quinta-feira, 3 de maio de 2012

Lá está Minos


Minos de G. Doré

Minos de W. Blake

Do círculo primeiro fui descendo / Cosi discesi del cerchio primaio
ao segundo, onde o espaço se restringe, / giú nel secondo, che men loco cinghia
e cresce a dor, em brados irrompendo. / e tanto piú dolor, Che punge e guaio.

Lá está Minos que horrendamente ringe: / Stavvi Minòs orribilmente, e ringhia:
as culpas examina já na entrada, / essamina le colpe ne l´intrata;
julga e despacha conforme se cinge. / giudica e manda secondo ch´avvinghia.

Digo, que quando a alma malfadada / Dico che quando l´anima mal nata
se lhe apresenta, toda se confessa, / li vien dinanzi, tutta se confessa;
e ele, que bem conhece, para cada / e quel connoscitor de le peccata

culpa, o lugar do inferno que a mereça, / vede qual loco d´inferno è da essa;
tantas vezes co´a cauda então se enrola / cignesi con la coda tante volte
quantos graus determina que ela desça. / quantunque grade vuol che giú sai messa.

De almas, da densa turba, uma se arrola / Sempre dinanzi a lui ne stanno molte;
por vez pra submeter-se ao julgamento, / vanno a vicenda ciascuna al giudizio,
e fala, e escuta, e logo abaixo rola. / dicono e odono e poi son giú volte.

A Commedia, de Dante. INF. V, versos 1-15. Tradução de Italo Eugenio Mauro.

terça-feira, 1 de maio de 2012

White Sandy Beach



Israel Kamakawiwo´ole

I saw you in my dreams
We were walking hand in hand
On a white, sandy beach of Hawaii
 We were playing in the sun
We were having so much fun
on a white, sandy beach of Hawaii

The sound of the ocean
soothes my restless soul
The sound of the ocean
rocks me all night long

Those hot long summer days
Lying there in the sun
on a white, sandy beach of Hawaii

The sound of the ocean
soothes my restless soul
The sound of the ocean
rocks me all night long

Last night in my dreams
I saw your face again
We were there in the sun
on a white, sandy beach of Hawaii

Geografia do texto


 Foto: Eduardo Andreassi

Há dois posicionamentos clássicos, já se sabe. O primeiro é aquele em que o homem está na cadeira no canto do quarto, na bancada em frente da parede, com um computador ou com um ou mais livros entre eles, digo, entre ele e o limite físico espacial, figurado na parede. O segundo não se deixa descrever com tanta facilidade: dilui-se, orvalha, sai de si, não conhece fronteiras no campo da ciência, como é praticada em sua forma hegemônica. Para esse segundo posicionamento todos os objetos, inclusive o próprio corpo do homem, passam a ser suporte para a ordenação possível, incansavelmente buscada. Eu a busco nos mitos, na fase pré-lógica da humanidade. Por isso as artes. Pela ordem: a literatura, a prosa, o romance.

Entre esses dois espaços, a impressão que se tem é a de que o que se faz é invenção, sempre. Não há garantia de relação explícita, além daquela do trânsito, ou movimento de sentidos que fluem de um ao outro ou o contrário. Está claro, penso, que o território, como o concebemos hoje, apenas tardiamente, passa a fazer parte das preocupações humanas. O estado-nação de hoje contempla placidamente as noções de “povo”, “língua/literatura”, “nação” e “soberania sobre um território”. Devo dizer logo, então, que os pastos do Sertão não conheciam cercas. Essa ausência de demarcações exige um olhar para os coletores e caçadores, de tempos imemoriais, sempre em movimento pelo Grande Espaço, fonte de alimento e abrigo e, depois, de brigas.

Aqui começamos. Eu não duvido que todos os sentimentos dos coletores e caçadores pré-neolíticos ainda habitam o homem de hoje, mesmo aquele que negocia ações na bolsa de Nova Iorque ou Tóquio, ou aquele que escreve livros de História.  Lembro-me de Câmara Cascudo, assustado, em Civilização e Cultura, com a simplicidade com que os historiadores passam da Pré-História para  História.  Creio que há mesmo um ano sendo citado: cerca de 4000 aC. Antes, aquilo; depois, isso. A duração deste instante foi de milhões de anos! Quanto se passou pelo pensamento do homem, nas milhões de tardes, depois das caçadas, na porta das cavernas, ao som do crepitar do fogo, no contar e ouvir as estórias do dia? Quantos medos e assombros! O ruído que passou por lá, tenho certeza, ainda está passando, hoje mesmo. A minha profissão de fé é a de ver a sombra na luz. Talvez a ação nem seja mesmo a de ver. O poeta é quase sempre um "cego", mas é o que adivinha. Outro, um psicanalista, disse: "Onde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim". Prossigo, então, sem ser poeta mas meio cego, querendo saber o que havia, antes dos mouros.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Louco



Um louco me disse outro dia, quando eu estava descendo aquela alameda e já chegava próximo das pedras da pontezinha da cadeia:
– Você precisa matar aquele pedaço de você que você amava nela. Explique isso ao seu cérebro. Seu único trabalho é este (eu sei que não é pouco), mas é preciso realizá-lo: desfaça a sinapse.
Como fazer isso, se o que em mim pensa está sentindo? Sentei-me na mureta da ponte, acendi um cigarro e fiquei imaginando se Fernando Pessoa não era inglês.

Retorno

 
A superficialidade me apavora. Assim como Guimarães Rosa, talvez eu preferisse ser um crocodilo que vive nas profundezas de um rio. A visão seria mais ampla, não tenho dúvida quanto a isso. Vivo os últimos dois anos, ora mais, ora menos, mas sempre atacado por uma patrulha irracional, digo superficial, que não aceita que eu esteja tão “preso ao passado”. São muitos os integrantes desse bando de gente boa, que só quer me ajudar (sic). Geralmente (ou quase sempre) não respondo, apenas ouço ou contraceno com retrucos maldosos ou com tentativas de ser engraçado e maldoso ao mesmo tempo. Faço isso para evitar a hipótese, sempre possível, de ter que alongar a conversa com quem sabe pouco sobre as opiniões que emite. Eu de minha parte, desconfio de todas as minhas opiniões. Não guardo certeza de quase nada. Na prática: de nada mesmo. Minhas perguntas, se fossem para serem feitas, seriam muito mais simples. Será que essas pessoas sabem o que é o passado? Será que já pensaram sobre o tempo? Tenho um pouco de preguiça e muita dificuldade para escrever, por isso anoto já: estou falando do que um bem intencionado estudioso chamou de luto e melancolia. Ou de situações que mudam. Ou de perdas. Primeiro fico com S. Agostinho: “O passado já não é, o futuro ainda não é; o presente é o que ainda não é se transformando no que já não é”. Resumi demais, mas fica o beijo do beija-flor, a intuição do instante, o instante-mito. Meu tempo é esse, suspenso pelo espaço vivido, na duração do instante. Vivi um grande amor e ainda o vivo, porque ela ainda vive em mim, com todos os olhares, todos os cheiros, todos os carinhos, todas as esperanças, todos os sonhos, enfim... Não queiram tirar isso de mim! Falta a toda a humanidade uma tal autoridade. Meu tempo é um espaço poético, sobre o qual quase que somente eu mesmo posso saber. Sou eu que devo saber o que já não é e o que ainda não é. De novo repetindo Guimarães Rosa: "Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois”. Ou: “Eu não visto luto antes da hora”.


domingo, 29 de abril de 2012

Buriti - água azulada



Quem sabe disso é o Buriti, a árvore da vida (a M'byriti dos Tupis), rainha desse lugar. Riobaldo também, quando nos alerta para o fato: “pergunte ao buriti. O buriti sabe de muitas coisas”. O estudo da toponímia na região vem agora demonstrando essa  sabedoria da árvore. Seu nome domina os nomes de lugares e de cidades. Mesmo onde não há mais buriti, por ignorância humana, ele ainda está lá como “fóssil toponímico”. Desse "esquecimento", da construção desse mito não se pode acusar a Literatura, pelo contrário. A tradição é muito antiga: Franklin Távora, Cassimiro de Abreu, Alencar, Euclides, Mário, Graciliano,  Guimarães Rosa.

Missa das onze e meia (hoje às sete)


4º Domingo da Páscoa
29 de abril de 2012

"Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a ordem qjue recebi de meu Pai" (João 10, 18).

sábado, 28 de abril de 2012

Madrugadas I - São João del-Rey-MG



Fico pensando na distância entre intenção e gesto. E pra quê? Eles todos estão vindo por aí: intenções e gestos, simples e complexos, sempre cheios de promessas... Querendo dizer que a vida existe? Eu sei que sim - existe - e que está num enorme hotel: está de passagem - sua condição, no que nos diz respeito. Talvez o que não se deve perder é a chance de vê-la, uma vez, que seja, ou de novo. Devíamos avisar o dono do hotel.