domingo, 16 de setembro de 2012

A intuição do instante


Às vezes olho para a água e reconheço nela meu primeiro espelho.

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Para Riobaldo os rios não escorrem horizontalmente, mas crescem, como árvores, na vertical, à semelhança de um grande tronco. Suas margens são abismos, paredões, precipícios. Toda a matéria viva na terra “cresce” nessa mesma direção, em busca de luz. Por isso os “rios bonitos” são os que nascem no poente (na sombra) e caminham, não descendo, mas subindo em direção à luz, ao sol nascente. São orientados para o conhecimento. “Hora da palavra, hora de não dizer nada, fora da palavra, quando mais dentro aflora toda a palavra, rio”. O homem no meio do rio, como o "diabo na rua, no meio do redemoinho".
Aspas para JGR, via Riobaldo, e para Milton Nascimento.

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“Observai-vos. Caímos num padrão de pensamento e de ação, no qual nos deixamos ficar por ser muito mais cômodo, pois já não temos necessidade de pensar; antes, talvez tenhamos refletido um pouco, mas agora não há mais necessidade de fazê-lo. Isso proporciona ao indivíduo uma enorme satisfação como fazê-lo pensar que está realizando um ótimo trabalho; ele não ousa questionar nada, porque isso é muito incômodo e perturbador. Não ousais questionar vossa religião, vossa comunidade, vossa crença, a estrutura social, o nacionalismo, a guerra; aceitai tudo; Observai-vos interiormente. Vede como sois indolentes. O caos atual é devido a vossa indolência, porque desististes de questionar, desististes de duvidar; porque aceitais” (Jiddu Krishnamurti).

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“La science est la connaissance rationelle, discursive, toujours indirecte, une connaissance  par reflet. Cette intuition intelectuelle pure, sans laquelle Il n’y a pas de métaphysique vraie, ne doit d’ailleurs aucunement être assimillée à l’intuition don’t parlent certains philosophes contemporains, car celle-ci est, au contraire, infra-rationelle. Il y a  une intuition intelectuelle et une intuition sensible; l’une est au delà de la raison, mais l’autre est en deçà.; cette dernière ne peut saisir que le monde du changement et du devenir, c´est-à-dire la nature, ou plutôt un infime partie de la nature. Le domaine de l’intuition intelectuelle, au contraire, c´est le domaine des principles éternels et immuables, c´est le domaine métaphysique” (René Guenon, na Metafísica oriental).







Missa das onze e meia

Conceição da Praia-Salvador (Foto: Imaginário)

24º Domingo do Tempo Comum
16 de setembro de 2012

"Em compensação, alguém poderá dizer: 'Tu tens a fé e eu tenho a prática!'. Tu, mostra-me a tua fé sem obras, que eu te mostrarei a minha fé pelas obras!" (Carta de São Tiago 2, 18).



domingo, 9 de setembro de 2012

Acordes


A cor
do som
da solidão,
nas cordas da viola,
meu coração também acorda.

Rio São Francisco (Foto: Imaginário)

Rio São Francisco (Foto: Imaginário)
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A canção de Siruiz

(Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas).

“Urubu é vila alta,
mais idosa do sertão:
padroeira, minha vida –
vim de lá, volto mais não...
Vim de lá, volto mais não?...

Corro os dias nesses verdes,
meu boi mocho baetão:
buriti – água azulada,
carnaúba – sal do chão...
        
Remanso de rio largo,
viola da solidão:
quando vou p’ra dar batalha,
convido meu coração..." 

 









Missa das onze e meia

Rosário e Pilar em SJDR (Foto: Imaginário)

23º Domingo do Tempo Comum
9 de setembro de 2012

"Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d`água" (Isaías 35, 5-7a).

domingo, 2 de setembro de 2012

Vertigens e miragens de tempos, sons e espaços

(Imagem: Imaginario)

(Des)entardesceres

Na pracinha do bairro, o homem se assusta : descobre que a pracinha, no final dos dias, sol indo... – as luzes do dia e da noite se encontrando – é um bom lugar! Um homem que se vê envelhecendo – não se sabe se sem mais nem menos – dias inteiros se [re]fazendo... Desde então pensa vestir mais bermuda; calçar mais vezes chinelos franciscanos... Agora mesmo está na loja, comprando um chapéu de feltro – é preciso abrigar do sol o velho blues mineiro, que se ouve sempre logo de manhã.

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“Queria eu lá viver perto de chefes? Careço é de pousar longe das pessoas de mando, mesmo de muita gente conhecida. Sou peixe de grotão. Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto, também. Ninguém, com dádivas e gabos, não me transforma. (...). Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe” (Riobaldo, em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa).






Last Walk Around Mirror Lake - Boom Bip (Boards of Canada Remix) from FroschYankee on Vimeo.



Missa das onze e meia


22º Domingo do Tempo Comum
02 de setembro de 2012

"Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas" (Carta de Tiago 1, 21b).


domingo, 26 de agosto de 2012

Sono de pedra e outros sonos


Espaços entre os traços.
– a linha percorre os abstratos,
matemáticos vazios posicionados.
Série de pontos mínimos.
– inacessíveis.
Redes de ausências.
– essências espaciais:
alguma forma de esperança.
Eu não gosto de cálculos;
Gosto de sonhos...
E de palavras mágicas!
Desenhos de nuvens me encantam e
sorrisos instantâneos também.

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Num dos prefácios de Tutaméia, João Guimarães Rosa anota, depois de epígrafe, em que se lê que “A matemática não pôde progredir, até que os hindus inventassem o zero”: “Meu duvidar é da realidade sensível aparente – talvez só um escamoteio das percepções (...) Porém procuro cumprir, (...), empírico modo ensina: disciplina e paciência. Acredito ainda em outras coisas, no boi, por exemplo, mamífero voador, não terrestre” (p.148). O autor coloca o leitor exatamente no lugar desejado: na atitude de suspensão do paradigma da racionalidade (“realidade sensível aparente”, “empírico modo”), e de abertura para a imaginação (“boi, mamífero voador, não terrestre”). Para acrescentar, logo em seguida: “Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito, será que basta? Meu duvidar é uma petição de mais certeza”. No balanço do pêndulo entre o racionalismo objetivo aristotélico e o idealismo subjetivo platônico, restam claros um convite e a posição de fala do autor/narrador.

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LAS SEIS CUERDAS

La guitarra,
Hace llorar a los sueños.
El sollozo de las almas
perdidas,
se escapa por su boca
redonda.
Y como la tarántula
teje una gran estrella
para cazar suspiros,
que flotan en su negro
aljibre de madeira.

FEDERICO GARCÍA LORCA, em “Canto jondo”.