domingo, 15 de abril de 2012

Missa das onze e meia


"A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum" (Atos, 4, 32).

sábado, 14 de abril de 2012

A Liberdade em Minas III


“ROMANCE LIII OU
DAS PALAVRAS AÉREAS

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,
E quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!

Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...

A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora...
e dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...

Detrás de grossas paredes,
de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,
sem peso de ação nem de hora...
– e estais no bico das penas...
e estais na tinta que as molha,
e estais nas mãos dos juízes,
e sois o ferro que arrocha,
e sois o barco para o exílio,
e sois Moçambique e Angola!

Ai, palavras, ai, palavras,
íeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos de tempo inquieto,
promessas que o o mundo sopra...

Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois, agora?
– Acusações, sentinelas,
bacamarte, algema, escolta;
– o olho ardente da perfídia,
a velar, na noite morta;
– a umidade dos presídios,
– a solidão pavorosa;
– duro ferro de perguntas,
com sangue em cada resposta;
– e a sentença que caminha,
– e a esperança que não volta,
– e o coração que vacila,
– e o castigo que galopa...

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!

Perdão podíeis ter sido!
– sois madeira que se corta,
– sois vinte degraus de escada,
– sois um pedaço de corda...
– Sois povo pelas janelas,
cortejo, bandeiras, tropa...

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem...
– sois uma homem que se enforca!

CECÍLIA MEIRELES, no Romanceiro da Inconfidência, “Romance LIII ou das palavras aéreas”.

Crônicas e minicontos III


 – A cidade ajunta as pessoa? Num acho, não! Só se for só no fisicamente.

Ouvi essa fala outro dia. Quem se expressava assim era pessoa já percorrida pelo tempo, alisada pelo vento das idades. Simples e, como ainda acontece com muitos no Brasil, “tem um pé na roça”, ou seja, nasceu no interior, numa cidade pequena ou mesmo numa fazenda, e hoje vive numa cidade grande. Dado do quadro geral do processo de urbanização do país, em plena marcha. Já somos mais gente nas cidades que no campo. Estamos indo também para ser mais velhos que jovens. 

Pois bem, eu comecei a reparar naquilo. Realmente, nas áreas rurais é possível percorrer dois ou seis quilômetros sem topar com casa de morador. Às vezes se topa com a casa, mas não com a cara do morador, que se encontra a um ou outro quilômetro dali, campeando gado ou lavrando a terra. São distâncias marcadas territorialmente, o espaço aí ainda é muito geográfico. Quando se encontram, porém, dois cavaleiros numa estrada, por um caminho qualquer, dificilmente deixam de esbarrar a caminhada, torcerem-se nas selas, descansando os músculos... E aí é prosa. Sendo gente que se conhece, aquilo pode não ter fim; não sendo, depende.

Isso vai praticamente tudo para a cidade pequena. Impossível passar por uma pessoa nesses lugarejos sem, pelo menos, um “opa”, “b’dia”,  “b’tarde”. Não importa se as pessoas já se viram alguma vez ou não. De novo, quando se trata de gente conhecida isso pode ser apenas o início de um livro de conversa. Mil cadernetas, para a atualização do banco de dados com informações de todos os parentes, amigos, conhecidos, prefeito safado, o pasto seco, a demora da chuva, Deus por nós, a Virgem Santa, etc. As casas dos moradores já estão muito mais próximas umas das outros, no entanto. As comadres ou vizinhas podem dispensar a leitura de jornais só com instantâneos de prosa uma de cada lado do muro. Alguns pontos dos muros ficam mesmo ensebados do regular contato dos braços.

Na cidade grande a proximidade física chega ao seu limite. Agora o território é medido em metros, no lugar dos alqueires, hectares ou quilômetros. Já é possível imaginar os centímetros a que estamos destinados. Oito ou dez pessoas já vivem felizes numa área de 200 m2. É quase apenas o espaço de uma cama para cada um (ou dois). As pessoas vão se empilhando nos edifícios, multiplicando os territórios e, então, mil ou duas mil pessoas moram numa mesma coordenada geográfica. Aí ocorre, na máxima proximidade física, objetiva, o encontro com o extremo da distância subjetiva, tão própria da metrópole. É possível verificar facilmente, uma pessoa sair de sua própria casa em direção ao trabalho sem destinar um “bom dia” àqueles que dormiram sob o mesmo teto que o seu.

O espaço próprio da cidade é um não-lugar, são lugares de passagem: as ruas, principalmente, e metonimicamente simbolizada. Mas estou pensando mais é em supermercados, rodoviárias, bares, escolas, clubes, os shopping centers, as mil lojas... Espaços de ninguém, vazios subjetivos. É preciso, inclusive, ter muito cuidado: cumprimentar um desconhecido na rua, com um simples “bom dia”, pode se tornar um caso de polícia. A pessoa cumprimentada pode se sentir ameaçada, perseguida... “Que intimidades são essas? Você me conhece de onde? Tá olhando o quê”, etc, etc. “Bom dia” se tornou ameaçador, ou sinal de mau agouro, e ninguém quer ser ave de mau agouro. Por isso cada um se trava num esforço terrível de nem mesmo olhar para o outro.

Eis a perfeição: internalizar a inexistência do outro. Se a paisagem só existe se humanizada, então na cidade grande os não-lugares são expressões do não-ser. Era uma vez o espaço vivido.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Liberdade em Minas II


"ROMANCE XXXIV OU
DE JOAQUIM SILVÉRIO

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples Alferes.
Recebeu trinta dinheiros...
- e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes!

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério!
Pois ele encontra remorso,
coisa que não te acontece.
Ele topa uma figueira,
tu calmamente envelheces,
orgulhoso e impenitente,
com teus sombrios mistérios.
(Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.)"

CECÍLIA MEIRELES, no Romanceiro da Inconfidência, "Romance XXXIV ou de Joaquim Silvério".

A Canção de Siruiz


"Urubu é vila alta,
mais idosa do sertão:
padroeira, minha vida -
vim de lá, volto mais não...
      Vim de lá, volto mais não?...


Corro os dias nesses verdes,
meu boi mocho baetão:
buriti - água azulada,
carnaúba - sal do chão...


Remanso de rio largo,
viola da solidão:
quando vou p' ra dar batalha,
convido meu coração..."

Toda a estória nesses versos. Talvez o meu "fio de Ariadne".

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A Liberdade em Minas I


"ROMANCE LI OU
DAS SENTENÇAS
       
Já vem o peso do mundo
com suas fortes sentenças.
Sobre a mentira e a verdade
desabam as mesmas penas.
Apodrecem nas masmorras,
juntas, a culpa e a inocência.
      
O mar grosso irá levando,
para que ao longe se esqueçam,
as razões dos infelizes,
a franja das suas queixas,
o vestígio dos seus rastros,
a sua inútil presença.
      
Já vem o peso da morte,
com seus rubros cadafalsos,
com suas cordas potentes,
com seus sinistros machados,
com seus postes infamantes
para os corpos em pedaços;
já vem a Jurisprudência
interpretar cada caso,
– e o Reino está muito longe,
– e há muito ouro no cascalho,
– e a Justiça é mais severa
com os homens mais desarmados.
       
Já vem o peso da usura,
bem calculado e medido.
Vice-reis, governadores,
chanceleres e ministros,
por serem tão bons vassalos,
não pensam mais nos amigos:
mas há muita barra de ouro,
secretamente, a caminho;
mas há pedras, mas há gado
prestando tanto serviço
que os culpados com dinheiro
sempre escapam aos castigos.
       
Já vem o peso da vida,
já vem o peso do tempo:
pergunta pelos culpados
que não passarão tormentos,
e pelos nomes ocultos
dos que nunca foram presos.
Diante do sangue da forca
dos barcos do desterro,
julga os donos da Justiça,
suas balanças e preços.
E contra seus crimes lavra
a sentença do desprezo".

CECÍLIA MEIRELES, Romanceiro do Inconfidência, "Romance LI ou das sentenças", p.178-179, Nova Fronteira).

As três mulheres III

“(...) Os urros... Como, de repente, não vi mais Diadorim! No céu, um pano de nuvens...Diadorim! Naquilo, eu então pude, no corte da dor: me mexi, mordi minha mão, de redoer, com ira de tudo... Subi os abismos... De mais longe, agora davam uns tiros, esses tiros vinham de profundas profundezas. Trespassei.
Eu estou depois das tempestades.
O senhor nonada conhece de mim; sabe o muito ou o pouco? O Urucuia é ázigo. Vida vencida de um, caminhos todos para trás, é história que instrui vida do senhor, algum? O senhor enche uma caderneta... O senhor vê aonde é o sertão? Beira dele, meio dele?... Tudo sai é mesmo de escuros buracos, tirante o que vem do Céu. Eu sei.
Conforme conto. Como retornei, tarde depois, mal sabendo de mim, e querendo emendar nó no tempo, tateando com meus olhos, que ainda restavam fechados. Ouvi os rogos do menino Guirigó e do cego Borromeu, esfregando meu peito e meus braços, reconstituindo, no dizer, que eu tinha estado sem acordo, dado ataque, mas que não tivesse espumado nem babado. Sobrenadei. E, daí, não sei bem, eu estava recebendo socorro de outros – o Jacaré, Pacamã-de-Presas, João Curiol e o Acauã: que molhavam minhas faces e minha boca, lambi a água. Eu despertei de todo – como no instante em que o trovão não acabou de rolar até o fundo, e se sabe que caiu o raio...
Diadorim tinha morrido – mil-vezes-mente – para sempre de mim; e eu sabia, e não queria saber, meus olhos marejavam.
– “E a guerra?!” – eu disse.
– “Chefe, Chefe, ganhamos, que acabamos com eles!... João Goanhá e o Fafafa, comuns dos nossos, ainda seguiram perseguindo os restos, derradeira demão...” – João Concliz deu resposta. – “O Hermógenes está morto, remorto matado...” – quem falou foi o João Curiol. Morto... Remorto... O do Demo... Havia nenhum Hermógenes mais. Assim de certo resumido – do jeito de quem cravado com um rombo esfaqueante se sangra todo, no vão-do-pescoço: já ficou amarelo completo, oca de terra, semblante puxado escarnecente, como quem da gente se quer rir – cara sepultada... Um Hermógenes.
Nas vozes, nos fatos, que agora todos estavam explicando: por tanto que, assim tristonhamente, a gente vencia. Sobresseguida à doideira de mão-de-guerra na rua, João Goanhá tinha carregado em cima dos bandidos deles que estavam dando retaguarda, e com eles rebentado... Aquilo não fazia razão. Suspendi minhas mãos. Vi que podia. Só o corpo me estivesse meio duro, as pernas teimando em se entesar, num emperro, que às vezes me empalhava. Sendo que me levantei, sustentando, e caminhei os passos; as costas para a janela eu dava.
Nesse ponto, foi que o Alaripe e o Quipes vinham chegando. Notícia de Otacília me dessem; eu custava a me lembrar de tantas coisas. Aqueles dois vinham alheios, do que vinham, desiludidos da viagem deles:
– “Era a vossa noiva não, Chefe...” – o que Alaripe relatava. – “O homem se chamava só Adão Lemes, indo conduzindo a irmã dele, fazendeira, cujo nome é A esmeralda... Iam de volta para suas casas... Os que, então, no Porto-do-Ci deixamos, na barra do Caatinga...”
Tanta gente tinha o mundo... – eu pensei. Tanta vida para a discórdia. Agradeci ao Alaripe, mas virei para os outros nossos; perguntei:
– “Mortos, muitos?”
– “Demais...”
Isto o João Curiol me respondeu, prestativamente, sistema de amigo. Solucei em seco, debaixo de nada. Agora um me dizendo: que, com as ferramentas, uns estavam trabalhando de abrir covas para enterro, revezados. Alaripe fez um cigarro, queria dar para mim; que rejeitei. – “E o Hermógenes?” – aí foi o que o Alaripe perguntou.
Como estavam indo abrir aquele quarto, trazendo do corredor a mulher do Hermógenes. Ela visse. – A senhora chegue na janela, dona, espia para a rua... – o que João Concliz falou. Aquela Mulher não era malina. – A senhora conheça, dona, um homem demõiado, que foi: mas que já começou a feder, retalhado na virtude do ferro... Aquela Mulher ia sofrer? Mas ela disse que não, sacudindo só de leve a cabeça, com respeito de seriedade. – Eu tinha ódio dele... – ela disse; me estremecendo. Ou eu ainda não estava bem de mim, da dor que me nublou, tive de sentar no banco da parede. Como no perdido mal ouvi partes do vozeio de todos, eu em malmolência. – Tomaram as roupas da mulher nua? Era a Mulher, que falava. Ah, e a Mulher rogava: – Que trouxessem o corpo daquele rapaz moço, vistoso, o dos olhos muito verdes... Eu desguisei. Eu deixei minhas lágrimas virem, e ordenando: –“Traz Diadorim!” – conforme era. – “Gente, vamos trazer. Esse é o Reinaldo...” – o que o Alaripe disse. E eu parava ali, permeio o menino Guirigó e o cego Borromeu. – Ai, Jesus! – foi o que eu ouvi, dessas vozes deles.
Aquela Mulher não era má, de todo. Pelas lágrimas fortes que esquentavam meu rosto e salgavam minha boca, mas que já frias já rolavam. Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus buritizais levados de verdes... Buriti, do ouro da flor... E subiram as escadas com ele, em cima de mesa foi posto. Diadorim, Diadorim – será que a mereci só por metade? Com meus molhados olhos não olhei bem – como que garças voavam... E que fossem campear velas ou tocha de cera, e acender altas fogueiras de boa lenha, em volta do escuro do arraial...
Sufoquei, numa estrangulação de dó. Constante o que a Mulher disse: carecia de se lavar e vestir o corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de Diadorim, casca de tão grosso sangue, repisado. E a beleza dele permanecia, só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis... Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim...
Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse...
Diadorim – nu de tudo. E ela disse:
– “A Deus dada. Pobrezinha...”
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu – não contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita...Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha...
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia,como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real. Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
– “Meu amor!...”
Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.
A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa-senhora. Só faltou – ah! – a pedra-de-ametista, tanto trazida... O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristamente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: – “Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba...” Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam. Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão.
Ela tinha amor em mim.
E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi.
Aqui a estória se acabou.
Aqui, a estória acabada.
Aqui a estória acaba.” (Riobaldo, em GS:V, p.611-616, Nova Fronteira).

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A terceira mulher aparece no encontro definitivo de Riobaldo com Diadorim. Esta terceira mulher também não tem nome, mas a) é a mulher do inimigo Hermógenes, o traidor e b) vinha já há algum tempo sendo chamada de “a Mulher”, assim mesmo, com maiúscula, como a anunciar a presença da mulher Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, existindo morta.

O espaço sagrado II


"E eu nunca tinha pensado nessa ordem. Para mim, minha mãe era a minha mãe, essas coisas. Agora, eu achava. A bondade especial de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça, que eu menino precisava. E a de, mesmo no punir meus demaseios, querer-bem às minhas alegrias. A lembrança dela me fantasiou, fraseou – só face dum momento – feito grandeza cantável, feito entre madrugar e manhecer. – “... Pois a minha eu não conheci...” – Diadorim prosseguiu no dizer. E disse com curteza simples, igual quisesse falar: barra – beiras – cabeceiras... Fosse cego, de nascença. Por mim, o que pensei, foi: que eu não tive pai; quer dizer isso, pois nem eu nunca soube autorizado o nome dele. Não me envergonho, por ser de escuro nascimento. Orfão de conhecença e de papéis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões. Homem viaja, arrancha, passa: muda de lugar e de mulher, algum filho é o perdurado. Quem é pobre, pouco se apega, é um giro, o giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: – “Zé-Zim, por que é que você não cria galinhas-d’angola, como todo o mundo faz?” – “Quero criar nada não...” – me deu resposta: – “Eu gosto muito de mudar...” Está aí, está com uma mocinha cabocla em casa, dois filhos dela já tem. Belo um dia, ele tora. É assim. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. Eu, isto é – Deus, por baixos permeios... Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra – baixo da ponta da Serra das Maravilhas, no entre essa e a Serra dos Alegres, tapera dum sítio dito do Caramujo, atrás das fontes do Verde, o Verde que verte no Paracatu. Perto de lá tem vila grande – que se chamou Alegres – o senhor vá ver. Hoje, mudou de nome, mudaram. Todos os nomes eles vão alterando. É em senhas. São Romão todo não se chamou de primeiro Vila Risonha? O Cedro e o Bagre não perderam o ser? O Tabuleiro-Grande? Como é que podem remover uns nomes assim? O senhor concorda? Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado. Lá como quem diz: então alguém havia de renegar o nome de Belém – de Nosso-Senhor-Jesus-Cristo no presépio, com Nossa Senhora e São José?! Precisava de se ter mais travação”.

(Riobaldo, referindo-se quase com todas as letras a Cordisburgo, antiga Vista Alegre: “... Alegres – o senhor vá ver. Hoje mudou de nome...").