domingo, 29 de janeiro de 2012

Parou às cinco da tarde



Voz e montagem musical: Manuel Mulciber

LLANTO POR IGNACIO SÁNCHES MEJÍAS

La Cogida y la Muerte

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
A las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
A las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y solo muerte
A las cinco de la tarde.

El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la Paloma y el peopardo
a las cinco de la tarde.
Y um muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del Bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y El toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
cuando la Plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
A las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.

Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

FEDERICO GARCÍA LORCA

Missa das onze e meia


4º Domingo do Tempo Comum
"Não endureçais vossos corações" (Salmo 95(94), 8)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Os caminhos da Sombra I


Eu tenho duas sombras, como já informei aqui. A minha, a própria, que corresponde àquela que todos têm (a não ser que, como eu disse, a tenham vendido ao diabo) e outra, que veio morar comigo há sete meses. Uma cadelinha SRD (Sem Raça Definida) que escolhi num abrigo para cães destinados à adoção. O nome Sombra ela já possuía, dado por mim, mesmo antes de encontrá-la. Essa é a Sombra Viva.

Há meses, todos os dias nós dois percorremos a pé alguns metros nos arredores, passeio que marquei com ela para algo em torno das 18h30, todos os dias. Não sei se por ansiedade ou o quê, ela começa a me cobrar essa pernada já pouco antes das 17. Também não sei é ela que passeia comigo ou se é o contrário: ela é quem me leva. O fato é que existem o que passarei a chamar aqui “os caminhos da Sombra”.

Nesses caminhos da Sombra, muitas coisas podem ser vistas e que passariam absolutamente ignoradas em outras situações. Primeiro, pelo fato de os cães se guiarem por outros sentidos, em busca de outros sabores e cheiros para a vida (deles); segundo, porque nós mesmos passamos a observar coisas e fatos que talvez jamais víssemos, ainda que passássemos pelo mesmo lugar mil vezes.

Um primeiro exemplo: num canto de muro a coruja buraqueira vigia seu ninho. Certamente guiada pelo pio da mãe nervosa, Sombra me leva até lá. As corujas não costumam se preocupar muito em montar seus ninhos em lugares de difícil acesso, muito escondidos etc. Às vezes os encontramos bem ao lado do trilho por onde passam todos. Vigiar, sim, isso é traço da personalidade e do caráter da coruja, e vigiar com olhos bem abertos e, quando necessários, gritos esganiçados. Pois a Sombra me levou até as proximidades desse canto de muro onde essa senhora cuidadosa vigiava sua prole (ou esse senhor, isso depende do nível em que estão os "trabalhos": antes de os filhotes nascerem, o trabalho de polícia é do pai; depois, da mãe). O que me chamou a atenção foi a segurança do lugar: o velho muro tem cerca elétrica, avisos de “perigo” e tudo. Não quis me aproximar mais, para não arrumar confusão.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Não encontra em lugar nenhum

Tempo desse me lembrei do meu primeiro dia de aula em um dos 30 cursos de graduação que comecei. Esse da lembrança, eu o concluí, só Deus, eu e minha companheira de sempre (fisicamente por perto ou não) sabemos como. Então, nesse primeiro dia de aula, eu me lembro que a primeira disciplina a ter aula era a de Francês. Entramos para a sala, no horário marcado no calendário, e o professor demorou alguns minutos. Poucos. Aí entrou um moço magro, alto, de calça jeans, paletó preto, cabelo desalinhado e um monte de livros debaixo dos braços. Sim, ele tinha uns cinco ou seis livros em cada mão. Tudo bem, era de se esperar. Com cara de poucos amigos, na medida em que se aproximava de sua mesinha, em frente da lousa, encarava um a um os alunos, num passo lento, querendo causar certa impressão ou sei lá o quê. Ninguém ali sabia Francês, exceto eu, que muito mal havia feito algumas aulas muito antigamente e algumas leituras idem, e o Marco Antônio, hoje doutorando da USP, que conhecia o idioma um pouquinho mais que eu. Pois o moço de cara amarrada começou já pela apresentação falando em Francês. De tudo que falou, acho que conseguimos entender que ele era o nosso Professor e que se chamava Gedeon.

Nisso um dos nossos colegas, que sentava ao fundo da sala, começou com uma série de saídas e entradas na sala, sempre arrastando cadeiras e batendo a porta. Aquilo foi levando o Professor ainda para mais perto da exasperação e, aproveitando uma das saídas do colega, respirou fundo, pediu desculpas (“Excusez-moi, vous”) e começou a falar em português mesmo. Dizem que isso acontece muito com os professores lá na Itália: em momentos de ira eles perdem o controle, esquecem o italiano (que todos sabem: é uma língua que não existe na prática das pessoas, apenas nas cerimônias públicas, jornais, publicação de livros, etc) e começam  falar, digo, gritar, em seus dialetos locais.

Em bom português, Gedeon pediu desculpas por aquelas interrupções provocadas pelo aluno que entrava e saía, disse que ele estava repetindo a disciplina, que tinha muitas dificuldades, era praticamente um retardado, enfim... Que tivéssemos paciência com ele durante o ano, etc. Ele tinha muita dificuldade em aprender, coitado...

 Nisso o aluno voltou, com a barulheira de sempre. Rimos um pouco e o Professor abaixou a cabeça, movendo-a de um lado a outro em sinal de reprovação e desespero. “Bien, voilà”, disse, colocando a mão sobre uma das pilhas de livros, e é essa fala dele sobre os livros a serem utilizados na disciplina que me fez lembrar do Gedeon e daquele dia. Agora misturando as duas línguas, ele tomava nas mãos um a um dos livros e sobre cada um deles o final da conversa era a mesma: “Este livro vocês não encontrarão para comprar no Brasil, não acha, não adianta procurar. Tentem ver se encontram alguém que tenha e possa emprestar, coisas desse tipo. Eu só tenho este e, no máximo, posso deixar alguma coisa no Xerox e vocês vão copiando o que for possível”. Pegava outro livro: a mesma história. Outro: de novo. Uns 10 minutos se passaram, todos querendo rir, mas sem jeito e pensando: “Mas, como, então?!”. Nisso o Marco Antônio desconfiou do Francês do Gedeon e fez um comentário que só o “Professor” ouviu. A resposta veio imediatamente e ríspida: “Fermez la bouche!!”, que eu mesmo compreendi. Gedeon continuou a dizer que usaria livros aos quais ninguém tem acesso.

Encurtando a história, que deve ter durado uns 20 minutos: Gedeon era aluno concluinte do Curso e estava fazendo um “trote” com os calouros. Quando achou que a brincadeira tinha chegado ao fim, apresentou o verdadeiro Professor, que não podia ser outro se não o “aluno aloprado” e inquieto que arrastava cadeira ao se movimentar e batia a porta ao entrar e sair. Claro que receberam aplausos de todos pela elegante e divertida recepção.

Agora no mestrado, o que me fez escrever estas linhas é o “não acha em lugar nenhum” da fala de Gedeon. Que coisa irritante acontece quando a pesquisa começa a se afinar e os livros vão ficando cada vez mais inacessíveis. Verdadeiras sagas muitas vezes são necessárias para localizar um exemplar do qual se tem necessidade para ontem. Há alguns dias rodei o mundo, literalmente, pela internet e pelo telefone, procurando um texto. Simplesmente não achava. Em lugar nenhum, com ninguém. Resolvi apelar: como o autor está vivo (que Deus o mantenha assim por muito tempo), busquei o seu contato e resolvi escrever um e-mail pra ele. Pedi mil desculpas e contei minha história, num e-mail que, em outros tempos, seria chamado de carta, por suas dimensões. Sinceramente, não tinha muitas esperanças: conheço um pouco essa gente. Para surpresa minha dois dias depois a resposta estava na minha caixa. O Professor/autor pedia desculpas pela demora e explicava que realmente o livro estava esgotado e, nesses casos, costuma acontecer de ele parar de circular: quem tem não vende; quem não tem não acha pra comprar. Aí o melhor da história (pelo menos pra mim): ele disse que uma nova edição estava sendo preparada (Deus sabe o quanto isso pode demorar), mas tinha um exemplar em casa e poderia me ceder, caso me interessasse. Estava um tanto quanto riscado, etc, mas... Resultado: o livro está aqui comigo, com dedicatória e tudo.

Devo ter aqui na estante uns 10 livros que pertencem à minha orientadora, para ganhar tempo. Livros que ela comprou na Espanha, na Argentina, na Alemanha, ou que algum amigo trouxe pra ela de algum lugar. Obra completa de um autor à qual eu jamais teria acesso, não fosse esse tipo de generosidade. Ela diz: “Pra você eu empresto, leva, fica com eles enquanto precisar; se eu precisar, te aviso”. Outro tanto são de colegas que viveram o que vivo agora e sabem, exatamente, do que eu estou falando.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O Jeca e o Brasil

Foi mais ou menos assim. Lobato, em 18, publica "Urupês", em que surge "majestosamente" a figura do Jeca Tatu. Aparece bem desenhado, com todos os traços necessários: sujeira, preguiça, burrice, imprevidência, inconsequência, tudo a retratar o caipira, que, como sabemos, tem muitos outros nomes. Um desses nomes é "o brasileiro que ninguém quer ser". Que Lobato nasceu para a polêmica, disso também ninguém duvida. 

Em 19, Dr. Rui Barbosa perde as eleições presidenciais para Epitácio. Será a última vez que disputa uma eleição presidencial. Sai o Dr. Rui, após a derrota a fazer conferências sobre a "questão social e política do Brasil". São preciosidades, comparáveis aos sermões do Pe. Antônio Vieira. Numa delas faz especial elogio ao "admirável escritor paulista", o criador do Jeca.  Dois trechos da conferência:

"Se os pecos manda-chuvas desse sertão mal roçado, que se chama Brasil, o considerassem habitado, realmente de uma raça de homens, evidente não teriam a petulância de governar por meio de farsanterias, como e com que acabam de arrostar a opinião nacional e a opinião internacional, atirando à cara da primeira o ato de mais violento desprezo, que nunca se ousou contra um povo de mediana consciência e qualquer virilidade"

"Mas, senhores, se é isso o que eles veem, será isto, realmente, o que nós somos? Não seria o povo brasileiro mais que esse espécime do caboclo mais dasasnado, que não se sabe ter de pé, nem mesmo se senta, conjunto de todos os estigmas da calaçaria e estupidez, cujo voto se compre com um rolete de fumo, uma andaina de sarjão e uma vez de aguardente?"

Polêmica acesa, há quem diga que foram as palavras do Dr. Rui que lançaram Lobato na direção da riqueza e da fama. Muitos participaram dessa briga, digo, conversa. Intelectuais pesadíssimos saíram de suas alturas em defesa do escritor paulista e de seu Jeca. Parece que ninguém criticou o caipira como símbolo nacional (subliminar na fala de Rui). Gilberto Freyre teria atribuído a Lobato o despertar de Rui Barbosa para as questões sociais brasileiras.

A seguir a manifestação preciosa de Luis da Câmara Cascudo, em A humanidade de Jeca Tatu, artigo publicado inicialmente no jornal A Imprensa, de Natal-RN, e que sairá também na antiga Revista do Brasil em 1920:

"Por mais que se declare e se prove a homogeneidade do tipo brasileiro, salta-nos à vista, para cada cidade o seu caráter próprio e especiais maneiras de ver e de observar.

"Debalde, em literatura e desenho temos lutado para consolidar as linhas físico-psíquicas do brasileiro. Em desenho aparece no Brasil a cópia do Zé Povinho de Bordallo Pinheiro com adaptações em casacas e tangas, correndo a escala entre o clubmen e o moruquixaba. Em literatura é aquilo que Alencar escreveu com passagens transitórias em Bernardo Guimarães e Manoel de Macedo. Monteiro Lobato encarnou a sua observação numa idéia feliz, e na porta de um buraco lôbrego e esconso Jeca Tatu “magina” com o cigarro de palha nos beiços delgados, os fios raros da barba na face esverdeada e fosca, olhando a mata, sentado nos calcanhares. Apareceu a fogosa oposição dos Jecas em transição evolutiva. Criou-se o Mané Chique-Chique, esgalgado, escanifrado, cavalgando um cavalo raquítico, de ancas a furar a pele, contando aos pulos e às reviravoltas proezas e façanhas guerreiras, com o chapéu de couro desabado, metido a duro, de faca à cinta, garrucha ao quarto, cigarro à boca. Quase imediatamente apareceu o Jeca Leão, com um fulgor que lhe dá o seu papá Rocha Pombo. Surgem livros, lutam e discutem, e Jeca coça a cabeça admirado de ser de um momento para outro, célebre. Mesmo o Dr. Raul Azedo, com doces provas de forte erudição, provou que Jeca Tatu era um forte, o cigarro de palha, um mito, o cachorro, e a “maginação” apoiada entre calcâneos e glúteos, infrutífera. Jeca forte, Jeca sábio, eu conheço muitos, porém só ouso apresentar o General Rondon. Jeca na porta do casebre, sentado no calcanhar, sugando a terra, ociosa e triste, é peculiar a peculiar a todo o norte do Brasil. Mané Chique-Chique é comum nas feiras sertanejas. Pelo exposto pode-se prever que esses tipos criados são típicos representantes duma grei numerosa e conhecida. Não quer dizer que o sertanejo, lutando contra os elementos, arrastando as longas caminhadas sob um sol de fogo, entrando destemido nas matas amazônicas, seja literalmente um Jeca Tatu. Porém, quem viaja e quem vê pelo sertão o fatalismo sertanejo, a limitação da sua agricultura, a instintiva desconfiança pela civilização, a sua habitual indolência que o faz esquecer a rude lição das cenas e nada enceleirar nos anos de inverno, a sua palestra, a sua ignorância política, enfim, os remédios populares, a ingênua crendice dos curandeiros e das meizinhas verá a imensa verdade das páginas vivas do “Urupês”. Anos antes do Jeca ser criado já os vagos contornos do conto estavam esboçados no “Terra do Sol” de Gustavo Barroso. Durante a seca deste ano, os sertanejos descriam a uma da utilidade dos trabalhos encetados porque “seca e castigo vem do céu quando Deus, nosso Senhor manda”, aí está humanamente parafraseado o “não paga a pena” do Jeca Tatu.

"Que tenham paciência, Jeca é humano e vive. Não é preciso estender a generalidade do tipo a todo brasileiro, porém Jeca conservador das velhas tradições, Jeca nômade, desconfiado, levando o incêndio a uma floresta para destocar meio palmo de mato, Jeca usando da prodigiosa fecundidade da terra como refúgio natural à sua indolência, existe, “magina” e é nosso contemporâneo.

"E é grata a verdade que Jeca Tatu mesmo de cócoras, com o cão magro à porta, a prole doentia, a casa enlameada, o cigarro apagado atrás da orelha, votando sem saber em quem, crendo em tudo, com o tamborete de três pernas e a viola tristonha levanta onde está o gonfalão vistoso de uma variante à energia brasileira, respeitada e seguida por uma boa porcentagem dos que habitam e são filhos da “ditosa pátria minha amada”.".

O caipira, o sertão e o sertanejo, o Jeca Tatu precisam existir para sempre, para que o "brasileiro" tenha onde jogar tudo que ele pensa que não é.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tintas

Desde sábado que não consigo ligar uma palavra na outra, em que pese a grande necessidade dessa simples ação, tendo em vista que preciso finalizar dois artigos ainda esta semana.  Motivos bastante específicos me travaram de tal maneira que simplesmente não conseguia escrever. Foi assim sábado, assim domingo e ainda hoje de manhã.
Num estalo, acho que veio de uma imagem numa página qualquer da internet, me lembrei das tintas, dos pincéis, de uma caixa de sapatos, onde tinha jogado tudo, antes de me mudar. Revirei tudo até encontrar: estava tudo lá, ou quase. Não tinha suporte de madeira e aqui não tenho espaço de bancada. Fui ao marceneiro porque eu precisava pintar, era isso. Desenhar, gastar tinta.
Seu Antônio fez pra mim uma base em 10 minutos por 10 reais. Voltei e me entreguei nessa tarefa absurda e para a qual não tenho o menor treinamento. Apenas o gosto. O prazer de ver a tinta se misturar, tentar imitar cenas e ver nascer algo surpreendente, atividade que me faz esquecer de fumar. Estão ali, bem umas dez, tinta/pepel/água secando no varal. Algumas vieram pra cá. Ficou parecendo aquarela de cordel.







Foram quase oito horas nisso, apenas com a interrupção para o passeio com a Sombra, inarredável compromisso do qual ela não abre mão, digo, patas em hipótese nenhuma.  Que é bom pra mim também (valeria só pela alegria dela).
Depois de bastante tinta jogada fora, voltei aos artigos e cinco páginas saíram do branco. Funcionou.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Missa das onze e meia

Margem direita do S. Francisco.

3º Domingo do Tempo Comum
"De mim, lembrai-vos, pois que sois misericórdia" (Salmo 25, 7b)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Páramo

Imagem colhida de um dos salões da Gruta de Maquiné

"Não me surpreenderia, com efeito, fosse verdade o que disse Eurípides: 'Quem sabe a vida é uma morte, e a morte uma vida?'" PLATÃO, "GÓRGIAS"

"SEI, IRMÃOS, que todos já existimos, antes, neste ou em diferentes lugares, e que o que cumprimos agora, entre o primeiro choro e o último suspiro, não seria mais que o equivalente de um dia comum, senão que ainda menos, ponto e instante efêmeros na cadeia movente: todo homem ressuscita ao primeiro dia.
Contudo, às vezes sucede que morramos, de algum modo, espécie diversa de morte, imperfeita e temporária, no próprio decurso desta vida. Morremos, morre-se, outra palavra não haverá que defina tal estado, essa estação crucial. É um obscuro finar-se, continuando, um trespassamento que não põe termo natural à existência, mas em que a gente se sente o campo de opração profunda e desmanchadora, de íntima transmutação precedida de certa parada; sempre com uma destruição prévia, um dolorido esvaziamento; nós mesmos, então, nos estranhamos. Cada criatura é um rascunho, a ser retocado sem cessar, até à hora da liberação pelo arcano, a além do Lethes, o rio sem memória. Porém, todo verdadeiro grande passo adiante, no crescimento do espírito, exigie o baque inteiro do ser, o apalpar imenso de perigos, um falecer no meio de trevas; a passagem. Mas o que vem depois, é o renascido, um homem mais real e novo, segundo referem os antigos grimórios. Irmãos, acreditem-me".

JOÃO GUIMARÃES ROSA, no ínicio do conto "Páramo", de Estas estórias, em que trata da experiência da "morte parcial". O relato tem cunho autobiográfico e se refere ao tempo em que serviu como Secretário da Embaixada Brasileira em Bogotá, na Colômbia, entre 1943-45, a 2.600 metros de altitude.