“Porque, por fim, ele exigiu
minha atenção toda, e disse:
– ‘Riobaldo, eu sei a amizade de
que agora tu precisa. Vai lá. Mas, me promete: não adia, não desdenha!
Daqui, e
reto, tu sai e vai lá. Diz que é de minha parte... Ele é diverso de todoo
mundo.’
Mesmo escreveu um bilhete, que eu
levasse. Ao quando despedi, e ele me abraçou,senti o afeto em ser de pensar.
Será que ainda tinha aquele apito, na algibeira? E gritou: – ‘Safas!’–; maximé.
Tinha de ser Zé Bebelo, para
isso. Só Zé Bebelo, mesmo, para meu destino começar de salvar. Porque o bilhete
era para o Compadre meu Quelemém de Góis, na Jijujã – Vereda do Buriti Pardo.
Mais digo? O senhor vá lá. No tempo de maio, quando o algodão lãla. Tudo o
branquinho. Algodão é o que ele mais planta, de todas as modernas qualidades: o
rasga-letras, biból, e mussulim. O senhor vai ver pessoa de tal rareza, como
perto dele todo-o-mundo pára sossegado, e sorridente, bondoso... Até com o
Vupes lá topei.
Compadre meu Quelemém me
hospedou, deixou meu contar minha história inteira. Como vi que ele me olhava
com aquela enorme paciência – calma de que minha dor passasse; e que podia
esperar muito longo tempo. O que vendo, tive vergonha, assaz. Mas, por fim, eu
tomei coragem, e tudo perguntei:
– ‘O senhor acha que a minha alma
eu vendi, pactário?!’ Então ele sorriu, o pronto sincero, e me vale me
respondeu:
– ‘Tem cisma não. Pensa para
diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais...’
E me cerro, aqui, mire e veja.
Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o
que fui e vi, no levantar do dia. Auroras.
Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora
estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei
de mim? Cumpro” (Riobaldo, em Grande
sertão: veredas, de João Guimarães Rosa).