domingo, 6 de maio de 2012

Aqui está Minos

"Guernica" - Pablo Picasso

On le voit, toute réflexion sur le mythe engage notre modernité, puisque nous nous trouvons à ce moment de l´Histoire où le récul est suffisant pour pouvoir considérer de l´extérieur le mythe en tant que tel: il apparâit alors comme extraordinairement contemporain, si nous prenons garde, comme nous y engage Ricouer, à considerer dans le mythe ce qu´il détient de profondément symbolique, mariant sans effort ces contraires que la pensée logique déclare incomplatibles. En cela, justement, la pensée mythique est le reflet inattendu des découvertes de la science d´ajourd´hui: les théories de M. Planck et la physique quantique postulent des niveaux differents de la réalité, permettant à la pensée de quitter les ornières de la logique binaire dans la perpective d´une interprétation unitaire de l´universe. Qui s´étonera alors de ce qu´un G. Durand revendique une nouvelle attitude herméneutique tenant compte de la nature particulière d´un langage autre? Il faut, dit-il, 'abandonner le dualisme langagier (...) pour un langage (...) plus discontinu, tantôt ceci, tantôt cela, autant guidé par la synchronicité du présent que par le passé causal'. Et de préciser que 'le langage n´est donc pas antithétique, comme le croit la philosophye de Socrates à Hegel, il est à la fois métaleptique (...) et métabolique, c´est-à-dire répétitif et différentiel à la fois'" 

André SIGANOS, em Le minotaure e son mythe.

Os verdes



Miguilim

− Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista?
(...)
− Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim...
E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
− Olha, agora!
Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo... O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompasso, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, à Mãitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: − “Miguilim, você é piticégo...” E ele repondeu: − “Donazinha”...
Quando voltou, o doutor José Lourenço já tinha ido embora.
− Você está triste, Miguilim? Mãe perguntou.
Miguilim não sabia.
(...)
− Pra onde ele foi?
− A foi p´ra a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas amanhã ele volta, de manhã, antes de ir s´embora para a cidade. Disse que, você querendo, Miguilim, ele junto te leva... – O doutor era um homem bom, levava o Miguilim, lá ele comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola, depois aprendia ofício. – “Você mesmo quer ir?”
(...)
− “Miguilim, você está aprontado? Está animoso?” Miguilim abraçava todos, um por um, dizia adeus até aos cachorros, ao Papaco-o-Paco, ao gato Sossõe que lambia as mãozinhas se asseando. Beijou a mão da mãe do Grivo: − “Dá lembrança ao seo Aristeu... Dá lembrança a seo Deográcias...” Estava abraçado com Mãe. Podiam sair. Mas, então, de repente, Miguilim parou em frente ao doutor. Todo tremia, quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por fim, disse. Pediu. O doutor entendeu e achou graça. Tirou os óculos, pôs na cara de Miguilim. E Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou, mais longe, o gado pastando, perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis, na primeira vereda. O Mutúm era bonito! Agora ele sabia. Olhou Mãitina, que gostava de o ver de óculos, batia palmas-de-mão e gritava: − “Cena, Corinto!... Olhou o redondo de pedrinhas, debaixo do jenipapeiro.
Olhava mais era para Mãe. Drelina era bonita, a Chica, o Tomezinho. Sorriu para Tio Terêz: − “Tio Terêz, o senhor parece com Pai”... Todos choravam. O doutor limpou a goela, disse: − “Não sei, quando eu tiro esses óculos, tão fortes, até meus olhos se enchem d`água...” Miguilim entregou a ele os óculos outra vez. Um soluçozinho veio.
(...).

Trechos de “Campo geral”, novela/poema/romance de Corpo de Baile, depois, separada, transformada em Manuelzão e Miguilim. João Guimarães Rosa.

___

Nunca vou me esquecer do dia nem da hora quando alguém me disse, eu com o livro na mão, primeira vez: − “Preste atenção no olhar de Miguilim...” Hoje eu sei que este é o olhar de Joãozito. E nele estão a proximidade e a distância, os fragmentos, a tontura e a neblina, o céu, o curral, o quintal, os gados pastando nos brejos froridos, o verde dos buritis (e dos olhos de Diadorim).

"...vuestra boca muerta"




Alturas de Machu Picchu (Poema II ou XII)

Sube a nacer conmigo, hermano.
Dame la mano desde la profunda
zona de tu dolor diseminado.
No volverás del fondo de las rocas.
No volverás del tiempo subterráneo.
No volverá tu voz endurecida.
No volverán tus ojos taladrados.

Mírame desde el fondo de la tierra,
labrador, tejedor, pastor callado:
domador de guanacos tutelares:
albañil del andamio desafiado:
aguador de las lágrimas andinas:
joyero de los dedos machacados:
agricultor temblando en la semilla:
alfarero en tu greda derramado:
traed a la copa de esta nueva vida
vuestros viejos dolores enterrados.
Mostradme vuestra sangre y vuestro surco,
decidme: aquí fui castigado,
porque la joya no brilló o la tierra
no entregó a tiempo la piedra o el grano:
señaladme la piedra en que caísteis
y la madera en que os crucificaron,
encendedme los viejos pedernales,
las viejas lámparas, los látigos pegados
a través de los siglos en las llagas
y las hachas de brillo ensangrentado.

Yo vengo a hablar por vuestra boca muerta.

A través de la tierra juntad todos
los silenciosos labios derramados
y desde el fondo habladme toda esta larga noche
como si yo estuviera con vosotros anclado,

contadme todo, cadena a cadena,
eslabón a eslabón, y paso a paso,
afilad los cuchillos que guardasteis,
ponedlos en mi pecho y en mi mano,
como un río de rayos amarillos,
como un río de tigres enterrados,
y dejadme llorar, horas, días, años,
edades ciegas, siglos estelares.
Dadme el silencio, el agua, la esperanza.
Dadme la lucha, el hierro, los volcanes.
Traedme los cuerpos como imanes.
Acudid mi boca y mis venas.

Hablad por mis palabras y mi sangre.

PABLO NERUDA, em Canto general.


O tempo que volta




Lua bonita,
total no encontro
das partes:
tu és vivo espelho
– fração! –
prova do retorno
(qu`espero...).

As belas fotografias são de
http://fisicamoderna.blog.uol.com.br.


Missa das onze e meia


"Seus corações tenham a vida para sempre. Lembrem-se disso os confins de toda a terra (...)" (Salmo 21, 27-28).

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Lá está Minos


Minos de G. Doré

Minos de W. Blake

Do círculo primeiro fui descendo / Cosi discesi del cerchio primaio
ao segundo, onde o espaço se restringe, / giú nel secondo, che men loco cinghia
e cresce a dor, em brados irrompendo. / e tanto piú dolor, Che punge e guaio.

Lá está Minos que horrendamente ringe: / Stavvi Minòs orribilmente, e ringhia:
as culpas examina já na entrada, / essamina le colpe ne l´intrata;
julga e despacha conforme se cinge. / giudica e manda secondo ch´avvinghia.

Digo, que quando a alma malfadada / Dico che quando l´anima mal nata
se lhe apresenta, toda se confessa, / li vien dinanzi, tutta se confessa;
e ele, que bem conhece, para cada / e quel connoscitor de le peccata

culpa, o lugar do inferno que a mereça, / vede qual loco d´inferno è da essa;
tantas vezes co´a cauda então se enrola / cignesi con la coda tante volte
quantos graus determina que ela desça. / quantunque grade vuol che giú sai messa.

De almas, da densa turba, uma se arrola / Sempre dinanzi a lui ne stanno molte;
por vez pra submeter-se ao julgamento, / vanno a vicenda ciascuna al giudizio,
e fala, e escuta, e logo abaixo rola. / dicono e odono e poi son giú volte.

A Commedia, de Dante. INF. V, versos 1-15. Tradução de Italo Eugenio Mauro.

terça-feira, 1 de maio de 2012

White Sandy Beach



Israel Kamakawiwo´ole

I saw you in my dreams
We were walking hand in hand
On a white, sandy beach of Hawaii
 We were playing in the sun
We were having so much fun
on a white, sandy beach of Hawaii

The sound of the ocean
soothes my restless soul
The sound of the ocean
rocks me all night long

Those hot long summer days
Lying there in the sun
on a white, sandy beach of Hawaii

The sound of the ocean
soothes my restless soul
The sound of the ocean
rocks me all night long

Last night in my dreams
I saw your face again
We were there in the sun
on a white, sandy beach of Hawaii

Geografia do texto


 Foto: Eduardo Andreassi

Há dois posicionamentos clássicos, já se sabe. O primeiro é aquele em que o homem está na cadeira no canto do quarto, na bancada em frente da parede, com um computador ou com um ou mais livros entre eles, digo, entre ele e o limite físico espacial, figurado na parede. O segundo não se deixa descrever com tanta facilidade: dilui-se, orvalha, sai de si, não conhece fronteiras no campo da ciência, como é praticada em sua forma hegemônica. Para esse segundo posicionamento todos os objetos, inclusive o próprio corpo do homem, passam a ser suporte para a ordenação possível, incansavelmente buscada. Eu a busco nos mitos, na fase pré-lógica da humanidade. Por isso as artes. Pela ordem: a literatura, a prosa, o romance.

Entre esses dois espaços, a impressão que se tem é a de que o que se faz é invenção, sempre. Não há garantia de relação explícita, além daquela do trânsito, ou movimento de sentidos que fluem de um ao outro ou o contrário. Está claro, penso, que o território, como o concebemos hoje, apenas tardiamente, passa a fazer parte das preocupações humanas. O estado-nação de hoje contempla placidamente as noções de “povo”, “língua/literatura”, “nação” e “soberania sobre um território”. Devo dizer logo, então, que os pastos do Sertão não conheciam cercas. Essa ausência de demarcações exige um olhar para os coletores e caçadores, de tempos imemoriais, sempre em movimento pelo Grande Espaço, fonte de alimento e abrigo e, depois, de brigas.

Aqui começamos. Eu não duvido que todos os sentimentos dos coletores e caçadores pré-neolíticos ainda habitam o homem de hoje, mesmo aquele que negocia ações na bolsa de Nova Iorque ou Tóquio, ou aquele que escreve livros de História.  Lembro-me de Câmara Cascudo, assustado, em Civilização e Cultura, com a simplicidade com que os historiadores passam da Pré-História para  História.  Creio que há mesmo um ano sendo citado: cerca de 4000 aC. Antes, aquilo; depois, isso. A duração deste instante foi de milhões de anos! Quanto se passou pelo pensamento do homem, nas milhões de tardes, depois das caçadas, na porta das cavernas, ao som do crepitar do fogo, no contar e ouvir as estórias do dia? Quantos medos e assombros! O ruído que passou por lá, tenho certeza, ainda está passando, hoje mesmo. A minha profissão de fé é a de ver a sombra na luz. Talvez a ação nem seja mesmo a de ver. O poeta é quase sempre um "cego", mas é o que adivinha. Outro, um psicanalista, disse: "Onde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim". Prossigo, então, sem ser poeta mas meio cego, querendo saber o que havia, antes dos mouros.