terça-feira, 19 de junho de 2012

Escolha os versos


“Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…”.
 
CLARICE LISPECTOR.



domingo, 17 de junho de 2012

Encontro dos povos


Para ajudar na divulgação do Encontro dos Povos.

Missa das onze e meia


11º Domingo do Tempo Comum
17 de junho de 2012

"(...) pois caminhamos na fé e não na visão clara" (2Cor 5, 7).


Nur die liebestraum




No fundo da alma
um sonho mora.
Demora,
ainda,
agora, ora.
(Toda manhã de domingo eu saio de casa para encontrá-la naquele mesmo banco
no braço esquerdo da cruz. Onde ela me deixou.) 



sábado, 16 de junho de 2012

Era uma voz... I


"De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular ideia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...  

"Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum, nenhum! - é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco - é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso - por estúrdio que me vejam - é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela - já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum."

Riobaldo, em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa.

 

Tempo, tempo II

"Roda,
roda, moinho; roda, pião..."

O mundo parou num instante, (...)




A profundidade II


“A explicação que Bergson propõe para o fenômeno da hipermnésia repousa por completo na ideia de que ele é determinado, não por uma adição, um crescimento, ou o aparecimento de algum elemento novo e positivo, mas ao contrário, pela diminuição, até mesmo pelo desaparecimento ou a ausência do que está habitualmente presente e ativo no espírito. É essa deficiência e essa ausência, esse acontecimento totalmente negativo, que faz jorrar no espírito o que há de mais positivo: a lembrança total, ou seja, a apreensão do eu por ele mesmo.

“Para compreender este paradoxo essencialmente bergsoniano, é preciso lembrar qual é, para Bergson, a atitude habitual do espírito. Essa atitude, Bergson não cansou de repetir: é a atenção à vida. Uma consciência prática, sempre orientada para o futuro, dedica-se a concentrar os seus esforços naquilo que transforma sem cessar o presente em futuro. Do passado, apenas apreende e aceita o que pode ajudá-la a esclarecer o que é, a preparar o que será. Ela é como uma ponta móvel que coincide com o presente e mergulha com ele rumo ao futuro. Estar atento à vida é ser este ponto e esta ponta, o máximo de concentração, mas também o mínimo de espaço, resserrement (contração) extrema do ser no ‘pequeno círculo traçado ao redor da ação presente’.

“Estar atento à vida, portanto, é estar atento ao presente, ao futuro, à ação, a tudo o que delineia à sua frente no campo prospectivo, extraordinariamente contraído, do olhar; ao mesmo tempo, ainda que Bergson não se expresse nesses termos, é também estar desatento à sua própria vida – se por sua vida entende-se o imenso campo retrospectivo onde se conservam as lembranças, que Baudelaire denominava de profundidade da existência”.

Georges Poulet, em O espaço proustiano, Imago Ed., 1992, p. 127-8.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

A profundidade


“(...) a profundidade perspectiva da geometria e da pintura ocidental não é mais que um caso particular e materializado de uma espontânea hierarquia das figuras. Nada é mais significativo que o exemplo da pintura: apesar da insipidez funcional das duas dimensões do quadro, recria-se espontaneamente uma terceira dimensão, não só graças aos processos ocidentais do trompe l´oeil, como também numa simples defasagem de valores ou cores que fazem ‘girar’ uma superfície objetivamente plana, mas sobretudo no desenho e na pintura do primitivo, da criança, ou do Egito antigo, a imaginação reconstitui espontaneamente a sua profundeza enquanto as figuras se sobrepõem verticalmente no plano do quadro. É essa a razão essencial pela qual todas as escolas de pintura  ̶ salvo a do renascimento  ̶ desdenham deliberadamente os ‘artifícios’ da perpectiva geométrica, sabendo bem que a terceira dimensão é um fator imaginário acordado a qualquer figura como por acréscimo. É que todo o espaço ‘pensado’ comporta, em si mesmo, domínio da distância, que abstraída do tempo, espontânea e globalmente registrada, torna-se ‘dimensão’ na qual a sucessão do distanciamento se esbate em proveito da simultaneidade das dimensões. Pode parecer pôr-se de parte o tão célebre pseudoproblema que consiste em interrogarmo-nos sobre qual sensação nos provoca a profundidade. Porque a profundidade não é qualitativamente distinta da superfície, pois que o olho se ‘deixa enganar’. Mas é distinta, temporalmente para o esforço e algebricamente para o conceito. Globalmente as três dimensões são dadas no seio da imagem. Do mesmo modo que a nenhum psicólogo se põe o problema de saber de onde vem a primeira ou a segunda dimensão, também não nos devemos interrogar sobre a origem da terceira. É o tempo e a espera que transformam essa dimensão em distanciamento privilegiado, mas primitivamente para o imaginário, como para a vida, para o pintinho que quebra a casca e corre para o verme, o espaço revela-se de pronto com suas três dimensões. O espaço é, constitucionalmente, convite à profundidade, à viagem longínqua. A criança que estende os braços para a lua tem espontaneamente consciência dessa profundidade ao alcance do braço, e só se espanta por não atingir imediatamente a lua: é a substância do tempo que a decepciona, não a profundidade do espaço. Porque a imagem tal como a vida não se aprende: manifesta-se. A ‘relação de conjunto’ dos fragmentos topológicos está ligada à própria concepção desses fragmentos como plurais, ao ato sintético de qualquer pensamento manifesto” .

Gilbert Durand, em As estruturas antropológicas do imaginário, Martins Fontes, 2002, p. 409-11.