"Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d`água" (Isaías 35, 5-7a).
Na pracinha
do bairro, o homem se assusta : descobre que a pracinha, no final dos dias, sol
indo... – as luzes do dia e da noite se encontrando – é um bom lugar! Um homem
que se vê envelhecendo – não se sabe se sem mais nem menos – dias inteiros se [re]fazendo...
Desde então pensa vestir mais bermuda; calçar mais vezes chinelos
franciscanos... Agora mesmo está na loja, comprando um chapéu de feltro – é
preciso abrigar do sol o velho blues mineiro, que se ouve sempre logo de manhã.
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“Queria eu lá viver perto de chefes? Careço é de
pousar longe das pessoas de mando, mesmo de muita gente conhecida. Sou peixe de
grotão. Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto, também. Ninguém,
com dádivas e gabos, não me transforma. (...). Coração cresce de todo lado.
Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e
campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe” (Riobaldo, em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa).
Num dos
prefácios de Tutaméia, João Guimarães Rosa anota, depois de epígrafe, em
que se lê que “A matemática não pôde progredir, até que os hindus inventassem o
zero”: “Meu duvidar é da realidade sensível aparente – talvez só um escamoteio das
percepções (...) Porém procuro cumprir, (...), empírico modo ensina: disciplina
e paciência. Acredito ainda em outras coisas, no boi, por exemplo, mamífero
voador, não terrestre” (p.148). O autor coloca o leitor exatamente no lugar
desejado: na atitude de suspensão do paradigma da racionalidade (“realidade
sensível aparente”, “empírico modo”), e de abertura para a imaginação (“boi,
mamífero voador, não terrestre”). Para acrescentar, logo em seguida: “Tudo se
finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito, será que basta? Meu
duvidar é uma petição de mais certeza”. No balanço do pêndulo entre o
racionalismo objetivo aristotélico e o idealismo subjetivo platônico, restam
claros um convite e a posição de fala do autor/narrador.
“Os sonhos são como a tradução para uma língua de coisas intraduzíveis de outra; ou como a transposição para a linguagem – forçosamente confusa ou complicada – de sentimentos vagos ou complexos, que a redacção normal não pode comportar”.