terça-feira, 22 de maio de 2012

O "homem humano" III - Sô Candelário


Sebastião Vasconcelos viveu Sô Candelário na adaptação da TV Globo (1985)

Senhor não tem medo da morte? – Então perguntei. Sô Candelário, raspando o braço com a faca, apalpando, respondeu manso e cheio dele mesmo: Ela é que tem medo de mim, a desgraçada. O medo de Sô Candelário era um só: o de morrer da doença má, de que padeciam todos os seus parentes: a lepra. “Sô Candelário se endiabrou por achar que tinha doença má”. Por isso caçava a morte no sertão; tentava de todo jeito encontrar a morte antes que a doença chegasse. Uma coragem feita de medo? Pode o bom sair do ruim, o bem do mal? Pois então considere: ainda não disse de Joca Ramiro, o sobretodos, o maior, o real-chefe, mas acima desse ainda estava Sô Candelário, digno dos abraços mais respeitosos do rei dos Gerais.

“Um dia, agarraram um homem, que tinha vindo à traição, espreitar a gente por conta dos bebelos. Assassinaram. Me entristeceu, aquilo, até ao vago do ar. O senhor vigie esses: comem o cru de cobras. Carecem. Só por isso, para o pessoal não se abrandar nem esmorecer. Até Só Candelário, que se prezava de bondoso, mandava, mesmo em tempo de paz, que seus homens saíssem fossem, para estropelias, prática da vida. Ser ruim, sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de experiência. Mas, com o tempo, todo o mundo envenenava do juízo. Eu tinha receio de que me achassem de coração mole, soubessem que eu não era feito para aquela influição, que tinha pena de toda cria de Jesus. – “E Deus, Diadorim?” – uma hora eu perguntei. Ele me olhou, com silenciozinho todo natural, daí disse, em resposta: – “Joca Ramiro deu cinco contos de réis para o padre vigário de Espinosa...”

(As citações são de Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa). 


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Madrugadas II - Belo Horizonte-MG




Tomo por minha a participação silenciosa. Deus saberia dizer o quanto estou misturado a esses jovens, meninas e meninos. Seres humanos enormes, almas lindas, mãos atuantes. A madrugada é um tempo que se faz espaço e se amplia.

domingo, 20 de maio de 2012

Anotações I


"Mocotó de boi é cola,
urro de burro é trovão,
água de amoreira é vinho,
roda dágua é maranhão.
Na terra de gente-besta,
cavalo ruço é alazão".

(Anotações de viagem de João Guimarães Rosa. In: A boiada. Nova Fronteira, 2011, p.115)


Missa das onze e meia


Ascensão do Senhor
20 de maio de 2012

"Não vos cabe saber os tempos e os momentos" (Atos 1, 7).

"Por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?"  (Atos 1, 11)


sábado, 19 de maio de 2012

Saudades



Na noite fechada
a vida pode rebentar.
Na sombra da lua dada,
quem vai poder reclamar?

Quem vai poder reclamar?
Se é clarão, luz domada,
dada luz a proclamar
sua vida calada.

As estrelas todas,
Nós todos a anunciar:
tudo é sombra ou nada.
Quem vai poder reclamar?

Quem vai poder reclamar?
Não a mão tão inventada,
que devia descansar,
sempre brotada.

Tenho sede



Traga-me um copo d'água, tenho sede,
e essa sede pode me matar.
Minha garganta pede um pouco d'água,
e os meus olhos pedem teu olhar.

A planta pede chuva quando quer brotar;
o céu logo escurece quando vai chover.
Meu coração só pede teu amor.
Se não me deres, posso até morrer.

ANASTACIA E DOMINGUINHOS

(Voz: GILBERTO GIL)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Las manos cortadas



Mes mains,
mes amis,
n'habitent pas avec moi.

Elles et ils volent
comme les oiseaux blancs.

Aile dans la aile,
main dans la main,
ce n´est pas pour aujourd´hui.



Imagem: "Las manos cortadas", cópia de desenho original de Federico García Lorca.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Lorca ainda



MEDIA LUNA

La luna va por el agua.
¡Cómo está el cielo tranquilo!
Va segando lentamente
el temblor viejo del río
mientras que uma rama joven
la toma por espejito.

FEDERICO GARCÍA LORCA



Federico García Lorca, Primeras canciones, 1922.