domingo, 28 de outubro de 2012

Intuição do instante II



Muito raro é viver hoje
(na verdade, o que seria recomendável).
Mais comum é viver ontem ou amanhã e até depois.

Difícil capturar o momento; intuir o instante.
(Única realidade do tempo: um quase nada).

Dramático mesmo é vi(ver) a volúpia demoníaca do amanhã,
(que consiste na sua vontade inconfessada de não existir:
de ser logo ontem, desde sempre o que nunca foi e jamais será).

Eis o dilema da fotografia: ela captura o instante,
mas o retira do tempo, seu espaço de caminhar.

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Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.”

Vinicius de Morais
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“Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho demudasse – se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. O passado – é ossos em redor de ninho de coruja... E, do que digo, o senhor não me mal creia: que eu estou bem casado de matrimônio – amizade de afeto por minha bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas – se eu tivesse permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a chefia em que eu era o Urutu-Branco, quantas coisas terríveis o vento das nuvens havia de desmanchar, para não sucederem? Possível o que é – possível o que foi. O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente... E – mesmo – possível o que não foi. O senhor talvez não acha?” 

Riobaldo/Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas






Ilhéus-BA (Fotos: Imaginário)


Missa das onze e meia

Uma tarde em Salvador-BA (Foto: Imaginário)

30º Domingo do Tempo Comum
28 de outubro de 2012

Se a vida vem em ondas, como diz a canção popular, a fé deve vir aos saltos:

“O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: ‘Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!’ Muitos o repreendiam para que se calasse, mas ele gritava mais ainda. (...) Então Jesus parou e disse: ‘Chamai-o’. Eles o chamaram e disseram: ‘Coragem, levanta-te, Jesus te chama!’ O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus” (Marcos 10, 46-50).

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Temporão



Maior invenção não há,
Nem adianta procurar.
O tempo, esse que o relógio dá, é o que há.
Mas então pra quê, pois me diga, seu Manoel,
Por que mexer na convenção ancestral?

Economia? Não escrevo sobre política!

Chego atrasado ao trabalho, corro, aos tropeções,
Catando coisas, esquecendo outras...
Tudo porque me tiram uma hora, assim...
Me tiram uma hora de um tempo que já me falta.

Nada me fará tomar banho às cinco horas!!
Vá tomar banho às cinco quem quiser... Eu, não!!
Eu preciso de todo o tempo do mundo;
quero minha hora de volta, e é urgente isso!


 




domingo, 21 de outubro de 2012

Crenças


“Saber ser supersticioso ainda é uma das artes que, realizadas a auge, marcam o homem superior” (Bernardo Soares/Fernando Pessoa).


“Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! não... Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides – o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita – todo o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: – ‘Eu já vou! Eu já vou!...’ – que é o capiroto, o que-diga... E um José Simpilício – quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupeia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar... Superstição. José Simpilício e Aristides, mesmo estão se engordando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava... porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses... Então? Que-Diga? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças!” (Riobaldo/Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas).

“O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? – o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho! Olhe: tem uma preta, Maria Leôncia, longe daqui não mora, as rezas dela afamam muita virtude de poder. Pois a ela pago, todo mês – encomenda de rezar por mim um terço, todo santo dia, e, nos domingos, um rosário. Vale, se vale. Minha mulher não vê mal nisso. E estou, já mandei recado para uma outra, do Vau-Vau, uma Izina Calanga, para vir aqui, ouvi de que reza também com grandes meremerências, vou efetuar com ela trato igual. Quero punhado dessas, me defendendo em Deus, reunidas de mim em volta... Chagas de Cristo! Viver é muito perigoso...” (Riobaldo/Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas).
 





Missa das onze e meia


Detalhe do Relógio da Av. Goiás, Goiânia (Foto: Imaginário)


29º Domingo do Tempo Comum
21 de outubro de 2012

“Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado (...) quiser ser grande, seja vosso servo;  o primeiro, e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” (Marcos 10, 39-44). 


domingo, 14 de outubro de 2012

Um dia de domingo



Sempre, no fim do dia
quando eu voltava pra casa,
quase nada restava além de mim.
Apenas queria que chegasse logo o dia
em que eu não precisasse mais ter pressa.

Todo sonho da manhã de domingo;
Toda cor do flamboyant;
Todo azul do céu bonito;
João de Barro a velejar em terra firme...
O que sempre respirou.