"Aquilo era a tristonha travessia, pois então era preciso. Água de rio que arrasta. Dias que durasse, durasse; até meses. Agora, eu não me importava. Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? - desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o amor - quanta saudade... -; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha, que tiro por tino. Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para estudar dessas matérias...", JGR, em G.S.:V, p. 248.
Caminhando pelas ruas de Cordisburgo, circulando a capela de São José, sentado no banco em frente à estação do trem, o que equivale estar diante da casa em que Guimarães Rosa viveu sua infância, observando, de dentro, o desenho da casa... E, de fora, sua aparência... Estirando a vista pelos campos em volta, os pastos, os caminhos... Conversando com as pessoas do lugar... Constatando a presença insistente e nuclear de crianças em seus textos... Ouvindo o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras....Já não posso escapar de uma ideia quase fixa: está ali a razão de tudo. JGR considera a posse na ABL como uma espécie de resgate da dívida que, parece, aceitava ter com o lugar onde nasceu e viveu os primeiros anos. As palavras travessão (que indica a fala de um personagem num texto literário) e travessia (polissêmica, mas com um centro em “passagem”, “atravessamento”) ganham nova possibilidade de significação quando se lê, mas, principalmente, quando se ouve o discurso de posse na Academia. Era uma espécie de “salvamento”, a obra de JGR. Ele e o sertão, juntos, encantados.