segunda-feira, 16 de julho de 2012

domingo, 15 de julho de 2012

Para uma filha da Luz



             

... ђ...
 Com meu carinho,
meus respeitos,
tropeços e
delírios
[diversos].

Ao meu eterno amor


À minha doce flor, que não está comigo, agora. Não demora, dor, se tiver mesmo que ir;
não demora, amor, se tem mesmo que voltar...





 
Pequenina
[Renato Teixeira]

São tão claros os presságios
e os encontros dessa vida
Quando as partes combinadas
surgem numa mesma estrada
E na dimensão dos sonhos
sob a sombra das palavras
É que eu mando um abraço pra ti
pequenina
Flor vermelha tão cheirosa,
tão bonita e amorosa
Onde a essência dessa estória
paira plena na memória
Não pergunte pelo tempo,
pois o tempo é agora
O futuro na luz da manhã
não demora.


Missa das onze e meia


15º Domingo do Tempo Comum
15 de julho de 2012

"Ele nos fez conhecer o mistério da sua vontade, o desígnio benevolente que de antemão determinou em si mesmo, para levar à plenitude do tempo (...) o universo inteiro: tudo (...) (Efésios, 3, 9-10)



Um dos eixos



Há um esquema muitíssimo simples em literatura para elaborar momentos decisivos na trajetória do herói e que é expresso por meio de uma imagem espacial. O personagem é colocado num ponto alto de onde pode contemplar o mundo, mas seu poder tem raízes no chão, num ponto obscuro.  A imagem nos traz Satanás a tentar Cristo no alto da montanha, mas a construção é rica em significação material. Não faltam exemplos na literatura: em Stendhal, a torre onde o Padre Blanès ensina Fabrizzio e a torre Farnésia em que o mesmo Fabrízzio é preso e ama Clélia Conti; o morro dos Alpes Delfinenses, onde Julien Sorel concentra-se para suas grandes decisões ou a torre da cadeia, em que espera a guilhotina; em Balzac, as alturas de Montmartre, em que Rastignac lança seu desafio a Paris (“Agora é entre nós dois”); Hugo mostra Paris a partir da pureza do alto de Nôtre-Dame, com Quasimodo. Cristo encontra forças no jejum do deserto; Fabrízzio vive sua glória, sem nem o saber, na batalha de Waterloo, na planície; Rastignac é instigado pelo demônio Vautrin, que habita a pensão; Victor Hugo não deixa de nos mostrar o Pátio dos Milagres, espécie de submundo parisiense.

Essa polarização entre o alto e o baixo, a claridade e a obscuridade, assume as formas da montanha e da caverna, da torre e do nível do chão, do morro e do fundo vale. Num dos pólos, o poder; no outro sua fonte. Em cima o céu, embaixo a água. No primeiro, expansão; no segundo, concentração. Será preciso esclarecer a sombra como fonte da luz, e não gostaríamos de voltar à Farbenlehre de Goethe para isso. Por hora apenas um trecho d` O Conde de Monte-Cristo de Alexandre Dumas. É o momento da narrativa em que Edmundo acaba de escapar do “subterrâneo”, ou seja, a prisão em que se encontrava, em outra ilha, e estava prestes a descer de novo à “caverna” para reunir as condições necessárias à realização de seus planos, concebidos na prisão. Agora, diferentemente, descerá livre, por sua vontade, às trevas.

“O sol tinha chegado mais ou menos à terça parte do seu curso, e os raios de verão caíam quentes e vivificantes sobre os rochedos que pareciam, eles próprios, sensíveis ao seu calor; milhares de cigarras, invisíveis pelo matagal, faziam ouvir um murmúrio monótono e continuado; as folhas das murtas e das oliveiras se agitavam frementes, produzindo barulho quase metálico; a cada passo que dava no granito aquecido, Edmundo espantava lagartixas que pareciam esmeraldas; ao longe, viam-se pular as cabras selvagens, que por vezes atraem ali os caçadores; numa palavra, a ilha era habitada, viva, animada, e no entanto Edmundo sentia-se só, debaixo da mão de Deus (...) Trazendo os olhos para as coisas que o rodeavam de mais perto, viu-se no ponto mais alto da ilha cônica, – frágil estátua desse pedestal imenso; abaixo dele, nenhum homem; em torno dele nenhuma barca: apenas o mar azulado, que vinha bater no pé da rocha, debruado de uma franja de prata pelo choque sempiterno”. 

Imagem: Fitzcarraldo, de Herzog, em www.cinemaeuropeu.blogspot.com




sexta-feira, 13 de julho de 2012

De medos e esperanças

Palavras e outros sons já muito ouvidos e bastante conhecidos, mas que não me cansam. Para quem estuda o espaço na literatura é preciosa a ideia de delimitar os lugares de sentimentos como o medo e a esperança.


MURAR O MEDO, por Mia Couto, na Conferência de Estoril 2011.

"O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incómodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe."



Stand By Me | Playing For Change | Song Around The World from Concord Music Group on Vimeo.



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Contra o atlas visual


Nosso primeiro atlas não foi visual.
No ritmo dos reflexos, primeiro e quase junto,
senti meu corpo roçar o corpo de minha mãe.

Tantos sons ouvi, tanto canto, e doce voz,
que, quando nasci, mesmo de olhos fechados,
sabia quem era minha mãe. Reconhecia a voz.

Meu primeiro atlas foi auditivo e táctil.
No ritmo dos reflexos, nadei sem ver, nem
norte nem sul: - flutuava àquele som.

Também ouvindo, por minha pele percebi,
incrédulo, passar o calor. E ao nascer,
mesmo de olhos fechados, “vi” minha mãe.




quarta-feira, 11 de julho de 2012

O seu silêncio

A hora da palavra é a hora de não dizer nada.
Nessa hora, em que penso em você,
em Guimarães Rosa e em Milton Nascimento,
ouço Ivan.