sábado, 18 de fevereiro de 2012

Luas de mel, por Brasinha

Música muito antiga



Não devia, mas não resisti e arranjei palavras para a antiga valsa do Souzinha:

Riozinho do meu destino
Quer mais água às quais se juntar;
Como espelho me faz recordar
De mim mesmo quando menino.

Tantas noites me viram chorar,
Era o medo de não ter outro dia:
Nesta noite o mundo acabar...
Na lembrança o soluço sumia.

Era tempo de sonhos compridos,
Em uma casa com telhas escuras.
Tudo alargava os sentidos
Do menino em suas lonjuras.

A cidade do coração

Caminhando pelas ruas de Cordisburgo, circulando a capela de São José, sentado no banco em frente à estação do trem, o que equivale estar diante da casa em que Guimarães Rosa viveu sua infância, observando, de dentro, o desenho da casa... E, de fora, sua aparência... Estirando a vista pelos campos em volta, os pastos, os caminhos... Conversando com as pessoas do lugar... Constatando a presença insistente e nuclear de crianças em seus textos... Ouvindo o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras....Já não posso escapar de uma ideia quase fixa: está ali a razão de tudo. JGR considera a posse na ABL como uma espécie de resgate da dívida que, parece, aceitava ter com o lugar onde nasceu e viveu os primeiros anos. As palavras travessão (que indica a fala de um personagem num texto literário) e travessia (polissêmica, mas com um centro em “passagem”, “atravessamento”) ganham nova possibilidade de significação quando se lê, mas, principalmente, quando se ouve o discurso de posse na Academia. Era uma espécie de “salvamento”, a obra de JGR. Ele e o sertão, juntos, encantados. 

Miguilins I

Os caminhos da Sombra V

Chuvas insistentes, mato alto nos terreno vazios e descuidados. Para a Sombra não há diferença, creio até que ela se interessa é mais, quando está na rua, pela sujeira, tão urbana. Acaba, com esse seu desprendimento ou apurado olfato arqueológico da modernidade, revirando lixos e matos altos e, com isso, forçando-me à aproximação de cantos tão próximos do que realmente é a cidade, produto do capital: a sujeira. Ocorre, muitas vezes, porém, como já nos alertou mestre Elomar, a ocorrência de diamantes neste grande lixo.


Lamento muito não saber os nomes desses monumentos amarelos para a proximidade dos quais me levou Sombra. Passei a imaginá-los como parentes das margaridas, mas achei estranho ver margaridas no mato, no meio do capim. Mas deve ser assim.

Forêts de symboles

Trilha em Praga, com sinalizações: http://minhavidaempraga.wordpress.com

O que me diz uma imagem poética? Talvez melhor fosse formulada a questão se eu perguntasse a mim mesmo o que diz de mim uma imagem poética. Ou ainda se, antes, indagasse sobre a estrutura da imagem poética e o significado que pode ter para mim ou sobre o que revela do imaginário de uma época. Ou ainda, o que há numa imagem poética que insinua a dissociação tantas vezes negada entre espaço e tempo. Pode haver algo numa imagem poética que escapa às marcas do tempo?

Tentemos verificar: quando Riobaldo espalha por todo o espaço o verde dos olhos de Diadorim, “vislumbre meu – que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto”, “meus buritizais levados de verdes”, o que faz? Depois dos grandes olhos verdes de Diadorim, Riobaldo passa a ver tudo por esse prisma.

Desnecessário dizer que a poesia precede a prosa, e que, como queria o próprio Guimarães Rosa, na língua de “antes de Babel”, os homens falavam por imagens. Aí, a poesia (e a imagem poética) foi a primeira manifestação lingüística do homem. Isso foi quando (desculpem o advérbio) ainda não havia tempo. As muitas línguas coincidem com o aparecimento do homem histórico, o homem no tempo.

Dos milhões de coisas vividas pelo homem antes disso, uma muito mais que memória permaneceu nas sombras. O homem tirou o pé da floresta física, para começar a percorrer a floresta de símbolos. Baudelaire fixa de forma categórica: “La Nature est un temple où de vivants piliers/Laissent parfois sortir de confuses paroles;/L´homme y passe à travers des forêts de symboles/Qui l`observent avec des regards familiers”. “Templo”, “palavras confusas”, “floresta de símbolos”, “olhares familiares” são todos mitemas, de mitos diversos e que poderiam ser reunidos num só. O poeta terá que ser sempre outro, este, obscuro até para ele mesmo. Mesmo suas palavras lhe soam estranhas, porque pertencem a um tempo mítico, tempo suspenso. Espaço de todo humano vivente. O encontro se dá nos olhares familiares com que a natureza simbólica que o observa, caminhando dentro de si mesmo, só podendo se expressar numa língua que é de todos.

A imagem poética será sempre primordial. Sua força está no que supera o tempo e sugere a experiência comum, de humanizar o inumano combate. Pelo fato de sentir-se tão humanamente isolado, cria a ilusão do retorno à unidade perdida, sentimento das profundezas do espírito. Alguém poderá ter medo de se perder, sem jamais ter se perdido? Sim.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O albatroz

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

CHARLES BAUDELAIRE
Tradução de Guilherme de Almeida

Le lac

Ainsi, toujours poussés vers de nouveaux rivages,
Dans la nuit éternelle emportés sans retour,
Ne pourrons-nous jamais sur l’océan des âges
Jeter l’ancre un seul jour ?

Ô lac ! l’année à peine a fini sa carrière,
Et près des flots chéris qu’elle devait revoir,
Regarde ! je viens seul m’asseoir sur cette pierre
Où tu la vis s’asseoir !

Tu mugissais ainsi sous ces roches profondes,
Ainsi tu te brisais sur leurs flancs déchirés,
Ainsi le vent jetait l’écume de tes ondes
Sur ses pieds adorés.

Un soir, t’en souvient-il ? nous voguions en silence ;
On n’entendait au loin, sur l’onde et sous les cieux,
Que le bruit des rameurs qui frappaient en cadence
Tes flots harmonieux.

Tout à coup des accents inconnus à la terre
Du rivage charmé frappèrent les échos ;
Le flot fut attentif, et la voix qui m’est chère
Laissa tomber ces mots :

« Ô temps ! suspends ton vol, et vous, heures propices !
Suspendez votre cours :
Laissez-nous savourer les rapides délices
Des plus beaux de nos jours !

« Assez de malheureux ici-bas vous implorent,
Coulez, coulez pour eux ;
Prenez avec leurs jours les soins qui les dévorent ;
Oubliez les heureux.

« Mais je demande en vain quelques moments encore,
Le temps m’échappe et fuit ;
Je dis à cette nuit : Sois plus lente ; et l’aurore
Va dissiper la nuit.

« Aimons donc, aimons donc ! de l’heure fugitive,
Hâtons-nous, jouissons !
L’homme n’a point de port, le temps n’a point de rive ;
Il coule, et nous passons ! »

Temps jaloux, se peut-il que ces moments d’ivresse,
Où l’amour à longs flots nous verse le bonheur,
S’envolent loin de nous de la même vitesse
Que les jours de malheur ?

Eh quoi ! n’en pourrons-nous fixer au moins la trace ?
Quoi ! passés pour jamais ! quoi ! tout entiers perdus !
Ce temps qui les donna, ce temps qui les efface,
Ne nous les rendra plus !

Éternité, néant, passé, sombres abîmes,
Que faites-vous des jours que vous engloutissez ?
Parlez : nous rendrez-vous ces extases sublimes
Que vous nous ravissez ?

Ô lac ! rochers muets ! grottes ! forêt obscure !
50   Vous, que le temps épargne ou qu’il peut rajeunir,
Gardez de cette nuit, gardez, belle nature,
Au moins le souvenir !

Qu’il soit dans ton repos, qu’il soit dans tes orages,
Beau lac, et dans l’aspect de tes riants coteaux,
Et dans ces noirs sapins, et dans ces rocs sauvages
Qui pendent sur tes eaux.

Qu’il soit dans le zéphyr qui frémit et qui passe,
Dans les bruits de tes bords par tes bords répétés,
Dans l’astre au front d’argent qui blanchit ta surface
De ses molles clartés.

Que le vent qui gémit, le roseau qui soupire,
Que les parfums légers de ton air embaumé,
Que tout ce qu’on entend, l’on voit ou l’on respire,
Tout dise : Ils ont aimé !

ALPHONSE LAMARTINE