sábado, 25 de fevereiro de 2012

Buritis, Minas Gerais

Numa tarde exata


“Você está com medo de ser feliz!”
Disse-me ela, como que brincasse.
Numa tarde exata.
A coisa mais séria.
Eu não sabia se.
Medos eram, sim!
Medos que ainda são meus.

 

Águas

Matas fechadas,
Buritis ao longe,
Engenhos de memória
Antigas águas me trazem.
Dores ancestrais.
Sou muito antigo,
Velhíssimo:
Quase do tempo em que não havia tempo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O escuro do dia


Pontualmente. Falando. O escuro é ponto de luz. Cada vez mais me convenço de que a sombra é parte da luz. Está nela por definição. E por ideologia também. A “idade das trevas” é prova da necessidade da esquizofrenia iluminista de se afirmar. A razão é outlier; a normalidade é o fundo da caverna. O inconsciente é a mãe. Com todo respeito e propriedade. A fonte da luz é o fundo escuro da alma humana. Diante da luz total, impossível, o homem se cala, desaparece, ou caminha aos saltos, à maneira de Dante. O homem sabe bem é da escuridão, que dispensa palavras. A claridade da superfície é mentira, palavrório. Quando não, burrice.

Uma luta

“É nisto que penso quando digo que gostaria de recuperar o curso do tempo: gostaria de anular as conseqüências de certos acontecimentos e restaurar uma condição inicial. Mas todo momento de minha vida traz consigo um acúmulo de fatos novos, e estes, por sua vez, acarretam conseqüências, e assim, quanto mais busco retornar ao ponto zero do qual parti, mais me distancio dele; embora todos os meus atos tendam a anular as conseqüências de atos anteriores, e conquanto eu tenha obtido resultados apreciáveis nessa tarefa, a ponto de animar-me com a esperança de um alívio próximo, devo considerar que cada uma desssas tentativas provoca uma chuva de novos acontecimentos que complicam ainda mais a situação original e que,  posteriormente, terei de fazer desaparecer”. ITALO CALVINO.

“Reperdida a remembrança, a representação de tudo se desordena: é uma ponte, ponte, – mas que, a certa hora, se acabou, parece`que. Luta-se com a memória” JOÃO GUIMARÃES ROSA.

Em Gabriela Reinaldo, Cantiga de fechar os olhos: mito e música em Guimarães Rosa, FAPESP/Annablume, 2005, p.59.


Cruz e Sousa

VISÃO

Noiva de Satanás, Arte maldita,
Mago Fruto letal e proibido,
Sonâmbula do Além, do Indefinido,
Das profundas paixões, Dor infinita.

Astro sombrio, luz amarga e aflita,
Das ilusões tantálico gemido,
Virgem da Noite, do luar dorido,
Com toda a tua Dor oh! sê bendita!

Seja bendito esse clarão eterno
De sol, de sangue, de veneno e inferno,
De guerra e amor e ocasos de saudade.

Sejam benditas, imortalizadas
As almas castamente amortalhadas
Na tua estranha e branca Majestade!

CRUZ E SOUSA

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Agora que passou

Agora que passou... Passou?



Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)
Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear

Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passar

CHICO BUARQUE / FRANCIS HIME

A mediania de cada um

 Seu Zezinho

Coisa das mais difíceis é medir as grandezas do ser humano. Quase sempre o fazemos pelo negativo, como se a bondade, a educação, a elegância fossem traços naturais. Não são. Já se disse que a opressão é o preço da civilização. E da sobrevivência da espécie, talvez. Esta última, ainda assim, muito discutível em suas linhas mais gerais. Na vida prosaica do dia comum nosso de sempre, alguns seres podem nos ajudar a ver ângulos novos. Conheço vários dessa estirpe e vou falar de um deles aqui: o senhor José Ferreira, Seu Zezinho, mecânico de automóveis, como gosta de ser conhecido.

Um metro e sessenta, no máximo, eis o tamanho do homem. Barbas e cabelos totalmente brancos, esses dois elementos de sua composição física nunca merecendo atenção alguma. Avô e aposentado. Já passou bem pelos setenta. Mecânico de Automóveis por puro gosto, Seu Zezinho possui oficina colada na casa em que vive com a esposa, uma das filhas e um dos netos. Trabalha quase sempre sozinho: não tem mais paciência com quem acha que sabe e nem para ensinar a quem não sabe. Seus conhecimentos do ofício são de impressionar. Se o seu carro estiver com algum barulho estranho, ele vai saber disso antes que você diga; até mesmo antes que o carro entre na oficina, ele já ouviu e sabe sobre o que você vai reclamar. Às vezes fala de um barulho na roda traseira direita que você mesmo não tinha percebido. Não aceita qualquer carro na oficina nem trabalha todo dia: apenas atende amigos ou pessoas indicadas por amigos; muitas vezes acorda sem vontade de trabalhar, toma café, avisa D. Joana que vai não sei onde, monta na moto estradeira, desaparece e só volta junto com a noite.

Há pessoas e pessoas, todos sabem, e Seu Zezinho é uma delas. Ignorância é poço sem fundo, todos sabem, e Seu Zezinho é uma das provas disso. São inúmeros os exemplos. O velho mecânico desenvolveu, ao longo de 50 anos consertando veículos, um ódio mortal a determinados tipos de carro, que ele chama, desculpem, de “essas desgraças”. Pois então, sempre que vou até sua oficina, lá está pelo menos uma dessas... Um desses carros excomungados. Não vou mencionar os nomes das “porcarias” por causa da elegância de que ainda sou capaz de manifestar às vezes. E por medo de represálias, também. Vamos tentar ser justos. Um dia, vendo-o debaixo de um deles e xingando sem parar palavrões terríveis, não resisti e perguntei:

– Mas, Seu Zezinho, desculpa, mas se o senhor sabe que esses carros não prestam, por que o senhor os pega para consertar?

A resposta é quase impublicável, mas gira em torno de algo como: “São esses filhos da puta desses meus amigos. Eu já falei mil vezes pra não comprar essas desgraças e eles me aparecem aqui com essas pragas...” E por aí vai. Nesse ponto abre um sorriso e diz que, na verdade, outro motivo é que um homem precisa xingar alguns palavrões todos os dias, “faz bem pra saúde”. E, finalmente, que aqueles carros malditos só aceitam ser consertados debaixo de muito xingamento. “Se não xingar, não funciona”. Às vezes é desconcertante ficar perto dele no trabalho. No começo me causava certo constrangimento. Depois me acostumei, passei a acender um cigarro começar a rir comigo mesmo, ali num canto. Ele lá, um palavrão emendando no outro. “Aí, tá vendo?” – Dizia ele, de repente.  “Está regulado esse ***, não sei como permitem que se fabrique uma *** dessa”.

Outra. Seu Zezinho odeia aparelho de telefonia celular. Possui um desses, exatamente o mesmo, há uns 15 anos, nunca achando razão suficiente para trocar. Agora, basta o aparelhinho cheio de graxa tocar, lá vem todo o repertório de palavrões outra vez. Já o vi atender ao chamado e continuar xingando que aquela merda filha da puta não o deixa trabalhar. Penso que as pessoas já sabem dos contextos todos e transmitem suas mensagens sem maiores problemas. Um dia, pensei em questioná-lo sobre as razões de ter o aparelho, se o incomodava tanto... Vislumbrando a resposta, me calei.

Agora, quer tirar o Seu Zezinho do sério, de verdade? Quer chamá-lo para resolver tudo na faca? É muito simples: ao sair diga “Seu Zezinho, fica com Deus”. Há os amigos mais próximos, que conhecem variantes: “Zé, você precisa ir pra igreja, rezar um pouco”. Ou então: “Zé, você sabe se tem uma igreja aqui perto?” Essas palavras são chaves para abrir um repertório inacreditável de impropérios e destemperos, blasfêmias e todo tipo de desacato, num ritmo que chega a travar a fala do velho. Começa mesmo a gaguejar de puro ódio. Não disse antes, mas na juventude, quando ainda era funcionário do Ministério da Saúde, Seu Zezinho fez dois cursos de graduação, um em Filosofia e outro, em Teologia. Eis a desgraça, desculpem, no seu último grau. Ele sabe bem quem é Deus.

O mecânico sabe muito bem quem é, o que é, onde está Deus e com quem anda, suas preocupações e tudo o mais. O que Seu Zezinho não suporta, mas nem que se fale nos nomes, são padres, pastores e igrejas. Ou o nome de Deus “na boca de todo mundo, de qualquer jeito”. Para ele, fontes de mentiras e ignorância, vejam só. Padres, pastores e igrejas são comerciantes e seu estabelecimento comercial, respectivamente, segundo ele. Quanto a Deus, ele não reconhece em ninguém a autoridade para usar o nome, nem que seja para verbalizar a ideia do desejo de boas coisas para ele mesmo, José Ferreira. Quem sabe de Deus é ele, Seu Zezinho, mecânico de automóveis. Mas Seu Zezinho tem lado. Outro dia levei o carro para uma consulta e ele mal abriu a tampa para ver o motor: passamos quase duas horas falando de Ética em Aristóteles e Kant, Deus no meio, sem nenhuma pedra no meio das palavras. Muitas dúvidas, isso sim, e convites para prosseguir de onde paramos: “Nicômaco”, pai e filho de Aristóteles, quer dizer “lar”. Eu ainda não disse isto a ele, mas seu Zezinho é muito mais kantiano do que imagina.