| Matriz de Pirapora-MG (Foto: Imaginário) |
“Como não
ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível,
o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e
a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo
facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um
pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem
licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa
encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços.
Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de
se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho
não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O
que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o
demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe,
aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode
ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a
gente tudo vendo” (João Guimarães Rosa, em Grande
sertão: veredas).