quinta-feira, 31 de maio de 2012

Tempo, tempo


I

O cheiro de mato;
o peso da água;
o leve do vento.
O mato levando no cheiro
o doce mexer do vento
que a água me devolve,
cobrando o que não sei:
onde e quando foi
que eu errei.

II

Por toda parte o sol nasce e esparrama sua luz verdadeira.
Por toda parte o sol mente, escondendo seu escuro nascimento.

III

Eu,
de mim,
assinalo o que não vejo.
E me faço facilmente ininteligível.



My soul

Coração


(...)
ARANDIR (sem se aproximar e estendendo as duas mãos crispadas):

- Coração, olha. No emprego e aqui na rua. Eu sei que aqui na rua. Ninguém acredita em mim. E, hoje, quando eu saí do emprego. Meu bem, escuta. Fiquei andando pela cidade. Tive a impressão de que todo mundo me olhava. No lotação, em todo lugar, eu acho que me reconheciam pelo retrato. Eu saltava de um lotação e apanhava outro. A mesma coisa. Eu então pensei - bem: mas eu tenho a Selminha! Escuta, Selminha, escuta! Eu quero sentir, saber, entende! Saber que você está comigo, a meu lado! Você é tudo que eu tenho!

(Selminha está chorando com o rosto cobertp por uma das mãos)

SELMINHA (soluçando):

- Oh, cala a boca!
(...)

NELSON RODRIGUES, em O beijo no asfalto.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Um dia assim





Um dia, assim, de uma saudade sem fim de medida.
De olhar e não se ver,
e, sem saber,
o mundo inteiro não significar nada além da espera.
Deixa estar; Deus sabe o que vai ser.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Questão de fé

"Non parlarme mai", aquarela de Agnes-Celine


NÃO:
"Apenas é simbolizado aquilo que é recalcado; apenas o que está recalcado tem necessidade de ser simbolizado" (Lacroze)

NÃO:
"O mito é um sistema semiológico secundário, fundo recalcado da ciência positiva" (Barthes)

SIM:
"Quer se queira quer não, a mitologia é primeira em relação não só a qualquer metafísica mas também a todo pensamento objetivo, e é a metafísica e a ciência que são produzidas pelo recalcamento do lirismo mítico" (Gusdorf)

Gilbert Durand, em As estruturas antropológicas do imaginário (adaptado).


domingo, 27 de maio de 2012

Eu e você


"Nenen,...
Infância,
Medo,
Morrer,
Pai,
Mãe... 
Eu e você".

Horizontes


Um corpo que cai poderia ser um homem a voar lindamente.
Não
fosse
a
rua
à
sua
frente.




Mito e linguagem



“Se até aqui nos esforçamos por desvendar a raiz comum da conceituação linguística e mítica, surge agora a pergunta de como se reflete esta conexão na estrutura do ‘mundo’ da linguagem e do mito. Manifesta-se aqui uma lei que tem a mesma validade para todas as formas simbólicas e que determina essencialmente seu desenvolvimento. Nenhuma destas formas se apresenta, de pronto, como configuração isolada, existente por si, reconhecível em si mesma, mas todas se desprendem aos poucos de sua mãe-terra comum que é o mito”

CASSIRER, Ernst. Linguagem e mito. Editora Perspectiva, 2009.


Missa das onze e meia


Solenidade de Pentecostes
27 de maio de 2012

"Moravam em Jerusalém judeus devotos, de todas as nações do mundo. Quando ouviram o barulho, juntou-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua [daqueles] própria língua.

"Cheios de espanto e admiração, diziam: 'Esses homens que estão falando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua? Nós que somos partos, medos e elemitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, também romanos que aqui residem; judeus e prosélitos, cretences e árabes, todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!" (Atos 2, 5-11).

Muitas Minas Gerais II



Perguntado sobre suas origens e suas fontes, pelo jornalista alemão Günter Lorenz, João Guimarães Rosa teria assim se manifestado:

“[Você chamou-me ‘o homem do sertão’]. Nada tenho em contrário, pois sou um sertanejo e acho maravilhoso que você deduzisse isso lendo meus livros, porque significa que você os entendeu. Se você me chama de ‘o homem do sertão’ (e eu realmente me considero como tal), e queremos conversar sobre este homem, já estão tocados no fundo os outros pontos. É que eu sou antes de mais nada este ‘homem do sertão’; e isto não é apenas uma afirmação biográfica, mas também, e nisto pelo menos eu acredito tão firmemente como você, que ele, esse ‘homem do sertão’, está presente como ponto de partida mais do que qualquer outra coisa.

“(...) Devo dizer-lhe que nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim sim, de muita importância. Além disso, em Minas Gerais; sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para esse mundo. Cordisburgo. Não acha que soa como algo muito distante? Sabe também que uma parte de minha família é, pelo sobrenome, de origem portuguesa, mas na realidade é um sobrenome suevo que na época das migrações era Guimaranes, nome que também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia? Portanto, pela minha origem, estou voltado para o remoto, o estranho. Você certamente conhece a história dos suevos. Foi um povo que, como os celtas, emigrou para todos os lugares sem poder lançar raízes em nenhum. Este destino, que foi tão intensamente transmitido a Portugal, talvez tenha sido o culpado por meus antepassados se apegarem com tanto desespero àquele pedaço de terra que se chama o sertão. E eu também estou apegado a ele... (...) Para nós, apenas um mundo pequeno, medido segundo nossos conceitos geográficos. E este pequeno mundo do sertão, este mundo original e cheio de contrastes, é para mim o símbolo, diria mesmo o modelo de meu universo. Assim, o Cordisburgo germânico, fundado por alemães, é o coração do meu império servo-latino.”

Em Gênova, em 1965.

sábado, 26 de maio de 2012

Devaneios I



Que trabalho dificílimo deve ser este de sustentar um regime imaginário que não descansa nunca. Estar sempre alerta, sempre a produzir, desejando um dia maior que ele de fato é, querendo um fogo sempre aceso. Uma luz sempre a iluminar os caminhos. É possível que pessoas vinculadas a esta forma de “mundo” devem “apenas” sonhar durante as noites. Talvez quisessem mesmo eliminar as noites. Essa “vigilância” opressiva deve fazê-las, inclusive, temer a noite, os sonos e os sonhos.  Bachelard ensina que o sonho noturno “descansa apenas o corpo físico”e que “só raramente ele põe a alma em repouso”; o que descansaria a alma, ou o corpo inteiro, seria o devaneio diurno, o sonho acordado, sem onipresentes projetos e preocupações do imaginário do nosso tempo.

Sonhar, é claro, abre as portas para todos os fantasmas, que, como sabemos, não gostam de ser controlados. O homem dos nossos dias tem, sim, muito medo de sonhar, mesmo que seja à noite, quando se entrega aos braços de Morfeu, ainda que em boa companhia feminina. Por isso é tão importante essa descida lenta e segura, conscientemente esbarrando nas fronteiras das sombras do inconsciente, rumo ao devaneio diurno, ao repouso das águas, tão femininas águas. É na experiência desse devaneio que a alma do homem repousa, tranquila e sem medo, nos braços da mãe terra, digo, água, digo, nos braços de uma mulher.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Muitas Minas Gerais I


Diamantina

Gruta de Maquiné

Minas há muitas; Gerais, então...

Em Ave, palavra, livro publicado postumamente, João Guimarães Rosa fala de Minas Gerais, o estado da federação brasileira em que nasceu.

De lá, resumindo, digo, deixando o melhor para depois, um pouco das "muitas Minas" :

1) “a Minas geratriz, a do ouro, que evoca e informa, e que lhe tinge o nome”;

2) “a Mata cismontana, molhada ainda de marinhos ventos, agrícola ou madeireira, espessamente fértil”;

3) “o Sul, cafeeiro, assentado na terra-roxa de declives ou em colinas que européias se arrumam, quem sabe uma das mais tranqüilas jurisdições da felicidade neste mundo” ;

4) “o Triângulo, saliente avançado, reforte, franco”;

5) “o Oeste, calado e curto nos modos, mas fazendeiro e político, abastado de habilidades”;

6) “o Norte, sertanejo, quente, pastoril, um tanto baiano em trechos, ora nordestino na intratabilidade das caatingas, e recebendo em si o Polígono das Secas”;

7) “o Centro corográfico, do vale do rio das Velhas, calcário, ameno, aberto à alegria de todas as vozes novas” e

8) “o Noroeste, dos chapadões, dos campos-gerais que se emendam com os de Goiás e da Bahia esquerda, e vão até ao Piauí e ao Maranhão".

Machado

Proximidades de Serra das Araras



Nina



To be young, gifted and black,
Oh what a lovely precious dream
To be young, gifted and black,
Open your heart to what I mean

In the whole world you know
There are billion boys and girls
Who are young, gifted and black,
And that's a fact!

Young, gifted and black
We must begin to tell our young
There's a world waiting for you
This is a quest that's just begun

When you feel really low
Yeah, there's a great truth you should know
When you're young, gifted and black
Your soul's intact

Young, gifted and black
How I long to know the truth
There are times when I look back
And I am haunted by my youth

Oh but my joy of today
Is that we can all be proud to say
To be young, gifted and black
Is where it's at


NINA SIMONE.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Esboço I


Buritis, em vereda próxima do Rio Carinhanha
 
Para o caso de “Cara-de-Bronze”, inicialmente transcrevo um resumo do texto apresentado pelo autor, João Guimarães Rosa, ao seu tradutor para o italiano, o Professor Edoardo Bizzarri, por ocasião da tradução de Corpo de Baile:

“RESUMO: O ‘Cara-de-Bronze’ era do Maranhão (os campos-gerais, paisagens e formação geográfica típica, vão de Minas Gerais até lá, ininterruptamente). Mocinho, fugira de lá, pensando que tivesse matado o pai (pág. 619 [172], etc. Veio, fixou, concentrou-se na ambição e no trabalho, ficou fazendeiro, poderoso e rico. Triste, fechado, exilado, imobilizado pela paralisia (que é a exteriorização de uma que como ‘paralisia da alma’), parece misterioso, e é; porém, seu coração, na última velhice, estalava. Então, sem se explicar, examinou seus vaqueiros – para ver qual teria mais viva e ‘apreensora’ sensibilidade para captar a poesia das paisagens e lugares. E mandou-o à sua terra, para, depois, poder ouvir dele, trazidas por ele, por esse especialíssimo intermediário, todas as belezas e poesias de lá. O Cara-de-Bronze, pois, mandou o Grivo... buscar Poesia.” (ROSA, 2003).

Queremos entender esse retorno (ainda que intermediado) ao espaço de origem, como forma de buscar elementos para combater a “paralisia” da alma, e, ainda, que esses elementos estavam naquilo que o Grivo pudesse apreender da experiência da paisagem física que teimava em existir na memória ou no imaginário do Velho. As memórias do Cara-de-Bronze, porém, já não bastam, ele precisa de relatos, de narrativas, de uma alguma espécie de confirmação. Pensando no processo criativo de Guimarães Rosa também como essa busca pela palavra poética, vale recuperar suas próprias considerações acerca do seu trabalho:

Eu, quando escrevo um livro, vou fazendo como se o estivesse “traduzindo”, de algum alto original, existente alhures, no mundo astral ou no “plano das ideias”, dos arquétipos, por exemplo. Nunca sei se estou acertando ou falhando, nessa “tradução”. Assim, quando me “re”-traduzem para outro idioma, nunca sei, também, em casos de divergência, se não foi o Tradutor quem, de fato, acertou, restabelecendo a verdade do “original ideal”, que eu desvirtuara...


Ainda que escolhesse entre os vaqueiros aquele mais habilidoso e sensível e talvez, pour cause, quanto mais este “mentisse” ao voltar, ou se desvirtuasse do “original” ou quanto mais inventasse, tanto melhor. O velho Cara-de-Bronze não queria História, precisava de invenção, de poesia. Numa nota de rodapé, uma fala de vaqueiro: “– Ri sem fechar os olhos, Zazo! A gente aqui olha, e outro é que vê...”. Outra fala de vaqueiro ainda testemunha: “Ele [O Velho] acredita em mentiras, mesmo sabendo que mentira é”. A mesma consciência aparecerá na fala de Riobaldo, ao mencionar que, ao final de sua narrativa, quem saberá mais dele é o seu visitante/ouvinte. Pensamos à também é o leitor, que vai à biblioteca ler, ou à livraria comprar um livro. Estaríamos todos interessados nas profundezas e sutilezas das coisas, no estranhamento do mundo que a música e a poesia oferecem de humanidade ao inumano combate.

Dos primeiros críticos a se dedicarem ao conto “Cara-de-Bronze”, Benedito Nunes, que também conta entre os pioneiros que analisaram o Grande sertão: veredas, lembra, em seu texto “A viagem do Grivo”, a abertura do espaço que via no conto.

Mas o único bem, finalmente alcançado em “Cara-de-Bronze” que o Grivo entrega, na volta, ao mandante do feito, é o relato das coisas vistas e imaginadas durante o percurso: a Viagem transformada em palavras, súmula da atividade poética, que abriu os espaços do sertão e os converteu na profusão do mundo natural e humano (NUNES, 2010).

O Cara-de-Bronze, que tudo comandava, praticamente não era visto. Interiorizava-se. Por oposição a essa espécie de congelamento no interior, a atividade externa, pertencente ao universo mais diretamente ligado aos vaqueiros, ainda que partisse das ordens “riscadas” pelo patrão, colocava tudo em movimento frenético da lida diária da vida na grande fazenda de gado. Esse complexo espacial é refletido na estrutura do texto: inúmeras notas de pé de página, citações, indicações cênicas e forma dramática, cantigas, andamento às vezes utilizando-se de recursos cinematográficos, distribuição de trechos de maneira não usual pela página, entre outros elementos. Da mente quieta e misteriosa do Velho à movimentação externa algo ficava sempre por dizer: se a memória congelava a alma, o empírico modo de vida não impedia que as sombras ativassem os sons e as imagens da terra de origem e constituinte do personagem recolhido. O espaço vivido por ele, em outro lugar, insistia em reter o tempo suspenso no espaço/tempo mítico, e o configura em duas faces: uma, interior, “paralisada” pela suspensão mítica; outra, externa, a da movimentação dos vaqueiros. Os ambientes se alimentam um do outro: o trabalho da lida é resultado das ordens que partem de dentro (da casa, que já é desdobramento e figuração da cabeça do Velho); o silêncio de Cara-de-Bronze recebe alento das cantigas dos cantadores. Há sempre deles por perto, o Velho os paga para estarem sempre produzindo sons com suas violas. Tecendo fios imaginários nascidos da vibração das cordas. Pela voz do cantador Quantidades, o velho tinha acesso ao canto e a “palavra-canto abole as demarcações temporais, celebrando a saída de um tempo profano e o ingresso numa temporalidade cíclica” (REINALDO, 2005).

Assim, o Cara-de-Bronze, confrontado com sua velhice, na proteção do interior de sua casa física às margens do Rio Urucuia, têm âncoras no Maranhão, no “país da Infância Imóvel, imóvel como Imemorial (...) vivendo fixações de felicidade (...) ao reviver lembranças de proteção” (BACHELARD, 2003). Seu plano é materializar tais lembranças na poesia que o Grivo pudesse trazer das imagens atualizadas de seu passado remoto e ao mesmo tempo tão paradoxalmente perto. Não se trata de apenas memória, mas de recuperar “primitividades imaginárias mesmo a respeito desse ser sólido na memória que é a casa natal”, imagens centralizadoras e ordenadoras do funcionamento da psique.

A biblioteca



 “Um dos mal-entendidos que dominam a noção de biblioteca é o 
facto  de  se  pensar  que  se  vai  à  biblioteca  pedir  um  livro  cujo 
título  se  conhece.  Na  verdade  acontece  muitas  vezes  ir-se  à 
biblioteca porque se quer um livro cujo título se conhece, mas a 
principal função da biblioteca, pelo menos a função da biblioteca 
da minha casa ou da de qualquer amigo que possamos ir visitar, 
é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, 
todavia, se revelam extremamente importantes para nós. 
A função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja 
de  um  alfarrabista,  algo  onde  se  podem  fazer  verdadeiros 
achados, e esta função só pode ser permitida por meio do livre 
acesso aos corredores das estantes. 
Se  a  biblioteca  é,  como  pretende  Borges,  um  modelo  do 
Universo,  tentemos  transformá-la  num  universo  à  medida  do 
homem  e,  volto  a  recordar,  à  medida  do  homem  quer  também 
dizer  alegre,  com  a  possibilidade  de  se  tomar  um  café,  com  a 
possibilidade  de  dois  estudantes  numa  tarde  se  sentarem  num 
maple  e,  não  digo  de  se  entregarem  a  um  amplexo  indecente, 
mas  de  consumarem  parte  do  seu  flerte  na  biblioteca,  enquanto 
retiram ou voltam  a pôr nas estantes alguns livros de interesse 
científico,  isto  é,  uma  biblioteca  onde  apeteça  ir,  e  que  se  vá 
transformando  gradualmente  numa  grande  máquina  de  tempos 
livres”.

Umberto Eco, em A biblioteca. Tradução: Maria Luísa Rodrigues de Freitas.

Os prazos


John Maynard Keynes (1883-1946)


“In the long run we are all dead”.

Os keynesianos juram que o John Maynard jamais disse isso. Eu acho então que ele deveria ter dito. É uma grande verdade. Aqui está fora de contexto, mas isso é outro fato.

Santa Bárbara ou Iansã

O "homem humano" IV- Joca Ramiro


Rubens de Falco fez "Joca Ramiro" na adaptação da TV Globo


Riobaldo achava: “Assim era Joca Ramiro, tão diverso e reinante, que, mesmo em quando ainda parava vivo, era como se já estivesse constando de falecido”. Joca Ramiro só aparecia mesmo era na grande hora, no desfecho das grandes e maiores decisões. Grande chefe, Rei dos Gerais. Pouquíssimas e pesadas palavras. Perto dele apenas dois, mas por diferentes modos: Medeiro Vaz (desse não falei ainda) e Sô Candelário. Palavra de Joca Ramiro era uma só e valia como lei em aquele norte. Então: em todo o sertão era a Lei. Aparece uma única vez nessa estória: na batalha final em que se derrota Zé Bebelo e no julgamento do prisioneiro. Foi ele, só podia ser, quem presidiu o tribunal. Vale a pena lembrar:

“O senhor se acalme. O senhor está preso...” – Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz. (...) Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento: – “Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver...” – “Vejo um homem valente, preso...” – aí o que disse Joca Ramiro, disse com consideração. (...) “O senhor pediu julgamento...” – ele perguntou, com voz cheia, em beleza de calma. – “Toda hora eu estou em julgamento.” Assim Zé Bebelo respondeu. – “Lhe aviso: o senhor pode ser fuzilado, duma vez. Perdeu a guerra, está prisioneiro nosso...” – Joca Ramiro fraseou. (...) Joca Ramiro não reveio logo. Mexeu com as sobrancelhas. Só, daí: – “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei...” (...)– “O senhor não é do sertão. Não é da terra...” (...) Em menos Joca Ramiro esperou um instante: – “A gente pode principiar a acusação.” (...)

Após ouvir todas acusações que todos os chefes ali presentes fizeram, Joca Ramiro ainda pediu que quem quisesse, qualquer um, pudesse então fazer acusação ou a consideração que achasse razoável e necessária. Todos os chefes falaram, acusaram e votaram. Mesmo Riobaldo e um outro. Depois:

“Era a hora. O poder dele veio distribuído endireito em Zé Bebelo. O quando falou: – “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles, nem cacundeiro. A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece?” – “Reconheço” – Zé Bebelo aprovou, com firmeza de voz, ele já descabelado demais. Se fez que as três vezes, até: – “Reconheço. Reconheço! Reconheço...” – estreques estalos de gatilho e pinguelo – o que se diz: essas detonações. – “Bem. Se eu consentir o senhor ir-se embora para Goiás, o senhor põe a palavra, e vai?” Zé Bebelo demorou resposta. Mas foi só minutozinho. E, pois: – “A palavra e vou, Chefe. Só solicito que o senhor determine minha ida em modo correto, como compertence.” – “A falando?” – “Que: se ainda tiver homens meus vivos, presos também por aí, que tenham ordem de soltura, ou licença de vir comigo, igualmente...” Ao que Joca Ramiro disse: – “Topo. Topo.” – “ ... E que, tendo nenhum, eu viaje daqui sem vigia nenhuma, nem guarda, mas o senhor me fornecendo animal-de- sela arreado, e as minhas armas, ou boas outras, com alguma munição, mais o de-comer para os três dias, legal...”Ao que aí Joca Ramiro assim três vezes: – “Topo. Topo!” – “... Então, honrado vou. Mas, agora, com sua licença, a pergunta faço: pelo quanto tempo eu tenho de estipular, sem voltar neste Estado, nem na Bahia? Por uns dois, três anos?” – “Até enquanto eu vivo for, ou não der contra-ordem...” – Joca Ramiro aí disse, em final. E se levantou, num de repente. Ah, quando ele levantava, puxava as coisas consigo,  parecia – as pessoas, o chão, as árvores desencontradas. E todos também, ao em um tempo – feito um boi só, ou um gado em círculos, ou um relincho de cavalo. Levantaram campo”.

(Citações são trechos do episódio do julgamento de Zé Bebelo, em Grande sertão:veredas)

Françoise Hardy





L'amitié

Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
avec soleil et pluie comme simples bagages.
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
la plus belle saison des quatre de la Terre.

Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
et la fidélité des oiseaux de passage.
Dans leurs cœurs est gravée une infinie tendresse,
mais, parfois, dans leurs yeux se glisse la tristesse.
Alors, ils viennent se chauffer chez moi,
et toi aussi, tu viendras.

Tu pourras repartir au fin fond des nuages
et de nouveau sourire à bien d'autres visages;
donner autour de toi un peu de ta tendresse,
lorsqu'un autre voudra te cacher sa tristesse.

Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne,
il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne.
S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne,
j'oublierai à la fois mes larmes et mes peines.
Alors, peut-être je viendrai chez toi,
chauffer mon cœur à ton bois.

Paroles: Jean-Max Rivière
Musique: Gérard Bourgeois
Chanteuse: Françoise Hardy

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O rio leva


Riobaldo está de volta à caverna. No “bem-bão do ranje-rede”, no repouso do Fazendão, porém, algo de sua guerra, da sua luta contra o tempo ainda permanece nele, com a mesma marca de sempre: a neblina. O sertão volta a ele pela memória ou ele mesmo não consegue finalizar a travessia, consciente de que foi e é “um menino do destino”. Por toda parte se vê Riobaldo em tentativas de compreender os ciclos da natureza, aos quais o seu (dele) tempo deve se ajustar. Os espaços percorridos por Riobaldo devem ser desvendados pela prosa espalhada na travessia dos chapadões e das veredas, mas também pela verticalidade dos butitis e dos rios imemoriais. Riobaldo é um rio de memória, cujo fim só se pode vislumbrar no mar, esse desconhecido da gente do sertão. Desconhecido? O mar é o que falta, o que já não é. Rio que se sumiu. É para lá que deve ir, de qualquer forma, a semente do buriti, a árvore da vida, para repousar, morrer, e voltar em subvertidas formas. 


Madrugadas III - São Paulo-SP



Intervenções urbanas provocando mudanças nas "regiões mentais", divertindo, fazerndo o dia  nascer, no mínimo, diferente.


Aqui bate um coração

Anotações II





". . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

(Do velho Camilo) :

Ninguém sabe o que eu vi hoje,
debaixo de um alecrim :
duas pombinhas chorando
por um amor que não tem fim.

O bicho que tem no mato
O melhor é pássaro-preto
Todo vestido de luto,
Assim mesmo satisfeito.

O bicho que tem no campo
o melhor é sariema,
que parece com as meninas
Roxeando as cor morena.

O fogo quando se apaga,
na cinza deixa o calor;
o amor quando se apaga,
no coração deixa a dor.

Aí vem um rapazinho
Calça preta remendada.
É bestagem, rapazinho,
Que aqui não arranja nada.

Minha cabeça tá doendo,
Meu corpo doença tem.
Quem curar minha cabeça
cura meu corpo também.

Em cima daquela serra,
passa boi, passa boiada.
Também passa a moreninha
do cabelo cacheado”

(Camilo José dos Santos, 80 anos, para fora. Tinha uns 8 ou 10 anos, por ocasião da alforria do cativeiro. Nasceu no Riacho do Machado e acabou de criar em Inconfidência).

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . ."

NOTAS DA VIAGEM DE 1952.
Em A boiada, de João Guimarães Rosa. Nova Fronteira, 2011, p.40-41. (Ilustrações: Paulo Mendes da Rocha).

A Semana Roseana em Cordisburgo-MG neste ano, de 24 a 30 de junho, terá como tema justamente os 60 anos da realização da viagem de 1952, quando JGR acompanhou vaqueiros que levavam uma boiada.



terça-feira, 22 de maio de 2012

O espaço imaginário


“A objetividade, a ‘Ciência’ o materialismo, a explicação determinista, o positivismo instalam-se com as mais inegáveis características do mito: o seu imperialismo e o seu fechamento às lições da mudança das coisas. A objetividade tornou-se paradoxalmente culto fantástico e apaixonado que recusa a confrontação com o objeto. Mas, sobretudo, como todo sistema que explora um regime isomórfico exclusivo, o objetivismo semiológico contemporâneo, ignorando os estudos de uma antropologia geral, fecha-se a priori a um humanismo pleno. O que a segurança desmitificante mascara não passa, na maior parte dos casos, de um colonialismo espiritual, da vontade de anexação, em proveito de uma civilização singular, da esperança e do patrimônio da espécie humana inteira. (...) Por isso, parece-nos que uma das tarefas mais sérias na procura da verdade e na tentativa de desmistificação é discernir com clareza a mistificação e o mito. (...) Ora, a poesia e o mito são inalienáveis. A mais humilde palavra, a mais estreita compreensão do mais estreito dos signos é mensageiro contra sua vontade de uma expressão que aureola sempre o sentido próprio objetivo. Longe de nos irritar, esse ‘luxo’ poético, essa impossibilidade de ‘desmitificar’ a consciência, apresenta-se como oportunidade do espírito e constitui esse ‘belo risco que se deve correr’ que Sócrates, num instante decisivo, opõe ao nada objetivo da morte, afirmando ao mesmo tempo os direitos do mito e a vocação da subjetividade para o Ser e para a liberdade que o manifesta. De tal modo que não há para o homem honra verdadeira que não seja a dos poetas.
(...)
Impõe-se então uma educação estética, totalmente humana, como educação fantástica à escala de todos os fantasmas da humanidade. (...) Outrora os grandes sistemas religiosos desempenhavam o papel de conservatório dos regimes simbólicos e das correntes míticas. Hoje, para uma elite cultivada, as belas-artes, e para as massas, a imprensa, os folhetins ilustrados e o cinema veiculam o inalienável repertório de toda a fantástica. Por isso, é necessário desejar que uma pedagogia venha esclarecer, senão ajudar, esta irreprimível sede de imagens e sonhos”.
(...)
É a objetividade que baliza e recorta mecanicamente os instantes mediadores da nossa sede, é o tempo que distende a nossa saciedade num laborioso desespero, mas é o espaço imaginário que, pelo contrário, reconstitui livremente e imediatamente em cada instante o horizonte e a esperança do Ser na sua perenidade”.

(Gilbert Durand, As estruturas antropológicas do Imaginário. Martins Fontes, 2002, p.429-433).