segunda-feira, 2 de julho de 2012

Folga e cansaço


Como é possível um cansaço tão grande que, mesmo ganhando duas semanas de folga do trabalho, eu não tenha ânimo para viajar e só pense em dormir? Fiz as contas e acho que posso dormir dois dias e depois pegar a estrada por mais uns três ou quatro dias... Se a consciência pesar, volto. Tenho prazos a cumprir com o programa de mestrado, mas preciso de sono e de vento na cara. Outros lugares. Eu sei, eu sei: estou sem o meu lugar e não adianta mudar de lugar, deslocar-me... O que me falta continuará faltando não importa aonde eu vá. Mas eu preciso. Penso que já é uma grande vantagem não ter que ir à mesa do escritório por estes dias. O relógio derrete, pelo menos para este aspecto da vida. Estrada, logo. Destino? Nenhum, claro. De novo.

domingo, 1 de julho de 2012

Devaneios, casas e escadas



“Assim, a casa evocada por Bosco vai da terra para o céu. Tem a verticalidade da torre, elevando-se das mais terrestres e aquáticas profundezes até a morada de uma alma que acredita no céu. Tal casa, construída por um escritor, ilustra a verticalidade do humano. E é oniricamente completa. Dramatiza os dois pólos dos sonhos da casa. Faz a caridade de uma torre àqueles que talvez não tenham conhecido sequer um pombal. A torre é obra de outro século. Sem passado, ela nada é. Que coisa ridícula é uma torre nova! Mas os livros aí estão para dar mil moradas aos nossos devaneios. Na torre dos livros, quem não viveu suas horas românticas? Essas horas retornam. O devaneio tem necessidade delas. No teclado de uma vasta leitura ligada à função de habitar, a torre é uma nota para os grandes sonhos. Quantas vezes,  depois de ter lido l`antiquaire, fui habitar a torre de Henri Bosco!

“A torre e os subterrâneos de além-profundezas alongam nos dois sentidos da casa (...) Para nós, essa casa é uma ampliação da verticalidade das casas mais modestas que, para satisfazer aos nossos devaneios, também têm necessidade de diferenciar-se em altura. Se tivéssemos de ser o arquiteto da casa onírica, hesitaríamos entre a casa de três e a de quatro andares. A casa de três andares, a mais simples com referência à altura essencial, tem um porão, um pavimento térreo e um sótão. A casa de quatro pavimentos coloca um andar entre o pavimento térreo e o sótão. Um andar a mais, um segundo andar, e os sonhos se embaralham. Na casa onírica, a topoanálise só sabe contar até três ou quatro.

“Entre o um e o três ou quatro estão as escadas. Todas diferentes. A escada que conduz ao porão, descemo-la sempre. É a descida que fixamos em nossas lembranças, é a descida que caracteriza o seu onirismo. A escada que sobe até o quarto, nós a subimos e descemos. É um caminho mais banal. É familiar.

“(...) a escada do sótão, mais abrupta, mas gasta, nós a subimos sempre. Ela traz o signo da ascensão para a mais tranquila solidão. Quando volto a sonhar nos sótãos de antanho, não desço jamais.

“A psicanálise descobriu o sonho da escada. Mas, como tem necessidade de um simbolismo globalizante para fixar sua interpretação, deu pouca atenção à complexidade das misturas do devaneio com a lembrança. Eis por que, neste ponto como em outros, a psicanálise está mais apta a estudar os sonhos que os devaneios. A fenomenologia do devaneio pode deslindar o complexo de memória e imaginação. (...) Por vezes, alguns degraus inscreveram na memória um pequeno desnivelamento da casa natal”.

GASTON BACHELARD, em A poética do espaço. Martins Fontes, 2002, p.43-4. 


Caminhada para Trindade

Por mais de duas décadas faço esta caminhada e caminhei sozinho em meio à multidão esta noite, pelo terceiro ano consecutivo. A ausência dela, no entanto, foi o tempo todo mais significativa que a minha presença. Parecia que era eu o ausente.







Chopo y torre.

Sombra viva
y sombra eterna.

Sombra de verdes voces
y sombra exenta.

Frente a frente piedra y viento,
sombra y piedra.

FEDERICO GARCÍA LORCA,
1925.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Pajarito en la ventana


Um pássaro bem pequeno
Pousou na minha janela –
outro dia... De manhã.

Não tive a menor dúvida:
alguma mensagem trazia –
e, muito rápido, se foi.

Sem dizer nada, nada.
Fiquei com a imagem do olharzinho dele –
olhar e plumagem de mensageiro:
de quem vive no vento.

Esse pequeno súdito de Hermes –
vivente no reino do leva e traz,
por pouco nada me deixou.
Muito difícil sua língua, então,
hermético pardalzinho.

Depois, vi.

Cantaba cosas tan viejas como yo, el pajarito!
Lo mejor de mí, canta este pequeño pájaro.






domingo, 24 de junho de 2012

"Moço!: Deus é paciência"


"Tão bem, conforme. O senhor ouvia, eu lhe dizia: o ruim com o ruim, terminam por as espinheiras se quebrar – Deus espera essa gastança. Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja. O senhor rela faca em faca – e afia – que se raspam. Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se arredondinhando lisas, que o riachinho rola. Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e carece. Antesmente preciso. Deus não se comparece com refe, não arrocha o regulamento. Pra quê? Deixa: bobo com bobo – um dia, algum estala e aprende: esperta. Só que, às vezes, por mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta...

Haja? Pois, por um exemplo: faz tempo, fui, de trem, lá em Sete-Lagoas, para partes de consultar um médico, de nome me indicado. Fui vestido bem, e em carro de primeira, por via das dúvidas, não me sombrearem por jagunço antigo. Vai e acontece, que, perto mesmo de mim, defronte, tomou assento, voltando deste brabo Norte, um moço Jazevedão, delegado profissional.Vinha com um capanga dele, um secreta, e eu bem sabia os dois, de que tanto um era ruim, como o outro ruim era. A verdade que diga, primeiro tive o estrito de me desbancar para um longe dali, mudar de meu lugar. Juízo me disse, melhor ficasse. Pois, ficando, olhei. E – lhe falo: nunca vi cara de homem fornecida de bruteza e maldade mais, do que nesse. Como que era urco, trouxo de atarracado, reluzia um cru nos olhos pequenos, e armava um queixo de pedra, sobrancelhonas; não demedia nem testa. Não ria, não se riu nem uma vez; mas, falando ou calado, a gente via sempre dele algum dente, presa pontuda de guará. Arre, e bufava, um poucadinho. Só rosneava curto, baixo, as meias-palavras encrespadas. Vinha reolhando, historiando a papelada – uma a uma as folhas com retratos e com os pretos dos dedos de jagunços, ladrões de cavalos e criminosos de morte. Aquela aplicação de trabalho, numa coisa dessas, gerava a ira na gente. O secreta, xereta, todo perto, sentado junto, atendendo, caprichando de ser cão. Me fez um receio, mas só no bobo do corpo, não no interno das coragens. Uma hora, uma daquelas laudas caiu – e eu me abaixei depressa, sei lá mesmo por que, não quis, não pensei – até hoje crio vergonha disso – apanhei o papel do chão, e entreguei a ele. Daí, digo: eu tive mais raiva, porque fiz aquilo; mas aí já estava feito. O homem nem me olhou, nem disse nenhum agradecimento. Até as solas dos sapatos dele –só vendo – que solas duras grossas, dobradas de enormes, parecendo ferro bronze. Porque eu sabia: esse Jazevedão, quando prendia alguém, a primeira quieta coisa que procedia era que vinha entrando, sem ter que dizer, fingia umas pressas, e ia pisava em cima dos pés descalços dos coitados. E que nessas ocasiões dava gargalhadas, dava... Pois, osga! Entreguei a ele a folha de papel, e fui saindo de lá, por ter mão em mim de não destruir a tiros aquele sujeito. Carnes que muito pesavam... E ele umbigava um princípio de barriga barriguda, que me criou desejos... Com minha brandura, alegre que eu matava. Mas, as barbaridades que esse delegado fez e aconteceu, o senhor nem tem calo em coração para poder me escutar. Conseguiu de muito homem e mulher chorar sangue, por este simples universozinho nosso aqui. Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...

Tanto, digo: Jazevedão – um assim, devia de ter, precisava? Ah, precisa. Couro ruim é que chama ferrão de ponta. Haja que, depois – negócio particular dele – nesta vida ou na outra, cada Jazevedão, cumprido o que tinha, descamba em seu tempo de penar, também, até pagar o que deveu – compadre meu Quelemém está aí, para fiscalizar. O senhor sabe: o perigo que é viver... Mas só do modo, desses, por feio instrumento, foi que a jagunçada se findou. Senhor pensa que Antônio Dó ou Olivino Oliviano iam ficar bonzinhos por pura soletração de si, ou por rogo dos infelizes, ou por sempre ouvir sermão de padre? (...)”

Riobaldo, em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa.


Lições do Universo

Os versos da música ainda não são a minha realidade, de forma alguma, apesar de reconhecer sua verdade e sua beleza. Talvez até quisesse que assim fosse, mas não é. Gostaria ainda de dedicá-los a Angelines, de Lanuza, no Pirineus Espanhol, cujos espaços (o real e o virtual) me fizeram lembrar da canção.


Missa das onze e meia


Natividade de São João Batista
24 de junho de 2012

"(...) João declarou: 'Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias'" (Atos 13, 25).

sábado, 23 de junho de 2012

Bem que se aprende


Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém, diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens. 

Mas, em verdade, filho, também, abranda. Olhe: um chamado Aleixo, residente a légua do Passo do Pubo, no da- Areia, era o homem de maiores ruindades calmas que já se viu. Me agradou que perto da casa dele tinha um açudinho, entre as palmeiras, com traíras, pra-almas de enormes, desenormes, ao real, que receberam fama; o Aleixo dava de comer a elas, em horas justas, elas se acostumaram a se assim das locas, para papar, semelhavam ser peixes ensinados. Um dia, só por graça rústica, ele matou um velhinho que por lá passou, desvalido rogando esmola .O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta... Eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão, vem a mão, vem o são, vem o cão. Esse Aleixo era homem afamilhado, tinha filhos pequenos; aqueles eram o amor dele, todo, despropósito. Dê bem, que não nem um ano estava passado, de se matar o velhinho pobre, e os meninos do Aleixo aí adoeceram. Andaço de sarampão, se disse, mas complicado; eles nunca saravam. Quando, então, sararam. Mas os olhos deles vermelhavam altos, numa inflama desapiranga à rebelde; e susseguinte – o que não sei é se foram todos duma vez, ou um logo e logo outro e outro – eles restaram cegos. Cegos, sem remissão dum favinho de luz dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha – três meninos e uma menina – todos cegados. Sem remediável. O Aleixo não perdeu o juizo; mas mudou: ah, demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas suas horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz, que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte, porque Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo de sua alma. Isso eu ouvi, e me deu raiva. Razão das crianças. Se sendo castigo, que culpa das hajas do Aleixo aqueles meninozinhos tinham?! Compadre meu Quelemém reprovou minhas incertezas. Que, por certo, noutra vida revirada, os meninos também tinham sido os mais malvados, da massa e peça do pai, demônios do mesmo caldeirão de lugar. Senhor o que acha? E o velhinho assassinado? – eu sei que o senhor vai discutir. Pois, também. Em ordem que ele tinha um pecado de crime, no corpo, por pagar.”

Riobaldo, em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa.