quinta-feira, 21 de junho de 2012

Tristeza, saudade, memória...


Estive de passagem pela cidade de Valença, Bahia, há mais de um ano e é impressionante como, ainda hoje, a beleza do lugar, especialmente aquela das proximidades do Rio Una, está presente em minha memória. Ultimamente, além das atrações tradicionais que oferece, Valença é uma espécie de posto de apoio para quem está a caminho da ilha de Morro de São Paulo, o que movimenta ainda mais o porto e aumenta a circulação de embarcações no Rio Una. 

Hoje, dia de greve no trabalho, e nas horas que apareceram por conta disso, entre a construção do meu texto, as inúmeras dúvidas que se desdobram dia após dia, a saudade fez voltas em volta de mim e, por alguma razão que desconheço, me levou de volta a Valença-BA. E às suas águas todas.











 

Ubiquidade

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino;
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

MANUEL BANDEIRA, Petrópolis-RJ, 11 de março de 1943.



terça-feira, 19 de junho de 2012

Escolha os versos


“Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…”.
 
CLARICE LISPECTOR.



domingo, 17 de junho de 2012

Encontro dos povos


Para ajudar na divulgação do Encontro dos Povos.

Missa das onze e meia


11º Domingo do Tempo Comum
17 de junho de 2012

"(...) pois caminhamos na fé e não na visão clara" (2Cor 5, 7).


Nur die liebestraum




No fundo da alma
um sonho mora.
Demora,
ainda,
agora, ora.
(Toda manhã de domingo eu saio de casa para encontrá-la naquele mesmo banco
no braço esquerdo da cruz. Onde ela me deixou.) 



sábado, 16 de junho de 2012

Era uma voz... I


"De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular ideia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...  

"Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum, nenhum! - é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco - é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso - por estúrdio que me vejam - é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela - já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum."

Riobaldo, em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa.

 

Tempo, tempo II

"Roda,
roda, moinho; roda, pião..."

O mundo parou num instante, (...)




A profundidade II


“A explicação que Bergson propõe para o fenômeno da hipermnésia repousa por completo na ideia de que ele é determinado, não por uma adição, um crescimento, ou o aparecimento de algum elemento novo e positivo, mas ao contrário, pela diminuição, até mesmo pelo desaparecimento ou a ausência do que está habitualmente presente e ativo no espírito. É essa deficiência e essa ausência, esse acontecimento totalmente negativo, que faz jorrar no espírito o que há de mais positivo: a lembrança total, ou seja, a apreensão do eu por ele mesmo.

“Para compreender este paradoxo essencialmente bergsoniano, é preciso lembrar qual é, para Bergson, a atitude habitual do espírito. Essa atitude, Bergson não cansou de repetir: é a atenção à vida. Uma consciência prática, sempre orientada para o futuro, dedica-se a concentrar os seus esforços naquilo que transforma sem cessar o presente em futuro. Do passado, apenas apreende e aceita o que pode ajudá-la a esclarecer o que é, a preparar o que será. Ela é como uma ponta móvel que coincide com o presente e mergulha com ele rumo ao futuro. Estar atento à vida é ser este ponto e esta ponta, o máximo de concentração, mas também o mínimo de espaço, resserrement (contração) extrema do ser no ‘pequeno círculo traçado ao redor da ação presente’.

“Estar atento à vida, portanto, é estar atento ao presente, ao futuro, à ação, a tudo o que delineia à sua frente no campo prospectivo, extraordinariamente contraído, do olhar; ao mesmo tempo, ainda que Bergson não se expresse nesses termos, é também estar desatento à sua própria vida – se por sua vida entende-se o imenso campo retrospectivo onde se conservam as lembranças, que Baudelaire denominava de profundidade da existência”.

Georges Poulet, em O espaço proustiano, Imago Ed., 1992, p. 127-8.