quinta-feira, 12 de julho de 2012

Contra o atlas visual


Nosso primeiro atlas não foi visual.
No ritmo dos reflexos, primeiro e quase junto,
senti meu corpo roçar o corpo de minha mãe.

Tantos sons ouvi, tanto canto, e doce voz,
que, quando nasci, mesmo de olhos fechados,
sabia quem era minha mãe. Reconhecia a voz.

Meu primeiro atlas foi auditivo e táctil.
No ritmo dos reflexos, nadei sem ver, nem
norte nem sul: - flutuava àquele som.

Também ouvindo, por minha pele percebi,
incrédulo, passar o calor. E ao nascer,
mesmo de olhos fechados, “vi” minha mãe.




quarta-feira, 11 de julho de 2012

O seu silêncio

A hora da palavra é a hora de não dizer nada.
Nessa hora, em que penso em você,
em Guimarães Rosa e em Milton Nascimento,
ouço Ivan.





terça-feira, 10 de julho de 2012

Um pouco de quietude



Eu quero falar com estrelas. À sombra do velho Cedro de João de Deus, nem ouço bem a ordem, que desconfio provocadora, de Antero. “Surge et ambula”, parece querer de mim o tal realista. Desisto de conhecer bem o que quer que seja... Não quero mudar coisas que por si mudam. Não me importa lutar contra o efêmero, o passageiro. A aparência sai com água. 



“A estrela da manhã

Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noite
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
      [comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.”

MANUEL BANDEIRA








“Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.

E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, em “Confidências de Itabirano”.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Saudade. Destino: voltar.



Na noite fechada
a vida pode rebentar.
Na sombra da lua dada,
quem vai poder reclamar?

Quem vai poder reclamar?
Se é clarão, luz domada,
dada luz a proclamar
sua vida calada.
...
.
...
As estrelas todas,
Nós todos a anunciar:
tudo é sombra ou nada.
Quem vai poder reclamar?

Quem vai poder reclamar?
Não a mão tão inventada,
que devia descansar,
sempre brotada.



Três músicas III




Quando não tiver mais nada
Nem chão, nem escada
Escudo ou espada
O seu coração... Acordará

Quando estiver com tudo
Lã, cetim, veludo
Espada e escudo
Sua consciência... Adormecerá

E acordará no mesmo lugar
Do ar até o arterial
No mesmo lar, no mesmo quintal
Da alma ao corpo material

Hare Krishna Hare Krishna
Krishna Krishna
Hare Hare
Hare Rama Hare Rama
Rama Rama
Hare Hare

Quando não se tem mais nada
Não se perde nada
Escudo ou espada
Pode ser o que se for... Livre do temor

Hare Krishna Hare Krishna
Krishna Krishna
Hare Hare
Hare Rama Hare Rama
Rama Rama
Hare Hare

Quando se acabou com tudo
Espada e escudo
Forma e conteúdo
Já então agora dá... Para dar amor

Amor dará e receberá
Do ar, pulmão; da lágrima, sal
Amor dará e receberá
Da luz, visão do tempo espiral

Amor dará e receberá
Do braço, mão; da boca, vogal
Amor dará e receberá
Da morte o seu guia natal

Adeus dor

Hare Krishna Hare Krishna
Krishna Krishna
Hare Hare
Hare Rama Hare Rama
Rama Rama

NANDO REIS /ARNALDO ANTUNES



domingo, 8 de julho de 2012

Três músicas II



 
Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu
Vai mostrar esta saudade, sonho meu
Com a sua liberdade, sonho meu
No meu céu a estrela-guia se perdeu
A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu

Sinto o canto da noite na boca do vento
Fazer a dança das flores no meu pensamento
Traz a pureza de um samba
Sentido, marcado de mágoas de amor
Um samba que mexe o corpo da gente
E o vento vadio embalando a flor

DONA IVONE LARA / DÉCIO DE CARVALHO



Três músicas I




Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade
A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza, é só tristeza
E a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim

Não há paz, não há beleza, é só tristeza
E a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Dentro dos meus braços os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim

Não quero mais esse negócio de você longe de mim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim

TOM / VINICIUS

Hermetismos pascoais



“O fogo dá forma e torna tudo perfeito, como está escrito: Ele insuflou no seu rosto o sopro da vida (...) o fogo torna sutis todas  as coisas materiais que formam a matéria”.

Nada do que é pesado pode ser leve sem a ajuda do que é leve. E o que é leve não pode ser arrastado para baixo sem a presença do que é pesado. A Turba diz o seguinte: Fazei o corpo espiritual e o que é fixo, volátil”.

“Aurora consurgens”, em O museu hermético, Alexander Roob, Taschen, p.363.

Eu trouxe "levezas" vivas de lembranças do tempo de Minas. Há vários nomes por aí: biloca, gude, bila...