quinta-feira, 26 de abril de 2012

Observatório da Cultura

Não pude ir, como sonhava, mas a iniciativa da equipe do Observatório da Cultura se encarregou de traduzir e/ou me levar até São João. Alma lavada. Outros trabalhos podem ser vistos em http://www.observatoriodacultura.org.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Mântica

"(...)A música, num momento decisivo da trama - Édipo é coroado por livrar Tebas da cruel cantora -, semeia mistérios no coração do herói. Mistérios que este terá que viver para compreender.
(...) O tema da mântica associada à música também aparece em Hesíodo. Para Platão, a função principal do poeta não é a de fazedor. O poietés é, antes de tudo um legislador das musas. E como legislador, diz Brandão, o 'poetes é um vidente, um mântis, um adivinho' (1992, p.161). Na Teogonia, as musas dizem que, quando elas querem, sabem 'proclamar muitas verdades' (Teogonia, 27)".
Gabriela Reinaldo,
em Uma cantiga de fechar os olhos.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Um tempo.




25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava.
O dia inicial inteiro e limpo,
onde emergimos da noite e do silêncio.
E livres habitamos a substância do tempo.


Sophia de Mello Breyner Andresen

 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Mergulho

Sonhos de escafandrista

No meio do mar canavial,
o doce cheiro da cana;
o doce cheiro da dor da cachaça:
cheiros que vento traz.
No acampo do vento: a lembrança
das almas. O santo campo
de um lugar:
 “Melhor lugar é o cemitério,
De lá você pode ver o ermo”.
O vazio do que era.
É.
Águas subiram; tudo cobriram.
Tudo solveram; menos o vento...
Este está coagulando em areias
os cheiros todos das almas
incansáveis. O mais puro sal.
Devo ter pisado em terras
de eu menino. Nem soube.
Nem soubesse; fiquei não sabendo.
“Aí ficava a Cidade, lugar exato certo?”
- perguntei.
“Garantido: aí mesmo. E digo até,
que quando faz grande seca, 
água baixando muito, alguma
parede ameaça olhar o céu...
Fora da água...”
Alguma parede qual será... Heim, hã?
É o ermo em água.
Pensei que alguma árvore me vigiasse. Suspeitã ou reconhecente.











Simples demônios


Minha homenagem a um matador de dragões. Oxossi, Ogum, Jorge.

domingo, 22 de abril de 2012

Missa das onze e meia


3º Domingo da Páscoa
22 de abril de 2012

"E agora , meus irmãos, eu sei que vós agistes assim por ignorância, assim como vossos chefes" (Atos, 3, 17)

Antes, antes... Havia um som



Pedrinha Miudinha de Aruanda ê
Lajedo tão grande
Pedrinha de Aruanda ê

Quando eu não era ninguém
Era vento, terra e água
Elementos em amálgama
No coraçao de Olorum

Pedrinha Miudinha de Aruanda ê
Lajedo tão grande
Pedrinha de Aruanda ê

Na hora em que o sol se
esconde
O sono chega
E o sinhozinho vai procurar
Hum, hum, hum,

A velha de colo quente
Que canta quadras
Que conta histórias
Para ninar
Hum, hum, hum,
Sinhá Zefa que conta histórias
Sinhá Zefa sabe agradar
Sinhá Zefa que quando nina
Acaba por cochilar
Sinhá Zefa vai murmurando
Histórias para ninar

Peixe é esse meu filho
Não meu pai
Peixe é esse
É mutum, manguenem
É coca-do-mato
Guenem-guenem
Suê, filho ê
Toca-ê
Marimba-ê



Pedrinha miudinha (Domínio público), Orixá (Jorge Portugal) e História do sinhozinho (Dorival Caymmi).

Antes dos mouros o som
O som de tudo que passou por lá

O som de tudo que passou aqui
O som que vem quem viver verá

Os trovões já batucavam
Vanguardistas batucadas
O vento já produzia
Árias de ar e poeira
O mar nunca atrasará

O compasso do batuque
E o fogo na sua dança
Toda vida fez um som

Antes do peito dos mouros
Antes dos gritos da gente
Antes até da saudade
Que viajou além-mar
Do banzo dos africanos
Do ore no mato verde
O fogo com seus estalos
Fazia um som
Já fazia um som
Já fazia um som

Mandacaru meu deu lanças
A certeza seu fuzil
A noite trouxe seu frio
Pra quentura dessa vidas
O mar nunca atrasará

O compasso do batuque
E o fogo na sua dança
Toda vida fez um som

Alan Babolin
Jotinha


CORDEL DO FOGO ENCANTADO

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Liberdade em Minas VIII


“ROMANCE LII OU
DO CARCEREIRO

Isso é o que diz o embargo.
Mas eu, cá para mim,
acho que, nesta história,
ele vai ter mau fim.

A esse é que levarão,
pelas ruas afora,
com baraço e pregão.

Nunca lhe deram nada.
Quem lhe daria agora
perdão?

Nunca o escrivão escreve
o que a vítima diz.
Não tem lei nem justiça
quem nasceu infeliz.

A verdade não vem
defender acusados...
Não se entende ninguém.

Tudo isto é enredo grande,
e, por todos os lados,
falsidades se vêem.

A roda anda e desanda,
e não pode parar.
Jazem no fundo, as culpas:
morrem os justos, no ar.”

CECÍLIA MEIRELES, no Romanceiro da Inconfidência, “Romance LII ou do Carcereiro”.