sexta-feira, 6 de julho de 2012

Às margens do Rio I




ÚLTIMA VIAGEM

Em memória de meus pais

dois barcos desceram o rio
águas azuis
viraram pedras
lapidadas
peixes e plantas
viraram contas
de um conto
que já não volta

dois barcos partiram
em definitivo
para além do rio encantado

jogaram cristais lilases
nos buritis da margem

IVAN PASSOS BANDEIRA DA MOTA

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Cari

Conta-se que Nossa Senhora chegou à beira do Rio São Francisco querendo atravessar para o outro lado. Vendo um cari, pergunta-lhe: "Cari, aí dá vau?". O cari, por deboche, fazendo uma careta, abre uma grande boca e responde, remedando Nossa Senhora: "Cariiiiii, aí dáááá vaaaaauuuu??!!". Nossa Senhora então diz: "Com esta boca você há de ficar".

Donde o cari ser o peixe mais feio do São Francisco. Uma boca grande e o corpo coberto por uma carapaça áspera e de cor escura. É um peixe pouco apreciado. Antigamente, em Pirapora, ninguém o comia. Quando apanhado, os pescadores jogavam-no fora. É conhecido também pelo nome de cascudo.

Fonte: Rio São Francisco: vapores e vapozeiros. Domingos Diniz, Ivan P. B. da Mata e Mariângela Diniz.

"Vau de rio é a coragem"; "vau do mundo é a alegria"


Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente,

Desejais regressar... Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança.
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade...

OLAVO BILAC, em Os Rios.

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Pirapora é um vau, um meio de caminho, um lugar para atravessar o caminho.









quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um instante

Horizontes de Paracatu

O buriti - água azulada - anuncia a vereda (boi sabe)


 A realidade está suspensa entre dois nadas. Dia de sol.


“Se nosso coração fosse amplo o bastante para amar a vida em seus pormenores, veríamos que todos os instantes são a um tempo doadores e espoliadores e que uma novidade recente ou trágica, sempre repentina, não cessa de ilustrar a descontinuidade essencial do Tempo”.

GASTON BACHELARD, em A intuição do instante, Verus Editora, 2007.







 Algumas imagens. Hoje só Rio; amanhã, cidade.




terça-feira, 3 de julho de 2012

Com sono em Pirapora-MG

Estudando João Guimarães Rosa, começo eu também a girar em torno do Rio São Francisco. Um dia vou escrever algo sobre essa ideia besta que toma o Velho Chico como "o rio da integração nacional". Acho que já tenho coisas (talvez outras besteiras) a dizer a respeito. Quase o dia todo o passei na estrada, para dormir em Pirapora-MG, num hotel de onde posso ver da janela o passar tranquilo das águas do Rio do Chico. Tenho fotografias, mas por razões técnicas (esqueci o cabo USB) não consigo mostrá-las.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Folga e cansaço


Como é possível um cansaço tão grande que, mesmo ganhando duas semanas de folga do trabalho, eu não tenha ânimo para viajar e só pense em dormir? Fiz as contas e acho que posso dormir dois dias e depois pegar a estrada por mais uns três ou quatro dias... Se a consciência pesar, volto. Tenho prazos a cumprir com o programa de mestrado, mas preciso de sono e de vento na cara. Outros lugares. Eu sei, eu sei: estou sem o meu lugar e não adianta mudar de lugar, deslocar-me... O que me falta continuará faltando não importa aonde eu vá. Mas eu preciso. Penso que já é uma grande vantagem não ter que ir à mesa do escritório por estes dias. O relógio derrete, pelo menos para este aspecto da vida. Estrada, logo. Destino? Nenhum, claro. De novo.

domingo, 1 de julho de 2012

Devaneios, casas e escadas



“Assim, a casa evocada por Bosco vai da terra para o céu. Tem a verticalidade da torre, elevando-se das mais terrestres e aquáticas profundezes até a morada de uma alma que acredita no céu. Tal casa, construída por um escritor, ilustra a verticalidade do humano. E é oniricamente completa. Dramatiza os dois pólos dos sonhos da casa. Faz a caridade de uma torre àqueles que talvez não tenham conhecido sequer um pombal. A torre é obra de outro século. Sem passado, ela nada é. Que coisa ridícula é uma torre nova! Mas os livros aí estão para dar mil moradas aos nossos devaneios. Na torre dos livros, quem não viveu suas horas românticas? Essas horas retornam. O devaneio tem necessidade delas. No teclado de uma vasta leitura ligada à função de habitar, a torre é uma nota para os grandes sonhos. Quantas vezes,  depois de ter lido l`antiquaire, fui habitar a torre de Henri Bosco!

“A torre e os subterrâneos de além-profundezas alongam nos dois sentidos da casa (...) Para nós, essa casa é uma ampliação da verticalidade das casas mais modestas que, para satisfazer aos nossos devaneios, também têm necessidade de diferenciar-se em altura. Se tivéssemos de ser o arquiteto da casa onírica, hesitaríamos entre a casa de três e a de quatro andares. A casa de três andares, a mais simples com referência à altura essencial, tem um porão, um pavimento térreo e um sótão. A casa de quatro pavimentos coloca um andar entre o pavimento térreo e o sótão. Um andar a mais, um segundo andar, e os sonhos se embaralham. Na casa onírica, a topoanálise só sabe contar até três ou quatro.

“Entre o um e o três ou quatro estão as escadas. Todas diferentes. A escada que conduz ao porão, descemo-la sempre. É a descida que fixamos em nossas lembranças, é a descida que caracteriza o seu onirismo. A escada que sobe até o quarto, nós a subimos e descemos. É um caminho mais banal. É familiar.

“(...) a escada do sótão, mais abrupta, mas gasta, nós a subimos sempre. Ela traz o signo da ascensão para a mais tranquila solidão. Quando volto a sonhar nos sótãos de antanho, não desço jamais.

“A psicanálise descobriu o sonho da escada. Mas, como tem necessidade de um simbolismo globalizante para fixar sua interpretação, deu pouca atenção à complexidade das misturas do devaneio com a lembrança. Eis por que, neste ponto como em outros, a psicanálise está mais apta a estudar os sonhos que os devaneios. A fenomenologia do devaneio pode deslindar o complexo de memória e imaginação. (...) Por vezes, alguns degraus inscreveram na memória um pequeno desnivelamento da casa natal”.

GASTON BACHELARD, em A poética do espaço. Martins Fontes, 2002, p.43-4. 


Caminhada para Trindade

Por mais de duas décadas faço esta caminhada e caminhei sozinho em meio à multidão esta noite, pelo terceiro ano consecutivo. A ausência dela, no entanto, foi o tempo todo mais significativa que a minha presença. Parecia que era eu o ausente.







Chopo y torre.

Sombra viva
y sombra eterna.

Sombra de verdes voces
y sombra exenta.

Frente a frente piedra y viento,
sombra y piedra.

FEDERICO GARCÍA LORCA,
1925.