida. O importante não é o quanto se doa, mas a intenção com que se oferta e a postura religiosa do ofertante.

O governo que arrecada trilhões através dos impostos vive apresentando na mídia suas realizações mirabolantes, enquanto milhares de brasileiros continuam na miséria, carentes de uma boa assistência para a saúde, lhes faltando tantas vezes o mínimo para sobreviver. Para cada cristão Jesus está a lembrar que cumpre aprender a viver sob o olhar de Deus que vislumbra globalmente os mais necessitados e também o motivo de toda e qualquer assistência, a razão de ser da esmola que é dada. Cristo questiona o critério da generosidade, mesmo porque, de um modo geral, muitos políticos nunca tiram de suas posses, mas daquilo que advém dos cofres públicos. O gesto espontâneo e gratuito não deve ser coisa devida ou a exigir contrapartida. Deve provir da fonte nobre do amor e da solidariedade sincera.

A pobre viúva ofertou o que tinha porque ela se doava a Deus, confiava em Deus a quem desejava honrar com aquela doação tão simples. Os que fazem ofertas com ostentação nada contam diante do Ser Supremo. Aliás, que vale uma esmola que não priva a pessoa de nada? No contexto histórico atual no qual impera a rentabilidade tudo isto merece ser refletido. É preciso que se combatam as visões egoísticas e interesseiras. Por força de vivermos num mundo onde tudo é contado, medido, calculado,  contabilizado, se acaba, sem querer, a julgar as coisas em função do peso que dá a economia, em função da influência que o poder exerce. 

O critério é a quantidade e não a reta intenção e, por isto, a pessoa  humana fica desvalorizada. As aparências, contudo, não impressionam a Deus, que olha o íntimo do coração. A qualidade do coração do que dá é que vele e não a quantidade e os motivos meramente humanos. Deus quer que assistamos o próximo não apenas com o supérfluo, mas, sobretudo, com aquilo que é fruto de sacrifício, de privação voluntária do que é inútil na vida de cada um. É preciso, portanto, isto sim, investir tendo em vista o Reino de Deus, o amor ao semelhante e a paz social. Jesus veio mudar as ideias habituais sobre o dom, sobre a riqueza e a pobreza. Alguém pode ter muitos bens e ser pobre de coração ou alguém pode  possuir pouco mais ter um coração rico.

O que vale não os valores terrenos, o conforto, o dinheiro, nem mesmo o que não se tem, a própria fragilidade, mas a postura de desambição, de desapego de tudo, valorizando-se apenas aquilo que esteja imbuído de um sincero amor a Deus e ao próximo. Isto leva à imitação cabal do Filho de Deus que ocultou até de sua divindade, levado pela dileção imensa por toda a humanidade. Ele conhece o fundo dos corações e as intenções de tudo que se faz”.

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho. Fonte: Arquidiocese de Mariana-MG (http://www.arqmariana.com.br/?p=24095).



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Linhas e pios



O horizonte desaparecia, escurecendo, deixando clara a ilusão da fronteira entre o céu e a terra. No meio daquele ermo e da pesada noite que já caía, ouvi o pio de um passarozinho muito miúdo, da cor do chão. Era um sabiá-do-campo e estava pousado num galho seco da sucupira à esquerda da minha janela. Lembrou-me o João-de-barro, pela cor, mas era outro e sozinho. Não podia vê-lo como sombra ou aviso, era apenas a necessidade simples da leveza e da liberdade, o que aquele pássaro me trazia. Por um segundo ou dois trocamos olhares e ele se foi, para nunca mais, porque todos são iguais.

Foto: Imaginário



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Umbigo do mundo


Sobre o mourão de uma porteira de cercado para bois e vacas,
um dia, há muito tempo, e longe,
foi deixado, sob chuva e
ofertado aos deuses,
por minha mãe
o meu
um
bi
go
se
co
...
..
.

Serra das Araras-MG (Foto: Imaginário)



terça-feira, 6 de novembro de 2012

Prêmio Dardos 2012


Entre surpreendido e contente, recebo do querido blog www.arteseescritas.blogspot.com.br a indicação para compartilhar o Prêmio Dardos 2012.

Este humilde espaço imaginário não se julga merecedor de prêmio algum e gostaria muitíssimo de compartilhá-lo com todos os seus seguidores, esses sim, suas verdadeiras riquezas e motivos para que ele continue existindo. As regras para receber o prêmio estão listadas a seguir e apenas para não quebrar nenhuma delas (especialmente quando se trata da regra 3 !) é que listo os quinze endereços para compartilhar esta distinção.



As regras:

1. Exibir a imagem do selo em seu blog;
2. Lincar o blog pelo qual recebeu a indicação;
3. Escolher outros quinze blogs a quem entregar o prêmio dardos
4. Avisar os escolhidos.
A seguir os meus indicados (e devo dizer que me custou para limitá-los a quinze):


Obrigado, Yayá !!
Grande abraço. Considerei a lembrança também como se me desculpasse pelo sumiço. 

domingo, 4 de novembro de 2012

Casas e moradas


Andrômeda (Fonte: Observatório Astronômico-UFMG)


O que penso, às vezes, é que a vida é viajante e que se hospeda em mim, como se num hotelzinho reles – o que o meu corpo seria só.



Missa das onze e meia

Diamantina-MG (Foto: Imaginário)

31º Domingo do Tempo Comum - Todos os Santos e Santas
04 de novembro de 2012

"E um dos Anciãos falou comigo e perguntou: 'Quem são esses vestidos com roupas brancas? De onde vieram?' Eu responde: 'Tu é que sabes, meu senhor'. E então ele me disse: 'Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro'" (Apocalipse de João 7, 13-14).



domingo, 28 de outubro de 2012

Intuição do instante II



Muito raro é viver hoje
(na verdade, o que seria recomendável).
Mais comum é viver ontem ou amanhã e até depois.

Difícil capturar o momento; intuir o instante.
(Única realidade do tempo: um quase nada).

Dramático mesmo é vi(ver) a volúpia demoníaca do amanhã,
(que consiste na sua vontade inconfessada de não existir:
de ser logo ontem, desde sempre o que nunca foi e jamais será).

Eis o dilema da fotografia: ela captura o instante,
mas o retira do tempo, seu espaço de caminhar.

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Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.”

Vinicius de Morais
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“Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho demudasse – se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. O passado – é ossos em redor de ninho de coruja... E, do que digo, o senhor não me mal creia: que eu estou bem casado de matrimônio – amizade de afeto por minha bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas – se eu tivesse permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a chefia em que eu era o Urutu-Branco, quantas coisas terríveis o vento das nuvens havia de desmanchar, para não sucederem? Possível o que é – possível o que foi. O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente... E – mesmo – possível o que não foi. O senhor talvez não acha?” 

Riobaldo/Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas






Ilhéus-BA (Fotos: Imaginário)


Missa das onze e meia

Uma tarde em Salvador-BA (Foto: Imaginário)

30º Domingo do Tempo Comum
28 de outubro de 2012

Se a vida vem em ondas, como diz a canção popular, a fé deve vir aos saltos:

“O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: ‘Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!’ Muitos o repreendiam para que se calasse, mas ele gritava mais ainda. (...) Então Jesus parou e disse: ‘Chamai-o’. Eles o chamaram e disseram: ‘Coragem, levanta-te, Jesus te chama!’ O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus” (Marcos 10, 46-50).