sábado, 7 de abril de 2012

"Cidade acaba com o sertão. Acaba?"


Creio não haver dúvida, em GS:V, de que Riobaldo fala exato. “Eu não esperdiço palavras” (prefácio de Tutaméia e Riobaldo). A diferença é de nível. A gradação, de um lado, (Riobaldo se mostra inteiro, coitado, pelas mãos hábeis de seu criador) e a crítica da razão, de outro, (o autor tem consciência das forças que não controla). A tradução do “alto original” será apenas uma tentativa entre muitas, com o ego muito bem informado de suas fragilidades diante do mistério: “viver é um negócio muito perigoso” (GS:V).
A manifestação de Riobaldo aparece de maneira muito semelhante daquela que se vê nos grandes personagens da literatura em qualquer língua porque toca as formas simples. A mudança, o novo, é o deslocamento dessa manifestação para o interior do mato, para a fala de um jagunço. Ainda não está descartada a hipótese de reescrita, de retradução de sua fala pelo ouvinte-senhor. Resumo: homem culto se desdobra em ouvinte de um sertanejo para, primeiro, ouvi-lo, e, depois, contar a estória do ponto de vista daquele de quem a ouviu. Há mesmo muitos riscos a correr em casos assim.

A  “cidade acaba com o sertão. Acaba?” (Riobaldo, no GS:V)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Boa noite, amor!



Boa noite, amor,
Meu grande amor.
Contigo eu sonharei
E a minha dor esquecerei,
Se eu souber que o sonho teu
Foi o mesmo sonho meu.

Boa noite, amor,
E sonhe, enfim,
Pensando sempre em mim,
Na carícia de um beijo
Que ficou no desejo.
Boa noite, meu grande amor

(Composição: J.M. Abreu e F. Matoso).

As três mulheres I

"Pois tinha sido que eu acabava de sarar duma doença, e minha mãe feito promessa para eu cumprir quando ficasse bom: eu carecia de tirar esmola, até perfazer um tanto - metade para se pagar uma missa, em alguma igreja, metade para se pôr dentro duma cabaça bem tapada e breada, que se jogava no São Francisco, a fim de ir, Bahia abaixo, até esbarrar no Santuário do Santo Senhor Bom-Jesus da Lapa, que na beira do rio tudo pode. Ora, lugar de tirar esmola era no porto. Mãe me deu uma sacola. Eu ia, todos os dias" (Riobaldo, começando sua 'estória' em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa).

O primeiro encontro com Diadorim terá como razão o cumprimento de uma promessa feita por uma mulher: sua (dele, Riobaldo) mãe.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Instituto Rosa e Sertão


Atendo pedido e ajudo a divugar:




Caros Ponteir@as e leitores,

Vimos por meio deste convidá-los para participar da I Oficina de Comunicação Social e Produção e Edição de Vídeos aqui no Ponto de Cultura Seu Duchim - Rosa e Sertão. Esta proposta tem como pano de fundo fomentar uma proposta de formação de calendário de ações coletivas entre nós Pontos da região Norte e Noroeste, de acordo com Plano de Trabalho da Rede de Pontos de Minas Gerais.

Este encontro ocorrerá no período de 18 a 24 de abril, em Chapada, trará o olhar do grupo relacionada as questões étnicas, sociais, culturais e, em especial do Programa Cultura Viva/Cultura Digital. Ao final temos a como objetivo fortalecer a rede de Pontos por meio dos oficineiros e/ou estagiários com intuito de arranhar as primeiras ideias para a proposta de realização de um encontro maior, trazendo como pauta a discussão da Cultura Digital. Também relacionada ao nosso Plano de Trabalho.
Ofereceremos hospedagem solidária e alimentação para um representante de cada Ponto, totalizando cerca de 10 participantes da Rede + os 15 do município..

Ainda, seguindo esta proposta de fortalecimento do calendário de ações coletivas, estaremos realizando, na finaleiro do mês de junho - inicio de julho, uma interação criativa com a Caravana Artesania em nossa cidade. Com uma proposta muito bacana de trazer o com teatro de rua e intervenção cênica útilizando os espaços públicos. Convidamos também para estar conosco os agentes de transformação social de cada Ponto do Território Geraes! Em breve detalhamento e convite da mesma.

Esta ação conta com a parceria do Governo de Minas Gerais/ Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais através do convênio Pontos de Cultura e do Governo do Brasil - Ministério de Cultura e SCC - Programa Cultura Viva - através da ação Prêmio Pontinhos de Cultura.

Com apoio da Prefeitura Municipal de Chapada Gaúcha, Secretaria de Educação, Escola Municipal Santo Agostinho, Tele Centro do Distrito de Serra das Araras e Biblioteca Municipal de Chapada Gaúcha

Os pontos interessados em entender melhor esta proposta gentileza entrar em contato com a Daiana no Instituto Rosa e Sertão - Ponto de Cultura Seu Duchim no tel (38) 3634 1463, (38) 9904 8932 ou por e-mail: espacodefoliasseuduchim@gmail.com ou comigo rosaesertao@gmail.com para maiores informações e inscrição. Conto com a presença de vocês nesta amarração cultural! Um forte abraço, Damiana

Região Norte e Noroeste: Ajudem a divulgar!!!!!
Pontos de Cultura nas cidades: Moc; Unai; Paracatu; Três Marias; Chapada Gaúcha; Arinos; São João das Missões/ Xacriabas; Januária e Natalândi."

terça-feira, 3 de abril de 2012

Estrutura, mito e literatura



“Por mito (...) refiro-me primariamente a um certo tipo de história. É uma história na qual alguns dos personagens principais são deuses ou outros seres mais poderosos que a humanidade. Raramente ela está situada na história: sua ação acontece num mundo acima ou anterior ao tempo comum, in illo tempore, na expressão de Mircea Eliade. Por isso, assim como o conto popular, ela é um padrão de história abstrato.  (...)
“As diferenças entre mitos e conto popular, entretanto, também têm sua importância. Os mitos, quando comparados aos contos populares, estão geralmente numa categoria especial de seriedade: crê-se que eles ‘realmente aconteceram’ ou que têm alguma significação excepcional na explicação de alguns aspectos da vida, tal como o ritual. Por outro lado, enquanto os contos populares simplesmente permutam motivos e desenvolvem variantes, os mitos mostram uma tendência de se manterem juntos e formarem estruturas maiores. Temos mitos de criação, mitos da queda e do dilúvio, mitos de metamorfoses e de deuses que morrem, mitos de casamento divino e de linhagem do herói, mitos etiológicos, mitos apocalípticos; escritores das sagradas escrituras ou colecionadores de mitos, como Ovídio, tendem a arranjá-los em séries. Enquanto os próprios mitos são raramente históricos, eles parecem fornecer um tipo de forma abrangente de tradição, que tem como um de seus resultados a obliteração de fronteiras separando lenda, reminiscência histórica e história real que encontramos em Homero e no Velho Testamento.
“Como um tipo de história, o mito é uma forma de arte verbal e pertence ao mundo da arte. Como arte, e diferentemente da ciência, ele lida não com o mundo que o homem contempla, mas com o mundo que o homem cria. A forma total de arte, por assim dizer, é um mundo cujo conteúdo é a natureza, mas cuja forma é humana; por isso, quando ela ‘imita’ a natureza, a natureza assimila as formas humanas. O mundo da arte é humano em perspectiva, um mundo em que o sol continua a nascer e a se pôr muito depois que a ciência explicou que seu nascimento e desaparecimento são ilusões. Também o mito faz uma tentativa sistemática de ver a natureza em forma humana: ele não perambula simplesmente à soltas na natureza como o conto popular.
“A concepção óbvia que une a forma humana e o conteúdo natural no mito é o deus. Não é a conexão das histórias de Phaeton e de Endymion com o sol e a lua que faz delas mitos, pois poderíamos ter contos populares do mesmo tipo: é, sem dúvida, sua ligação com o corpo de histórias contadas sobre Apolo e Artemis que lhes dá um lugar canônico no sistema crescente de contos que chamamos mitologia. Toda mitologia desenvolvida tende a se completar, a delinear um universo inteiro no qual os ‘deuses’ representam a natureza inteira em forma humanizada e, ao mesmo tempo, mostram em perspectiva a origem do homem, seu destino, os limites de seu poder e a extensão de suas esperanças e desejos. Uma mitologia pode se desenvolver por acréscimo, como na Grécia, ou pela codificação rigorosa e pela exclusão de material não-desejado, como em Israel; mas o impulso em direção a uma circunferência verbal de experiência humana é clara em ambas as culturas.
“Os dois grandes princípios conceituais que o mito usa ao assimilar a natureza à forma humana são a analogia e a identidade. A analogia estabelece o paralelo entre a vida humana e os fenômenos naturais e a identidade concebe um ‘deus-sol’ ou um ‘deus-árvore’. O mito apodera-se do elemento fundamental da forma oferecida pela natureza – o ciclo, tal como o temos diariamente no sol e anualmente nas estações – e o assimila ao ciclo humano da vida, da morte e (analogia novamente) do renascimento. Ao mesmo tempo, a discrepância entre o mundo em que o homem vive e o mundo em que ele gostaria de viver desenvolve uma dialética no mito que, como no Novo Testamento e no Phaedo de Platão, separa a realidade em dois estados contrastantes, um céu e um inferno. (...)
“Um mito pode ser contado e recontado: pode ser modificado ou elaborado, ou diferentes padrões podem ser descobertos nele; sua vida é sempre a vida poética de uma história, não a vida homilética de algum truísmo ilustrado.  (...)
“O mito, portanto, fornece os principais contornos e a circunferência de um universo verbal que é mais tarde também ocupado pela literatura. A literatura é mais flexível do que o mito e preenche esse universo de modo mais completo: um poeta ou romancista pode trabalhar em áreas da vida humana aparentemente distantes dos deuses vagos e dos resumos narrativos gigantescos da mitologia. Mas em todas as culturas, a mitologia se funde imperceptivelmente na e com a  literatura. A Odisseia é para nós uma obra de literatura, mas seu lugar inicial na tradição literária, a importância dos deuses em sua ação e sua influência no pensamento religioso grego posterior, são todos aspectos comuns à literatura propriamente dita e à mitologia e indicam que a diferença entre elas é mais cronológica do que estrutural. Os educadores estão conscientes agora de que qualquer ensino efetivo de literatura tem de recapitular sua história e começar, na primeira infância, com mitos, contos populares e lendas.
“((...) Poetas pensam por meio de metáforas e imagens, não por meio de proposições) e (...) estão profundamente preocupados com a origem, o destino ou os desejos da humanidade. (...)”.

NORTHROP FRYE, Fábulas de identidade: estudos de mitologia poética, p.38-41.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Homem é o sozinho?



Ele próprio, Riobaldo, sofre, muito em função da velhice talvez, mas principalmente pelas características de funcionamento mesmo da memória. O que parece evidente é que os acontecimentos realmente fazem “balancê” ao se verem intimados a voltar à cena. Por duas formas: de um lado, o mais antigo, por descuido ou alguma razão que a própria razão desconhece, “vem para a frente”, como se fosse fato recente; de outro, o inconsciente “vaza” para a parte consciente e trai ou subverte o controle do ego. Como parece ser bem o caso de Diadorim, a “neblina”. Cada vez que Riobaldo, nas primeiras cem páginas do livro ou na manhã do primeiro dia, começa a alinhavar sua estória, a construir sua rede, Diadorim “aparece”, como que do nada. Claro que não: trata-se de uma intimação inconsciente, um descontrole, com que o narrador tenta equilibrar e que o autor administra imagino que às grandes felicidades.

"(...) Digo ao senhor: naquele dia eu tardava, no meio de sozinha travessia.

Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não” (Riobaldo, no GS:V).

domingo, 1 de abril de 2012

Os quatro primeiros

Era alta noite quando a cachorrada pegou a latir. Riobaldo se demora a levantar, por preguiça "mal corrigida", como era costume seu de juventude. Ao chegar à sala, já ali estavam seis homens diante de seu Padrinho (pai) Selorico Mendes, que conversava com Alarico Totõe. Este e seu irmão, Aluiz Totõe, haviam contratado um bando de jagunços para resolver uma questão de política, como Riobaldo entendeu logo. O grupo precisava de pouso para o resto da noite e o dia, pois viajava só de noite, apagando marcas pelo caminho. Riobaldo divisou os chefes dos jagunços que estavam na sala: quatro. Diante de todos, o principal: ninguém menos que Joca Ramiro. Secundavam-no, eram seus segundos o Ricardão e o Hermógenes (o homem sem anjo-da-guarda). Estava também o Alaripe. Selorico ordenou que Riobaldo os levasse a lugar seguro.

Missa das onze e meia



Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor
1º de abril de 2012

"Os chefes dos sacerdotes, porém, incitavam o povo a pedirem, antes, que lhes soltassem Barrabás. Pilatos perguntou-lhes de novo: 'Que farei de Jesus, que dizeis ser o rei dos judeus?' Eles gritaram de novo: 'Crucifica-o'" (Marcos, 15, 11-13).