domingo, 22 de abril de 2012

Missa das onze e meia


3º Domingo da Páscoa
22 de abril de 2012

"E agora , meus irmãos, eu sei que vós agistes assim por ignorância, assim como vossos chefes" (Atos, 3, 17)

Antes, antes... Havia um som



Pedrinha Miudinha de Aruanda ê
Lajedo tão grande
Pedrinha de Aruanda ê

Quando eu não era ninguém
Era vento, terra e água
Elementos em amálgama
No coraçao de Olorum

Pedrinha Miudinha de Aruanda ê
Lajedo tão grande
Pedrinha de Aruanda ê

Na hora em que o sol se
esconde
O sono chega
E o sinhozinho vai procurar
Hum, hum, hum,

A velha de colo quente
Que canta quadras
Que conta histórias
Para ninar
Hum, hum, hum,
Sinhá Zefa que conta histórias
Sinhá Zefa sabe agradar
Sinhá Zefa que quando nina
Acaba por cochilar
Sinhá Zefa vai murmurando
Histórias para ninar

Peixe é esse meu filho
Não meu pai
Peixe é esse
É mutum, manguenem
É coca-do-mato
Guenem-guenem
Suê, filho ê
Toca-ê
Marimba-ê



Pedrinha miudinha (Domínio público), Orixá (Jorge Portugal) e História do sinhozinho (Dorival Caymmi).

Antes dos mouros o som
O som de tudo que passou por lá

O som de tudo que passou aqui
O som que vem quem viver verá

Os trovões já batucavam
Vanguardistas batucadas
O vento já produzia
Árias de ar e poeira
O mar nunca atrasará

O compasso do batuque
E o fogo na sua dança
Toda vida fez um som

Antes do peito dos mouros
Antes dos gritos da gente
Antes até da saudade
Que viajou além-mar
Do banzo dos africanos
Do ore no mato verde
O fogo com seus estalos
Fazia um som
Já fazia um som
Já fazia um som

Mandacaru meu deu lanças
A certeza seu fuzil
A noite trouxe seu frio
Pra quentura dessa vidas
O mar nunca atrasará

O compasso do batuque
E o fogo na sua dança
Toda vida fez um som

Alan Babolin
Jotinha


CORDEL DO FOGO ENCANTADO

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Liberdade em Minas VIII


“ROMANCE LII OU
DO CARCEREIRO

Isso é o que diz o embargo.
Mas eu, cá para mim,
acho que, nesta história,
ele vai ter mau fim.

A esse é que levarão,
pelas ruas afora,
com baraço e pregão.

Nunca lhe deram nada.
Quem lhe daria agora
perdão?

Nunca o escrivão escreve
o que a vítima diz.
Não tem lei nem justiça
quem nasceu infeliz.

A verdade não vem
defender acusados...
Não se entende ninguém.

Tudo isto é enredo grande,
e, por todos os lados,
falsidades se vêem.

A roda anda e desanda,
e não pode parar.
Jazem no fundo, as culpas:
morrem os justos, no ar.”

CECÍLIA MEIRELES, no Romanceiro da Inconfidência, “Romance LII ou do Carcereiro”.

Um conto de Grimm

O ESPÍRITO NA GARRAFA

Era uma vez um pobre camponês. Tinha um filho único e desejava que ele fizesse estudos superiores. Como só pudesse enviá-lo à universidade com uma quantia diminuta, o dinheiro foi consumido muito tempo antes da época dos exames. Então o rapaz voltou para casa e começou a ajudar o a trabalhar na floresta. Certo dia, na hora de repouso após o almoço, pôs-se a perambular pela floresta até chegar a um antiguíssimo carvalho de grande porte. Ouviu então uma voz que saía do chão, chamando: 'Me solta, me solta!' O menino cavou entre as raízes da árvore e encontrou uma garrafa bem fechada; sem dúvida era dela que saíra a voz. Ele tirou a rolha e um espírito saiu da garrafa, logo atingindo a metade da altura do carvalho. O espírito dirigiu-se ao menino e disse: 'Eu fui trancado por castigo. Sou o poderosíssimo Mercurius; e agora devo quebrar o pescoço de quem me soltou'. O rapaz ficou apavorado e num instante urdiu um estratagema. 'Qualquer pessoa - disse ele a Mercurius - poderia afirmar que estivera preso na garrafa. Mas teria que provar isso'. O espírito então entrou de novo na garrafa. O rapaz mais que depressa fechou-a, e o espírito ficou de novo aprisionado. Prometeu então ao rapaz uma recompensa se este o soltasse de novo. O rapaz concordou e soltou-o, ganhando um pedaço de pano. Passou-o em seu machado trincado, e este transformou-se em pura prata. Pôde assim ser vendido por quatrocentas moedas. Desse modo, pai e filho ficaram livres de tosas as preocupações. O rapaz continuou seus estudos e graças ao pano acabou por tornar-se um médido famoso".

Resumo citado por JUNG em Estudos alquímicos, Vozes, 2002, p.191.

A Liberdade em Minas VIII


CARTA AOS INCONFIDENTES MORTOS

Treva da noite,
lanosa capa
nos ombros curvos
dos altos montes
aglomerados...
Agora, tudo
jaz em silêncio:
amor, inveja,
ódio, inocência,
no imenso tempo
se estão lavando...

Grosso cascalho

da humana vida...
(e covardias!)
vão dando voltas
no imenso tempo -
à água implacável
do tempo imenso,
rodando soltos,
com sua rude
miséria exposta...

Parada noite,
suspensa em bruma:
não, não se avistam
os fundos leitos...
Negros orgulhos,
Mas, no horizonte
ingênua audácia
do que é memória
e fingimentos
da eternidade,
e covardias
referve o embate
de antigas horas,
de homens antigos.

E aqui ficamos todos contritos,
a ouvir na névoa
o desconforme,
submerso curso
dessa torrente do purgatório...

Quais os que tombam,
em crimes exaustos,
quais os que sobem,
purificados?

CECÍLIA MEIRELES, no Romanceiro da Inconfidência, “Carta aos inconfidentes mortos”.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Liberdade em Minas VII



“ROMANCE XLVIII OU
DO JOGO DE CARTAS

Grandes jogos são jogados
entre a terra e o firmamento:
longas partidas sombrias,
por anos, meses e dias,
independentes do tempo...

Soldados e marinheiros,
camponeses e fidalgos,
ministros, gente da Igreja,
não há mais ninguém que esteja
fora dos vastos baralhos.

Batem as cartas na mesa,
na curva mesa da terra.
Partida sobre partida,
perde-se renome ou vida:
mas a perdição é certa.

Lá vêm corações em sangue,
lá vem tenebrosos chuços:
defrontam-se outros e espadas,
saltam coroas quebradas,
morrem culpados e justos.

Batem as cartas na mesa...
Cruzam-se os naipes e pontos:
não se avista quem baralha
esta confusa batalha
de enigmas, quedas e assombros.

Grandes jogos são jogados.
E os silenciosos parceiros
não sabem, a cada lance,
que o jogo, fora de alcance,
pertence a dedos alheios.

Mesas de Queluz cobertas
de ouros, paus, espadas, copas...
(Minas, sangue, sofrimento...)
No baralho bate o vento
e o jogo segue outras voltas.”

CECÍLIA MEIRELES, no Romanceiro da Inconfidência, “Romance XLVIII ou do jogo de cartas”.

Mitemas II

Preciso achar a teoria, mas gosto de pensar, em termos linguísticos, que na sintaxe (em sentido amplo) do mito os elementos mínimos são os mitemas. Assim como temos os fonemas na fonologia, os morfemas na morfologia, os sintagmas na sintaxe (em sentido estrito). Sob as mesmas condições em que um /a/ pode ser um fonema, mas pode também ser um morfema (como numa terminação de nome, por exemplo), o mitema pode se constituir de uma só palavra. O mais comum, me parece, no entanto, é ser identificado com um grupo sintagmático alojado numa cadeia de significação. Assim, “mãe” é mitema do mito da “Grande-Mãe-Terra”, da mesma forma que “um bezerro erroso, cara de cão, cara de gente” – por seus elementos remetem ao mito do Labirinto, em cujo cento se encontra o Minotauro, ser de caráter híbrido que revela uma figura humana e não humana ao mesmo tempo. Que também se liga ao mito da queda, ou da transgreção ou desobediência ao(s) D(d)eus(es).

Daí a frequente observação de que em literatura nada se cria, tudo se “arranja”, de um modo ou de outro. E que um químico ou físico também formulou para a Natureza. Trata-se, na verdade de contar sempre as mesmas histórias, primordiais e imemoriais e, talvez, fosse mesmo melhor se falar de “estórias”, posto que superam o tempo linear em que a historicidade humana se insere. O homem, na verdade, é histórico (invenção de Cronos, o Tempo) apenas nas aparências: essencialmente mítico na sua natureza, mesmo se vendo preso às ameaças da morte que o tempo traz, é próprio do humano buscar solução mais duradoura para sua existência. As festividades agrárias, os ritos da fecundidade da terra, os percursos iniciáticos são formas de resistência à ação presumivelmente destruidora do tempo (da história). A morte aí é motivo de culto à possibilidade do tempo cíclico, e da possibilidade do retorno. Aí, também, a estória se opõe dramaticaticamente à História. Não seria mais o caso de "Era ums vez...", mas de "Era uma voz" (a contar a estória...) destinada a permanecer (ou até ir, mas com mil razões para recomeçar).

Os mitos abrem as portas para uma leitura do mundo como “matéria vertente”, quando se pode vislumbrar o retorno do já invisível de novo ao visível sob a mesma ou uma outra forma. Quantas vezes se contou a “história” de Eros e Psiqué? Impossível saber. E o que ela tem de tão especial que volta sempre, todos os dias, a ser contada e "vivida"? Deve haver nela algo de tão humano que não pode ser jamais esquecido. O mesmo vale para Cronos e Tanatos e tantas outras... Quem pode dizer que “está tudo sob controle é apenas o Ego”, coitado. Digo assim porque o pobre foi inventado para dizer isto: que é quem é porque está no controle e tudo está sob controle. Quimera: não existe nada, de alguma relevância, sob controle.

A superação do tempo ou o sentido da permanência humana está fora de sua componente consciente ou até mesmo fora do homem enquanto indivíduo. Nele, enquanto indivíduo, o essencial apenas se manifesta e, na maior parte e com mais frequência no que está precisamente fora de controle: a inconsciência e o "erro". “Visualizar” conscientemente as imagens primordiais, identificar os olhares familiares da floresta de símbolos que nos cerca é, de certa maneira, entrar em contato com o que existe de mais humano na humanidade. O estudo dos mitos, nas suas infinitas versões e atualizações pode ser um caminho que nos leve ao encontro daquilo que pode recomeçar. O o que está aqui o tempo todo.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A Liberdade em Minas VI


"ROMANCE XLII OU
DO SAPATEIRO CAPANEMA 

        'Estes branquinhos do Reino
        nos querem tomar a terra:
        porém, mais tarde ou mais cedo,
        os deitamos fora dela.'

Foi na noite de São Pedro,
no arraial de Matosinhos;
debaixo do meu capote,
vinha tremendo de frio;
fui bater a uma taverna:
o dono estava dormindo.
Bati duas e três vezes,
porém não fui atendido.
Ele, lá dentro, na cama,
como novatinho rico;
e nós, romeiros, na rua,
miseráveis que nem bichos.
Por cima de nós, estrelas,
como preguinhos de vidro.

        'Estes branquinhos do Reino
        nos querem tomar a terra:
        porém, mais tarde ou mais cedo,
        os deitamos fora dela.'

A porta estava fechada,
e vinha um rancho comigo;
conversa puxa conversa,
alguém se lembrou do fisco.
Para a Vila vinha gente,
ia gente para o Rio;
nas Minas, só se falava
das prisões que tinha havido.
Diziam que era levante,
ou contrabando, ou extravio..
Falou-se em crimes, seqüestros,
em soldados e meirinhos.
(O taverneiro na cama,
e eu ali, com os meus amigos.

        'Estes branquinhos do Reino
        nos querem tomar a terra:
        porém, mais tarde ou mais cedo,
        os deitamos fora dela.' 

Fosse de sono, canseira
ou receio de perigo,
- o taverneiro, calado:
e nós, cá de fora, aos gritos.
Até pensei, de tão surdo,
que já não estivesse vivo.
Disse essas quatro verdades.
E o que disse ficou dito.
Cada qual à sua moda
repete o que tinha ouvido:
o taverneiro, a mulata,
o capitão e os vizinhos.
Coso a língua com uma agulha,
se deste enredo me livro!

        'Estes branquinhos do Reino
        nos querem tomar a terra:
        porém, mais tarde ou mais cedo,
        os deitamos fora dela.'

Nada a acrescentar me resta
a quanto já se acha escrito.
Sou da Comarca do Serro,
sapateiro por ofício
(Nunca um trago de aguardente
provocou tal rebuliço!
Nem sabia do levante;
mas, hoje, acho que é preciso.
Se eu só por quatro palavras
nele me vejo metido!
No fundo desta cadeia,
quando penso em meu serviço,
entendo muitas idéias
que antes não tinham sentido! 

        'Estes branquinhos do Reino
        nos querem tomar a terra:
        porém, mais tarde ou mais cedo,
        os deitamos fora dela.'

Sou eu que retalho a sola,
e que desenrolo o fio;
mas nem o dono das botas
sabe qual é seu caminho.
Fui bater a uma taverna
no arraial de Matosinhos:
vim parar numa Cadeia,
para fim desconhecido.
Quem se lembrou do meu nome,
nem era meu inimigo!
Devem ser pontos da Sorte,
no couro do meu destino.
Levo açoites? Subo à forca?
Espero a sentença, e digo:

        'Estes branquinhos do Reino
        nos querem tomar a terra:
        porém, mais tarde ou mais cedo,
        os deitamos fora dela.'

(Assim dizem que falava
o sapateiro mulato.
As quatro razões são suas;
o resto deve ser falso..
Quatro disse - e logo foram
mais de quatro vezes quatro... )"

CECÍLIA MEIRELES, no Romanceiro da Inconfidência, "Romance XLII ou do Sapateiro Capanema".