domingo, 29 de maio de 2011

Missa das onze e meia


"(...) Estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir", São Pedro I (3,15).

Dioniso


“Para el occidental el inconsciente está debajo de la consciencia; para el oriental el inconsciente está arriba y la consciencia está debajo”, André Ortiz-Osés, em Cuestiones fronterizas, citando Nietzsche`s  Zarathustra, de C.G. JUNG.

Imagem: Google images (www.amandicaindica.com.br)

Magma III


Sono das Águas

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d`água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...

JOÃO GUIMARÃES ROSA, em Magma.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Cartuxa de Parma I


A Cartucha de Parma
Sthendal
Globo, 2004

I
Gia mi fur dolci inviti a empir le carte
I lunghi ameni.
                                 ARIOSTO, Sat. IV.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Chuvas

 
COMPOSIÇÃO

Frutas decapitadas, mapas,
aves que prendi sob o chapéu,
não sei que vitrolas errantes,
a cidade que nasce e morre,
no teu olho a flor, trilhos
que me abandonam, jornais
que me chegam pela janela
repetem os gestos obscenos
que vejo fazerem as flores
me vigiando em noites apagadas
onde nuvens invariavelmente
chovem prantos que não digo.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Entrelugar de aprender


"O corpo que faz uma travessia aprende, decerto, um segundo mundo, aquele para o qual se dirige, onde se fala uma outra língua, mas ele se aproxima sobretudo de um terceiro mundo, aquele pelo qual transita", Michel Serres, Le Tiers-Instruit;

"A dimensão local de que eu falo é muito mais perto da temporalidade que da historicidade; é uma forma de vida ao mesmo tempo mais complexa de uma 'comunidade', mais simbólica de uma 'sociedade', mais conotativa de um 'país', menos patriótica das pátrias, mais retórica da razão de estado, mais mitológica de uma ideologia, menos homogênea da hegemonia, menos concentrada da cidade, mais coletiva do 'sujeito', mais ligada à psique da civilização e, enfim, mais híbrida no desenvolver as diferenças culturais e as identificações [...]. Precisamos de um outro momento de escrita, à altura de manifestar as interseções ambivalentes e quiasmáticas de tempo e lugar que constituem a problemática experiência 'moderna' da nação ocidental", Homi K. Bhabha, DissemiNation: time, narrative, and the margins of the modern nation, citados por Ettore Finazzi-Agrò em Um lugar do tamanho do mundo.

Imagem: Google images (A cidade de Ouro Preto-MG)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Imaginação da matéria


"Quando começamos a meditar sobre a noção de beleza da matéria, ficamos imediatamente impressionados com a carência da causa material na filosofia estética. Pareceu-nos, em particular, que se subestimava o poder individualizante da matéria. Por que se associa sempre a noção de indivíduo à de forma? Não haverá uma individualidade em profundidade que faz com que a matéria seja, em suas menores parcelas, sempre uma totalidade? Meditada em sua perspectiva de profundidade, uma matéria é precisamente o princípio que pode se desinteressar das formas. Não é o simples déficit de uma atividade formal. Continua sendo ela mesma, a despeito de qualquer deformação, de qualquer fragmentação. A matéria, aliás, se deixa valorizar em dois sentidos: no sentido do aprofundamento e no sentido do impulso. No sentido do aprofundamento, ela aparece como insondável, como um mistério. No sentido do impulso, surge como uma forma inexaurível, como um milagre. Em ambos os casos, a meditação de uma matéria educa uma imaginação aberta.
"Só quando tivermos estudado as formas, atribuindo-as à sua exata matéria, é que poderemos considerar uma doutrina completa da imaginação humana. Poderemos então perceber que a imagem é uma planta que necessita de terra e de céu, de substância e de forma. As imagens encontradas pelos homens evoluem lentamente, com dificuldade, e compreende-se a profunda observação de Jacques Bousquet: 'Uma imagem custa tanto trabalho à humanidade quanto uma característica nova à planta'. Muitas imagens esboçadas não podem viver porque são meros jogos formais, porque não estão realmente adaptadas à matéria que devem ornamentar.
"Acreditamos, pois, que uma doutrina filosófica da imaginação deve antes de tudo estudar as relações da causalidade material com a causalidade formal. Esse problema se coloca tanto para o poeta como para o escultor. As imagens poéticas têm, também elas, uma matéria", G. Bachelar, em A Água e os sonhos.

Nietzsche e a tragédia 3


Friedrich Nietzsche
O Nascimento da tragédia
Cia das Letras, 1992

“Tudo o que na parte apolínea da tragédia grega chega à superfície, no diálogo, parece simples, transparente, belo. Nesse sentido, o diálogo é a imagem e o reflexo dos helenos, cuja natureza se revela na dança, porque na dança a força máxima é apenas, traindo-se porém na flexibilidade e na exuberância do movimento.  Assim, a linguagem dos heróis sofoclianos nos surpreende tanto por sua apolínea precisão e clareza, que temos a impressão de mirar o fundo mais íntimo de seu ser , com certo espanto pelo fato de ser tão curto o caminho até o fundo. Se abstrairmos, todavia, do caráter do herói, tal como aparece à superfície e se torna visível – o qual no fundo nada mais é senão uma imagem luminosa lançada sobre uma parede escura, isto é, uma aparência de uma ponta à outra –, se penetrarmos bem mais no mito que se projeta nesses espelhamentos luminescentes, perceberemos então, de repente, um fenômeno que tem uma relação inversa com um conhecido fenômeno óptico.  Quando, numa tentativa enérgica de fitar de frente o Sol, nos desviamos ofuscados, surgem diante dos olhos, como uma espécie de remédio, manchas escuras:inversamente, as luminosas aparições dos heróis de Sófocles, em suma, o apolíneo da máscara, são produtos necessários de um olhar no que há de mais íntimo e horroroso na natureza, como que manchas luminosas para curar a vista ferida pela noite medonha. Só nesse sentido devemos acreditar que compreendemos corretamente o sério e importante conceito de ‘serenojovialidade grega’; ao passo que, na realidade, em todos os caminhos e sendas do presente, encontramo-nos com o conceito falsamente entendido dessa serenojovialidade, como se fosse um bem-estar não ameaçado .”
“A mais dolorosa figura do palco grego, o desventurado ÉDIPO, foi concebida por Sófocles como a criatura nobre que, apesar de sua sabedoria, está destinada ao erro e à miséria, mas que, no fim,  por seus tremendos sofrimentos, exerce à sua volta um poder mágico abençoado, que continua a atuar mesmo depois de sua morte. A criatura nobre não peca, é o que o profeta profundo nos quer dizer: por sua atuação pode ir abaixo toda e qualquer lei, toda e qualquer ordem natural e até o mundo moral, mas exatamente por essa atuação é traçado um círculo mágico superior de efeitos que fundam um novo mundo sobre as reinas do velho mundo, que foi derrubado. É o que o poeta, na medida em que é ao mesmo tempo um pensador religioso, nos quer dizer: como poeta, ele nos mostra primeiro um nó processual prodigiosamente atado, que o juiz lentamente, laço por laço, desfaz, para a sua própria perdição; a autêntica alegria helênica por tal desatamento dialético é tão grande que, por esse meio, um sopro de serenojovialidade superior se propaga sobre a obra inteira, o qual apara por toda a parte as pontas dos horríveis pressupostos daquele processo. Em Édipo em Colono nos deparamos com essa mesma serenojovialidade, porém elevada a uma transfiguração infinita; em face do velho, atingido pelo excesso de desgraça, que, a tudo quanto lhe advém, é abandonado como puro sofredor – ergue-se a serenojovialidade sobreterrena, que baixa das esferas divinas e nos dá a entender que o herói, em seu comportamento puramente passivo, alcança a suprema atividade, que se estende muito além de sua vida, enquanto que a sua busca e empenho conscientes apenas o conduziram à passividade. (...)”
“À glória da passividade contraponho agora a glória da atividade, que o Prometeu de Ésquilo ilumina. Aquilo que o pensador Ésquilo tinha aqui a nos dizer, aquilo que ele como poeta apenas nos deixou pressentir através de sua imagem alegórica, é o que o jovem Goethe soube nos desvendar nas arrojadas palavras de seu Prometeu:

Aqui sentado, formo homens
À minha imagem,
Uma estirpe que seja igual a mim,
Para sofrer, para chorar,
Para gozar, para alegrar-se
E para não te respeitar,
Como eu!

“O homem, alçando-se ao titânico, conquista por si a sua cultura e obriga os deuses a se aliarem a ele, porque, em sua autônoma sabedoria, ele tem na mão a existência e os limites desta. O mais maravilhoso, porém, nesse poema sobre Prometeu, que por seu pensamento básico constitui o próprio hino da impiedade, é o profundo pendor esquiliano para a justiça: o incomensurável sofrimento do ‘indivíduo’ audaz, de um lado, e, de outro, a indigência divina, sim, o pressentimento de um crepúsculo dos deuses, o poder que compele os dois mundo do sofrimento à reconciliação, à unificação metafísica – tudo isso lembra, com máxima força, o ponto central e a proposição principal da consideração esquiliana do mundo, aquela que vê Moira tronando, como eterna justiça, sobre deuses e homens. (...)

“O pressuposto desse mito prometéico é o valor incalculável que o homem ingênuo atribui ao fogo como verdadeiro Pládio de toda cultura nascente: mas que o homem reine irrestritamente sobre o fogo e que o receba não como uma dádiva do céu, como raio incendiário ou como ardente queimor do Sol, isto é algo que àqueles contemplativos homens primevos parecia um sacrilégio, um roubo perpetrado contra a natureza divina. E assim o primeiro problema filosófico estabelece imediatamente uma penosa e insolúvel entre homem e deus, e coloca como um bloco rochoso à porta de cada cultura. O melhor e o mais excelso do que é dado à humanidade participar, ela o consegue graças a um sacrilégio, e precisa agora aceitar de novo as suas conseqüências, isto é, todo o caudal de sofrimentos e pesares com que os ofendidos Celestes afligem o nobre gênero humano que aspira as Ascenso: é um áspero pensamento que, através da dignidade que confere o sacrilégio, contrasta estranhamente com o mito semítico do pecado original, em que a curiosidade, a ilusão mentirosa, a sedutibilidade, a cobiça, em suma, uma série de afecções particularmente femininas são vistas como a origem do mal. O que a representação ariana distingue é a ideia sublime do pecado ativo como a virtude genuinamente prometéica: com o que é encontrado ao mesmo tempo o substrato ético da tragédia pessimista, como a justificação do mal humano e, na verdade, tanto da culpa humana quanto do sofrimento por ela causado”. F. Nietzsche em O Nascimento da tragédia, p.63-67).

Frankenstein XV - Capítulos 17-24 (Final)

Frankenstein
Mary Shelley
L&PM, 2010

Capítulos 17-24
 Depois do denso encontro entre Frankenstein e sua criatura consciente (cap.11-16), dominado pela fala do anjo caído, Victor retorna a Genebra firme na disposição de cumprir a palavra empenhada ao seu outro, por ele abandonado. Fato importante este de ele ter sido convencido pela sua criatura sobre a precariedade de sua criação. De resto reveladora de sua própria incompletude. O que deve ter "comovido" Frankenstein pode ter sido a constatação de que sua criatura era maior que ele mesmo. Não no seu aspecto físico, somente (mesmo isso já sendo revelador). A parte do "eu" voltado para dentro (que é Victor) criou um duplo enorme, pois queria mais reconhecimento, criando um ser maior fisicamente. A questão que o ser criado (o "eu" voltado para fora) era maior também no sentido de ser saído mais humano, mais destinado ao encontro com o outro. Isso já estava sinalizado nas palavras de Walton, em suas cartas à irmã: a necessidade e a falta que lhe fazia a presença de um amigo. É bom lembrar que o monstro leu O Paraíso perdido como se fossem "histórias reais". Ele era um Adão abandonado, sem consolo de companhia de iguais, de que sentia falta. Frankenstein não cumpre sua promessa de fabricar uma companheira para a sua criatura e esta se volta intensamente para destruir todas as suas boas companhias de aventura na terra. Assim morrem Clerval, Elisabeth e toda a sua família. As imagens opostas de "mar" e "fogueira" situadas no Ártico e colocadas no final da narrativa sinaliza o corte de realização da aventura do moderno Prometeu, que se reafirma na frustrada viagem de Robert Walton.
"Nenhum escritor romântico usou o arquétipo de Prometeu sem um completo conhecimento de suas equívocas potencialidades. O Prometeu dos antigos tem sido, na maior parte, uma figura espiritualmente reepreensível, se bem que frequentemente simpática, tanto em termos de sua dramática situação quanto de sua íntima aliança com o homem contra os deuses. Porém esta aliança foi ruinosa para homem na maioria das versões do mito, e a benevolência do Titã mal foi suficiente para recompensar a alienação do homem do céu, donde ele o havia trazido. Ambos os lados do Titanismo são evidentes nas primitivas referências crtistãs à estória. O mesmo Prometeu que é considerado como semelhante ao Cristo crucificado é também encarado como uma espécie de Lúcifer, filho da luz justamente expulso do céu que ele ofendeu", H. Bloom, no Posfácio.
O monstro queria amar e ser amado, mas seu criador não sabia o que isso era.

Imagem: Google images

Magma II

Ilustração de Poty para o poema

Reportagem

O trem estacou, na manhã fria,
num lugar deserto, sem casa de estação:
a parada do Leprosário...

Um homem saltou, sem despedidas,
deixou o baú à beira da linha,
e foi andando. Ninguém lhe acenou...

Todos os passageiros olharam ao redor,
com medo de que o homem que saltara
tivesse viajado ao lado deles...

Gravado no dorso do bauzinho humilde,
não havia nome ou etiqueta de hotel:
só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...

O trem se pôs logo em marcha apressada,
e no apito rouco da locomotiva
gritava o impudor de uma nota de alívio...

Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas...

João Guimarães Rosa, em Magma.

Frankenstein XIII - Capítulos 5-16

 
Frankenstein
Mary Shelley
L&PM, 2010

Capítulos 5-16
 
 Pronto (por favor, sem trocadilhos). A criatura está pronta e, óbvio, é uma aberração. Pois o artista popular já não disse que "Narciso acha feio tudo que não é espelho"? Então, um está diante do outro e o Dr. Frankenstein foge. Se estava doente do espírito, agora adoece também do corpo: seis meses de febre, pânico e alucinações. Seu amigo de infância, Clerval, providencialmente, chega à Alemanha para o fazer retornar à razão e à força física. A criatura sai de seu laboratório e vaga pelos bosques após ser seguidamente repelido por todo e qualquer animal que se pareça com seres humanos. Faz, porém, grandes progressos intelectuais e aprende a linguagem articulada e o idioma francês. Aprende a bondade quando esteve escondido nas proximidades de uma pobre família francesa. Escuta leituras de Impérios arruinados, de Volney (Napoleão também leu Volney, conforme nos esclarece Said). Encontra numa sacola perdida na mata três livrinhos: Os sofrimentos do Werther, de Goethe, Vidas ilustres, de Plutarco, e O Paraíso perdido, de Milton. Dava bem pra ele começar, certo? Contudo, por mais que tentasse ser aceito, mesmo fazendo sempre o bem, era sempre rechassado a pauladas e pedras. Sua aparência não ajudava. O ódio então toma conta de sua alma. Segundo ele, ódio aprendido. Decide duas coisas: buscar seu "pai" Víctor e espalhar terror de vingança contra toda a humanidade (no cap. 15 ele mata o irmão mais novo de Víctor, Ernest, e provoca o enforcamente de sua irmã adotiva, Justine, condenada pelo crime). Tinha, porém, um pedido a fazer ao Dr. Frankenstein: que criasse para a criatura uma companheira, com os mesmos defeitos para que, com isso, não se negasse a acompanhá-lo. Pois então, estamos mesmo numa sala de espelhos: Mary Shelley se triplicou ela mesma no início da narrativa; o narrador Robert Walton se duplica em Víctor Frankenstein, que se duplica na sua criatura, que se quer ver duplicada em outra... A imagem e semelhança da linha discursiva permance: o espelho da narrativa dos diversos narradores reflete a superfície do mesmo texto. Bem claro: eu disse superfície.

Imagem: Google images (mulher no espelho, Picasso)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Giros e explosões


Um dia, depois de ter ajudado num parto, Riobaldo disse: “Minha Senhora Dona: um menino nasceu – o mundo tornou a começar!...". Se existisse o giro do mundo, orbitava era em torno do homem humano. A questão é que parece que o mundo pipoca, como os meninos e meninas rebentam. Minúsculas faíscas ou tremendos raios, mas sempre simples fenômenos, instantâneos de milionésimos que enchem a todos de incerteza, essa, sim. A única duração possível é a arquetípica, presunção coletiva do archote passando de mão em mão. Nisso talvez esteja certo Riobaldo, pois teria rebentado mais um para carregar o fogo da consciência do mundo, que, até onde a consciência do mundo sabe, habita o homem. Por outro lado, é a única garantia de manter um mínimo nada de informação: permanecer aqui, fora do vazio, que preenche praticamente todo o espaço existente. É o que se diz.

domingo, 22 de maio de 2011

Magma


Saudade

Saudade de tudo!...

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!

Pressa!...
Ãnsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo...

João Guimarães Rosa, em Magma.

Imagem: Google images (desenho de Poty, www2.tvcultura.com.br)

Missa das onze e meia


"Não se perturbe o vosso coração. Tende fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós. E para onde eu vou, vós conheceis o caminho". João (14, 1-4).

sábado, 21 de maio de 2011

Números!


Hoje, 21 de maio de 2011, depois de 14 meses e 390 horas de sala de aula, encerrei as disciplinas do Curso de Especialização em Mercado Financeiro e Investimentos. Certamente há quem possa duvidar. Vivemos num mundo de probabilidades, afinal. Um mundo de realidades que passam a existir apenas após serem medidas e pesadas. Minha presunção não é significante o suficiente para me considerar especialista em nada, ao contrário, devo reconhecer a oportunidade que o curso me deu para voltar a ler. Distrair a mente dolorida, fazendo contas e criando modelos econométricos, signifique lá o que isso signifique. Tenho até novembro para entregar o TCC/Artigo mas ele já está com meu orientador. Claro que voltará às minhas mãos para as muitas correções. De qualquer forma, como num salto quântico, estou em outra órbita. Por outro lado, como a onda, que, movendo-se, move sempre o mesmo, a alma continua dolorida, num silêncio que é matriz da linguagem. Na nova e mesma órbita gira a palavra.

Imagem: google images (galacta.org)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

"O senhor se alembra?"


“Nesse centro, mantido exatamente no meio do livro desde sua primeira versão datiloscrita, repercute a cantiga de Siruiz, em certa medida espalhada na narrativa ('O senhor se alembra da canção de Siruiz?' é frase que está no centro do livro). Em Guimarães Rosa – signo e sentimento, mostro como os versos da canção reverberam no centro do romance, repetidos, ainda que espalhados nas quatro páginas que o constituem. Guimarães Rosa usou também outro recurso para chamar a atenção do leitor para o centro da narrativa: 'Eu atravesso as coisas e no meio da travessia não vejo! Só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada [...] Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia'”, de Mandala, mandorla: figuração da positividade e esperança , de Suzi Frankl Sperber , 2006.

Imagem: Foto Charles Krebs/Agência France Presse

domingo, 15 de maio de 2011

Frankenstein XII - Capítulo 4


 
Frankenstein
Mary Shelley
L&PM, 2010

Capítulo 4
 
O Dr. Victor enlouqueceu de vez. Está convencido de que descobriu como dar vida a seres já mortos. Claro que não vai nos contar segredo tão fabuloso mas se empenha de forma absoluta à tarefa de produzir um ser humano a partir de fragmentos de cadáveres. O narrador conversa com seu ouvinte (aquele viajante também desmiolado que começou a nos contar esta estória), como se conversasse com o leitor virtual ou com o leitor real. Isso acontece claramente em duas oportunidades, insinuando agudezas de focalização no texto de Shelley. Victor Frankenstein, homem de ciência e de cultura, certamente conheceu Prometeu, o que aparece em capítulos anteriores e neste, especificamente, quando afirma que considerou que sua experiência poderia não resultar em bom termo: "minha obra podia sair imperfeita". Acontece que a perfeição é obra de artista. Ou, se fosse o caso de dizer, de Deus. Para o caso menor dos humanos, a imperfeição é a regra, vale dizer: a certeza. O espelho já nasce quebrado? Narciso, Prometeu ou Quimera... O Dr. Victor se sentia como se fosse um criminoso. E não era pelo fato de profanar túmulos, roubar ossos de ossários... Não era por isso. Vê-se que estamos muito presos ao plano da história, mas vamos marcar um encontro com a dissecação, ou, melhor dizendo (não, dizendo do mesmo jeito, mas evitando trocadilhos baratos), vamos analisar um pouco dos aspectos do discurso.

Imagem: Google images (Arlequin e Polichinella, Picasso)

Frankenstein XI - Capítulo 3

 
Frankenstein
Mary Shelley
L&PM, 2010

Capítulo 3
 
 Ao completar 17 o pai de Victor Frankenstein, decide mandá-lo a Ingolstadt, para cursar uma Universidade fora de sua terra natal e, assim, enriquecer sua formação. Na semana da partida, Elizabeth fica doente de febre. Desrespeitando as ordens médicas, a mãe de Victor entra no quarto a doente para dar-lhe plena assistência. A moça se recupera mas a mãe contrai a febre e morre em seguida. Com atraso de algumas semanas e carregando a dor da perda, Victor embarca para Ingolstadt. Dois professores lhe chamam a atenção: o primeiro, Krempe, despreza os alquimistas como seres da pré-história e se admira, aos risos, de que alguém no século das luzes perca tempo com seres assim; o segundo, Waldman, também possui uma visão moderna da química, mas considera relevantes todos os trabalhos dos antigos para o sucesso dos novos estudos. Victor já vinha fazendo isso antes, mas nesse capítulo 3 é bastante acentuada na sua narrativa a recorrência de tentativas de antecipação das desgraças que lhe acontecerão. Quase tudo passa a ser visto como sinal de ruína e destruição futuras. A morte da mãe é emblemática nesse sentido. Victor Frankenstein torna-se discípulo do Professor Waldman. E leva muitos livros pra casa, disposto a conciliar os estudos da moderna química com o desenvolvimentos de seus conhecimentos sobre o trabalho dos alquimistas.

Imagem: Google images

Frankenstein X - Polichinelo


A Cia Polichinelo de Teatro de Bonecos encenou em Goiânia nesta tarde de domingo o espetáculo Frankenstein, adaptação para teatro de bonecos do romance de Mary Shelley. Com sede em Araraquara-SP, a Cia Polichinelo já existe há mais de 10 anos, trabalhando sempre com teatro de bonecos. O espetáculo em Goiânia faz parte do Projeto Palco Giratório, do SESC, e foi encenado no teatro do Colégio Santo Agostinho, com duração de 45 minutos e quatro atores em cena. Teatro lotado. Muita gente permaneceu nos seus lugares, mesmo após o encerramento do espetáculo. O objetivo era bater papo com os componentes da Cia. Mais informações sobre a Cia Polichinelo e a tradição do teatro de bonecos: http://www.ciapolichinelo.com.br ou www.ciapolichinelo.blogspot.com.

Imagem: Google images (www.indaiatuba.sp.gov.br)

Frankenstein IX - Capítulo 2

 
Frankenstein
Mary Shelley
L&PM, 2010

Capítulo 2
 
 A vida de Victor é narrativamente o relato de seus estudos, salpicados de gotas de informações adicionais e mundanas. Uma viagem aqui, registro de amizades ali. Tudo gira como uma obsessão. Seu único amigo escreve histórias de bruxarias, novelas de cavalaria e gosta de aventuras e até de perigos. Já podem ser vistos alguns espelhos, creio. Riqueza e pobreza, serenidade e agitação, Victor e Elizabeth... Dois fatos: a) encontro do livro de Cornelius Agrippa, que leva Victor a Albertus Magnus e Paracelso (a primeira base de sua formação e interesse) e b) o visão do raio que fulmina o carvalho (o ponto de partida para a segunda base, a matemática), que o leva à mecânica newtoniana. Atendendo finalmente o alerta feito pelo pai, deixa o terreno "imposível" da alquimia e passa e se dedicar a uma ciência que se apoiava em alicerces firmes. Anúncio da destruição e da desgraça. "Assim são estranhamente construídos os nossos espíritos, e por esses laços tão frágeis somos ligados à prosperidade ou à ruína. Quando olho para trás, é como se esta quase milagrosa mudança de tendência e da vontade fosse a imediata sugestão do anjo da guarda da minha - o último esforço feito pelo espírito de conservação para afastar a tempestade que pendia das estrelas e estava pronta para me envolver. Sua vitória foi anunciada por uma incomum tranquilidade e alegria de espírito que se seguiram ao abandono de meus antigos, e ultimamente, atormentadores estudos. Foi assim que eu aprendi a associar o mal à sua continuação e a felicidade à sua interrupção. Foi um grande esforço do espírito do bem, porém inútil. O destino era muito poderoso, e suas leis imutáveis haviam decretado minha destruição completa e terrível".  Com este "terrível", então, finalmente, estamos diante de uma história de terror.

Imagem: Google images (cena de Un chien andalou, de Buñuel)

Frankenstein VIII - Capítulo 1

Frankenstein
Mary Shelley
L&PM, 2010

Capítulo 1


Eis que, conforme esperado, o fio da narrativo é entregue a Victor Frankenstein. Não vamos nos lembrar daquelas "debreagens" lá da graduação. Vamos pensar que Mary Shelley se disfarça de missivista (Narrador 1) e, depois este se disfarça de Victor (Narrador 2). Este Victor inicia pelo começo, a história de seu pai, homem rico, de sua mãe, mulher de origem rica, mas que encontrou pobre para se casar com ela, a da sua própria infância feliz, protegida e rica, das suas viagens pela Europa e da adoção de Elizabeth Lavenza, menina órfã, bonita, de origem rica mas encontrada na miséria, em casa de italianos muito pobres. A mãe de Victor sempre quis ter uma filha e, por essas coisas que acontecem, essa menina Elizabeth foi adotada pelo casal e dada a Victor, como um presente. E assim ele a recebeu: como alguém que era seu e que lhe pertenceria até a morte.

Imagem: Google images (tela de Ademir Martins)

Missa das onze e meia



"Eu sou a porta (...) Eu sou a porta". (João 10, 7 e 9)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Entre Geografia e Paisagem, a Fenomenologia


"O espaço da paisagem é, de início, o lugar sem lugares do ser perdido. Na paisagem [...] o espaço me envolve desde o horizonte do meu Aqui, e eu estou Aqui somente ao largo do espaço de cujo horizonte estou fora. Nenhuma coordenada. Nenhuma referência. 'Não há desenvolvimento da paisagem que conduza à geografia; nós saimos do caminho; como homens nos sentimos perdidos'. [...] Sem dúvida podemos sair da paisagem para entrar na geografia. Mas aí perdemos nosso Aqui. Não temos mais um lugar. Não temos mais um lugar", Henri Maldiney, traduzindo e comentando Erwin Straus, em Ver a terra, de Jean-Marc Besse, p. 75).

Imagem: Google images (tela de Picasso)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Nietzsche e a tragédia 2

O Nascimento da tragédia
Friedrich Nietzsche
Cia. das Letras, 1992
"Se temos de aceitar mesmo uma tendência antidionisíaca atuante antes de Sócrates, que só com ele ganha uma expressão inauditamente grandiosa, nem por isso devemos recuar assustados diante da questão de saber para onde aponta um fenômeno como o de Sócrates; o qual, em face dos diálogos platônicos, não estamos em condição de apreender apenas como um poder negativo dissolvente. E é tão certo que o efeito imediato do impulso socrático visava à destruição da tragédia dionisíaca que uma profunda experiência vital do próprio Sócrates nos obriga a perguntar se de fato existe necessariamente, entre o socratismo e a arte, apenas uma relação antipódica e se o nascimento de um 'Sócrates artístico' não é em si algo absolutamente contraditório.
"Aquele lógico despótico, cumpre afirmar, tinha aqui e ali, com respeito à arte, o sentimento de uma lacuna, de um vazio, de meia censura, de um dever talvez negligenciado. Com frequência vinha-lhe, como na prisão contou a seus amigos, uma e a mesma aparição em sonho, que sempre lhe dizia o mesmo: 'Sócrates, faz música'. Ele se tranquiliza, até os seus últimos dias, com a opinião de que o seu filosofar é a mais elevada arte das Musas, e não acredita plenamente que uma divindade venha lembrá-lo daquela 'música popular, ordinária'. Por fim, na prisão, para aliviar de todo a sua consciência, dispõe-se a praticar também aquela música por ele tão menosprezada. E nesse estado de espírito compõe um proêmio a Apolo e põe em versos algumas fábulas esópicas. O que o impeliu a tais exercícios foi algo parecido à voz monitória do daimon, foi a sua percepção apolínea de que não compreendia, qual um rei bárbaro, uma nobre imagem de um deus e corria assim o perigo de ofender sua divindade - por sua imcompreensão. Aquela palavra da socrática aparição onírica é o único sinal de uma dúvida de sua parte sobre os limites da natureza lógica: será - assim devia ele perguntar-se - que o não compreensível para mim não é também , desde logo, o imcompreensível? Será que não existe um reino da sabedoria, do qual a lógica está proscrita? Será que a arte não é um correlativo necessário e um complemento da ciência?" (p.90-91)

domingo, 8 de maio de 2011

O Cisne


O Cisne

a Victor Hugo

I

Andrômaca, só penso em ti! O fio de água,
Espelho pobre e triste onde outrora resplendeu,
De teu rosto de viúva a majestosa mágoa,
O Simoente mendaz que ao teu pranto cresceu,

Rápido fecundou minha fértil saudade,
Como eu atravessasse o novo Carrossel
Morto é o velho Paris (a forma da cidade
Muda bem mais que o coração de uma infiel);

Em espírito vejo os campos de barracas,
Os fustes aos montões, as cornijas rachadas,
Os muros de um verniz verde, as ervas opacas,
O vago ferro-velho a brilhar nas calçadas.

Ali outrora havia um aviário;
Lá vi uma manhã, quando sob a amplidão
Clara, o trabalho acorda e o lixo funerário
Manda ao ar silencioso obscuro furacão,

Um cisne que, ao deixar sua gaiola, as palmas
Dos seus pés atritando o pavimento iníquio,
Arrastava no chão as grande plumas calmas.
Junto a um riacho sem água, a ave abrindo o seu bico,

Suas asas no pó banhava, num desmaio,
E dizia a sonhar com seu lago natal:
"Água, não choverás? Não trovejarás, raio?"
Eu vejo este infeliz, mito estranho e fatal,

Às vezes fitando o céu, como o homem ovidiano,
Para o céu de um azul cruel e tão irônico,
Contorcendo o seu colo, o mais convulso e insano,
Enquanto envia a Deus o seu riso sardônico!

II
Paris mudou! porém minha nostalgia
É sempre igual: torreões , andaimes, lajedos,
Arrabaldes, em tudo eu vejo alegoria,
Minhas lembranças são mais pesadas que rochedos.

Também diante do Louvre uma imagem me oprime:
Penso em meu grande cisne, o do gesto feroz,
Exilado que ele é, ridículo e sublime,
Roído de um desejo infindo! como em vós,

Andrômaca, a tombar dos braços de um esposo,
Gado vil, para as mãos de Pirro tão sereno,
Junto a tumba vazia, em langor doloroso;
Viúva de Heitor além de ser mulher de Heleno!

Penso na negra, a tísica e a doente;
Busca de pés na lama e de olhar tão bravio
De sua África nobre o coqueiral ausente
Atrás do muro imenso, do nevoeiro e do frio;

Em quantos a Fortuna, e para sempre, rouba,
Seu bem melhor! Nos que se alimentam de dor,
Onde soem mamar, como de boa loba,
Nos órfãos a mirrar mais secos do que a flor!

E na floresta, que meu pobre corpo trilha,
Soa como buzina uma velha lembrança.
Penso no marinheiro esquecido numa ilha...
Nos vencidos de sempre e nos sem esperança!

Charles Baudelaire


Imagem: Google images.

O Albatroz


O Albatroz
 
Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!...
Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo,
Mutila um outro a pata ao voador inerme.

O Poeta é semelhante a essa águia marinha
Que desdenha da seta, e afronta os vendavais;
Exilado na terra, entre a plebe escarninha,
Não o deixam andar as asas colossais!

Charles Baudelaire


Imagem: Google images

Missa das onze e meia


No caminho para Emaús: "Oh, como vocês são sem inteligência e lentos de coração para compreender tudo o que anunciaram os profetas!", em Lucas (24, 25).

sábado, 7 de maio de 2011

"Maria é quem os cortara"


Perplexidade no labirinto, eis o sentimento e a situação. Ao menos uma das chaves acredito que já tenho em mãos: o primeiro parágrafo do conto “Argila”, que pode ser lido em Dublinenses, do Joyce. Lá está escrito: “Esses bolos pareciam inteiros, mas de perto via-se que tinham sido cortados em longas fatias muito finas (...)”. Aí está. Raríssimas de minhas ideias resistem. A miopia me iludia: a boa visão para o perto projetava no longe a figuração do conjunto, nunca me deixando ver de verdade o que estava perto: o detalhe da parte, os pedaços que, juntos, aí sim... Os pedaços cortados “em longas fatias muito finas” eu realmente nunca os vi. Nem nos livros nem na vida. Tenho mudado, no entanto. Tornei-me, repentinamente, de um dia para o outro, perito policial, médico legista, anatomista dissecador. Um reducionista. Não pode ser, não quero ser, mas é a única chave de que talvez disponha no momento. A esperança é de que a minha aplicação nesse trabalho de desmontagem de minha leitura por imagens, agora desmontando textos, não me deixe sem recuperar o conjunto, em que pese deva ser naturalmente outro, no comentário. Se minha leitura por imagens "for para o espaço", tanto melhor, que é este o meu objeto.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O Encontro com um mito


Cinco mil quilômetros rodados eu e Deus e meus anjos pelo norte, centro e nordeste de Minas, sul, recôncavo, centro e extremo oeste da Bahia. Um dia, em estrada de chão de barro de muita liga, o céu carregado de pesadas nuvens, em meio ao cerrado dos lados, já chovia de manhã bem cedo quando pequei a estrada. Quase nada se via além do mato puro, sem marcas de cultivo na terra, nove horas da manhã e era como se ainda fosse madrugada alta. Tudo cinza, no que se poderia chamar, com os antigos, de "tempo feio". O trajeto foi feito com muito cuidado, pelo terreno escorregadio e mole, de buracos enormes. De repente, assim, do nada, uma placa informa solenemente: cidade. 

Estava na cidade de Serra das Araras, Minas Gerais, muito acima da margem esquerda do São Francisco. Uma cidade de duas ou três ruas, desmanchando-se sob aquelas águas que não paravam de descer dos céus. Desde seis meses antes, quando planejei a viagem, Serra das Araras estava anotada no roteiro. Nunca podia imaginar, não esperava encontrar, um lugar como aquele, nas circunstâncias em que encontrei. Diferentemente de como algumas pessoas pensaram, não fiz aquela viagem para ir ao Sertão. Além do mais Serra das Araras só é "o sertão porque o sertão está em toda parte". O problema é que eu me encontrei com o mito. Estava tudo ali, todos os mitemas, que eu poderia elencar agora um após o outro, mas vou ficar apenas com o "lugar vazio". Uma cidade vazia de gente, vazia de casas, vazia de ruas, no meio do nada. Com Deus.

Fiquei por lá quase a manhã toda e vi umas dez pessoas, no máximo. Não quis saber as razões, evidentemente. Talvez porque as intuisse: eu estava no meio de uma imagem, da mais pura invenção da realidade. Não quis conversar com ninguém, para não perturbar a mim, o que estava vivendo. Por fraqueza, fiz algumas fotografias, porque não precisava delas. De passagens por Unaí, Montes Claros, Januária, Salinas, Itabuna, Ilhéus, Salvador, Valença, Feira de Santana, Seabra, Barreiras, o que não me sai da memória é a cidade de Serra das Araras-MG. Como uma miragem, epifania, revelação. Lá, naquele lugar inventado, eu sei que vivi um espaço livre do tempo.

Outro dia disse que precisava voltar a esse lugar. Hoje penso que isso não é necessário: Serra das Araras veio viver comigo. Não preciso ir lá porque ela estará em toda a parte, pelo menos onde eu estiver.

A casa


Os tijolos apareciam em vários pontos da parede, numa espécie de cruz de braços recuados para baixo, formando belo quadro com as grandes janelas de madeira. Toda a construção possuía uma aparência de robustez e leveza difícil de demonstrar. Um dos quartos e a sala de estudos ficavam no piso superior, de janelas amplas e varandas em três dos quatro lados. As pequenas telhas matizadas pelos tons de outros tempos, de barro branco colonial. Dois mognos muito verdes enquadravam todo o lugar e não permitiam a ninguém se esquecer do tempo da vida, mesmo se tratando de um muito simples espaço. O muro era feito com aqueles mesmos tijolinhos que se podiam ver em vários pontos das paredes. Lá de cima os olhos podiam se alongar em direção à cidade e poderiam ver também a calçadinha ali embaixo, com pequeninas cerâmicas marronzinhas, quase vermelhas e com relevos de linhas retas, vindas do interior de Minas e de um passado distante, quando eram comuns. O portão de ferro estava pintado de um verde no tom das águas limpas dos sonhos. Em todas as janelas, flores.
Desceu do carro hoje, alguns anos antes, e entregou ao agrimensor o mapa com detalhes de engenharia e arquitetura, expedido pela prefeitura. Isso para a tarefa necessária de medição técnica do terreno, trabalho dificultado pelo mato forte que crescia na terra limpa do campo.

Imagem: Google images.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Eliot

  
"(...) e o fim de nossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos.
E conhecê-lo, então, pela primeira vez", T. S. Eliot.

Imagem: Google images (Artesdotaro.com)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Imensidão e miniatura



Trabalho

Imensidão.
Por entre gigantescos troncos de margaridas
Em sufocante mata em grama fechada
A estupenda folha verdíssima do pequizeiro
Trabalho para batalhão de grandes heróis.

Vencidos os tremendos obstáculos,
Com muitas mortes; corpos esmagados
Por inesperadas pedras escorridas;
Inescapáveis prisões em poços desconhecidos.

Madrugada fria
De margaridas, grama, grande folha
Em centenas de fragmentos refeita
O povo saciado no fundo da terra.
Miniatura.

Imagem: Google image (tela de Rubens Gerchman)

Nietzsche e a tragédia 1


O Nascimento da tragédia
Friedrich Nietzsche
Cia. das Letras, 1992

"A tragédia grega sucumbiu de maneira diversa da de todas as outras espécies de arte, suas irmãs mais velhas: morreu por suicídio, em consequência de um conflito insolúvel, portanto tragicamente, ao passo que todas as outras expiraram em idade avançada, com a mais bela e tranquila morte. Se de fato corresponde a um feliz estado natural separar-se da vida com uma bela descendência e sem qualquer espasmo, então o fim daquelas espécies de arte mais antigas nos mostra semelhante estado natural feliz: elas afundaram lentamente e diante de seus olhares moribundos já se erguem os seus mais belos renovos, que alçam a cabeça com breves gestos de impaciência. Com a morte da tragédia grega, ao contrário, surgiu um vazio enorme, por toda parte profundamente sentido; tal como certa vez aconteceu com marujos gregos, no tempo de Tibério, que ouviram em uma ilha solitária o brado consternador: "O grande Pã está morto!", também ressoava agora como um doloroso lamento através do mundo helênico: "A tragédia está morta!". Com ela perdeu-se a própria poesia! Fora, fora, idevos, raquíticos e definhados epígonos! Ide para o Hades, para que lá possais saciar-vos ao menos com as migalhas dos antigos mestres!" (p.72-73).

Imagem: Google images.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Menina que rega a alfavaca


La Niña que riega la albahaca y el principe pregunton
(Viejo cuento andaluz en tres estampas y un cromo)

Federico García Lorca

Personajes: Negro, Zapatero, Paje, Niña, Príncipe, Sabio 1º, Sabio 2º, Sabio 3º, Mago

ESTAMPA PRIMERA

[Calle?]

NEGRO (Viene desde lejos)
Vendo cuentos!... Vendo Cuentos!... Les voy a vender un cuento!... Había una vez..., Había una vez um Zapatero pobre, muy pobre, requetepobre!...

ZAPATERO (Cantando)
Zapatero, tero, tero,
clava la lezna en el agujero!

NEGRO
Vivía frente al palacio de um Príncipe rico, muy rico, requeterrico!... Señor Príncipe, quiere usted salir?... Estamos en las presentaciones!

(Se escuchan tres golpes)

PAJE
Su Majestad el Príncipe os ruega que lo perdonéis, pero no puede salir porque está haciendo pipí.

ZAPARERO Y NEGRO
Ehhh! Zapatero, tero, tero,
clava la lezna en el agujero!

NEGRO
Debemos decir que el Zapatero tiene el duende de la canción en el alma.

ZAPATERO
Ah! Mi mujer sí que cantaba!

NEGRO
Debemos decir que el Zapatero és viudo.

ZAPATERO
Van para cuatro años.

NEGRO
Vamos, don Gaiferos, no abra usted el cajoncillo de los tristes recuerdos!

ZAPATERO
Porque han de saber que me llamo don Gaiferos!

NEGRO
Debemos decir que el Zapatero tiene una hija.

ZAPATERO
Y se llama Irene la Niña-niña. Ainda, sal, niña!

NEGRO
Irene, niña! Quieres salir? Irene! [Dirigiéndose a los espectadores.] Niños! La llamamos todos?

[TODOS]
I-r-e-n-e! I-r-e-n-e !

IRENE (Cantando)
Tengo los ojos azules
y el corazoncito igual
que la cresta de la lumbre.

NEGRO
Ya están hechas las presentaciones: el señor Zapatero y su hija Irene. Y aunque el Señor Príncipe no pudo salir porque estaba haciendo pipí, también está presentado... Y ahora viene lo grande!... Una mañana de sol, a la hora que un gallo cantó y otro gallo cantó y otro y otro... temprano, muy tempranito, la Niña-niña salió a regar la maceta de albahaca y al mismo tiempo salió el Príncipe y Señor a tomar el fresquito de mañana...

(Sale a su ventana la NIÑA y rega la maceta de albahaca. También el PRÍNCIPE se  asoma a la ventana de palacio)

IRENE (Cantando)
Con el vito, vito, vito,
con el vito, vito, va.
Yo no quiero que me miren,
que me pongo colorá.

PRINCIPE
Niña que riegas la albahaca,
cuántas hojitas tiene la mata?

IRENE
Dime, rey zaragatero,
cuántas estrellitas tiene el cielo?

(La NIÑA cierra la ventana y el PRINCIPE se queda entristecido)

PRINCIPE
Que cuántas estrellitas tiene el cielo? Cuántas, cuántas estrellitas?... (Llamando) Paje! Paje! Señor Paje, ven acá!

PAJE
Mande usted, mi Príncipe y Señor!

PRINCIPE
Escucha, Paje. La Niña-niña me ha preguntado cuántas estellitas tiene el cielo y yo no he sabido qué contestarle!

PAJE
Cuántas estrellitas tiene el cielo?... Pues no lo sé!

PRINCIPE
Qué puedo hacer? He sido burlado? Qué puedo hacer, Paje?

PAJE
Lo que usted podría hacer, mi Príncipe y Señor, es disfrazarse de vendedor de uva.

PRINCIPE
De vendedor de uva?

PAJE
Sí. Y asi podría hablar con la Niña-niña.

PRINCIPE
Bien! Muy bien! Eso haré!

(Se van)

PRINCIPE (Viene desde lejos)
Uva, uvita! Vendo uva, uvita!

IRENE
Ay, quién pudiera comprarla?

PRINCIPE (Viene disfrazado de vendedor de uvas)
!Uva, uvita!
Cambio uvas por besos,
morenita!

IRENE
Así que tú cambias uvas por besos?

PRINCIPE
Pues sí: un racimito, un besito. Otro racimito, otro besito.

IRENE
Dame dos, uno para mi padre, que se hace agua la boca, y otro para mí.

PRINCIPE
Dos racimitos... dos besitos! (El PRINCIPE le da dos racimos de uva y la NIÑA dos besos) Adiós, Niña! Adiós! (Se va cantando) Uva, uvita...!

NEGRO
... Al día siguiente, a la hora que un gallo cantó y otro y otro, la Niña-niña salió a la ventana a regar la maceta de albahaca y al mismo tiempo salió el Príncipe y Señor a tomar el fresquito de la mañana.

(Se va)

PRINCIPE
Oh, sale na niña que riega la albahaca!

IRENE
Con el vito, vito, vito,
con el vito, vito, va.

PRINCIPE
Niña-niña!
Niña-niña que riegas la albahaca,
cuántas hojitas tiene la mata?


IRENE
Mi Príncipe preguntón...
Cuántas estrellitas tiene el cielo?

PRINCIPE
Niña-niña...
los besos que le diste al uvatero!

IRENE
Buahhahahhh! (Llora cómicamente y se va)

NEGRO
... A la mañana siguiente, a la hora que un gallo cantó y otro gallo cantó y otro y otro..., nuestro Príncipe y Señor salió a su ventana.


(Se va)

PRINCIPE
Niña, niña que riegas la albahaca,
Cuántas hojitas tiene la mata?
No sales, niña?

ZAPATERO
La Niña no quiere salir, porque está ofendida por lo del uvatero.

PRINCIPE
No quiere salir? Por qué [soy de] amor herido?
Herido de amor, herido.
Herido, muerto de amor.

NEGRO

...Y así nuestro Príncipe y Señor enfermó de melancolía.

(Se va)

PRINCIPE
Ay, amor que vengo muy mal herido,
herido de amor, herido,
herido, muerto de amor!

PAJE
No se preocupe usted, mi Príncipe y Señor. Buahhhh. (Llora cómicamente)

PRINCIPE (También llora cómicamente. Canta)
Ay, qué trabajo me cuesta
quererte como te quiero!
Por tu amor me duele el aire,
el corazón y el sombrero!

(Telón lento)


ESTAMPA SEGUNDA 

(Sala del palacio)

NEGRO

Vendo cuentos!...  Vendo cuentos!... Vendo cuentos!... Nuestro Príncipe y Señor enfermó de amor por la niña Irene. Y llamó a um consejo de Sabios para consultarlos.

(Se va)

SABRIO 1º
Cada día está más malo!

SABRIO 2º
Tiene carita de pena negra!

SABIO 1º
Se nos muere de melancolía!

SABRIO 3º
Ha llegado a nuestro reino un gran Mago, con sombrero de estrellas, y que cura el mal de amores.

SABIO 2º
El podría curar nuestro Príncipe y Señor!

SABRIO 3º
Vamos a llamarlo a Palacio!

(Telón lento)


ESTAMPA TERCERA

(Patio del castillo)

MAGO. (Es la niña IRENE, que viene disfrazada de mago, com manto negro y sombrero cucurucho bordado de estrellas de plata y una gran capa. En el escenario está el árbol del sol y el árbol de la luna) Vengo a curar mal de amores y otros potiches!... Enfermos de melancolía y luna, vinid a mí! Soy el mago de la alegría, que traigo el trompetín de la risa!

PRINCIPE
Mago, Mago, podréis curarme?

MAGO
Por las ramas del laurel y la cinta de Santa Inés, que tus males se curen y se vayan al pocito negro de la pena!... Y para que cures del todo, cásate con la Niña-niña!

PRINCIPE
Con la Niña-niña?

MAGO
Sí, con Irene. (Se saca o disfraz)

PRINCIPE
Irene! Luego vendrán las lunas y las mieles!

MAGO
Mi Príncipe preguntón!

PRINCIPE
Irene! Irene!

IRENE
...Irene... García.

PRINCIPE
Ay, Irene!... Te quieres casar comigo?

IRENE
Sí, mi Príncipe preguntón!

PRINCIPE
Desde hoy viviremos con el duende de la alegría en el corazón!

PRINCIPE E IRENE (Cantan juntos)
Niña, niña que riega la albahaca,,
cuántas hojitas tiene la mata?

IRENE
Me enseñarás por las mañanas el gallito que todo lo canta?

PRINCIPE
Y te enseñaré dónde vive el duende del corazón!

IRENE
Ohhhhhh!

PRINCIPE
Sí, vive debajo de la almohada de un niño puro.

IRENE
Puro?

PRINCIPE
Sí, puro como las cosas tontas con lechuguillas del alma!

PRINCIPE E IRENE (Cantan juntos)
Niña, niña que riegas la albahaca,
Cuántas hojitas tiene la mata?
Niña, niña que riegas la albahaca,
Cuántas hojitas tiene la mata?

(Salen todos los personajes y cantan haciendo rondas. Cae lentamente el telón. No se sabe si brilla más el sol o la luna).

domingo, 1 de maio de 2011

A Estrutura da narrativa IV- Genette

Análise estrutural da narrativa
R. Barthes e outros
Editora Vozes, 1972

As Fronteiras da narrativa (p.255-274)
Gérard Genette
Primeiras fronteiras: "Definir positivamente a narrativa é acreditar, talvez perigosamente, na ideia ou no sentimento de que a narrativa é evidente, de que nada é mais natural do que contar uma história ou arrumar um conjunto de ações em um mito, um conto, uma epopeia, um romance". 
Genete volta as origens, citando Platão, que, na República (Livro III) nos teria revelado que "Sócrates nega à narrativa a qualidade (isto é, para ele o defeito) da imitação". A imitação, para Platão, ficaria assim: tem-se antes de tudo a lexis (a maneira de dizer, ou o discurso, ou o arranjo) e o logos (o que é dito, a história que se conta). A lexis é, de um lado, a "imitação propriamente dita", a mimesis, e, de outro, a simples narrativa (diegesis). A simples narrativa, para Platão, seria "tudo que o poeta narra 'falando em seu próprio nome, sem procurar fazer crer que é um outro que fala'".  Aristóteles, na Poética, vai dizer que "a narrativa (diegesis) é um dos modos da imitação poética (mimesis), o outro sendo a representação direta dos acontecimentos por atores falando e agindo diante do público". Primódios da distinção dos gêneros: o dramático se definindo primeiro e por exclusão. 
"A diferença entre as classificações de Platão e Aristóteles reduz-se assim a uma simples variante de termos: essas duas classificações concordam bem sobre o essencial, quer dizer, a oposição do dramático e do narrativo, o primeiro sendo considerado pelos dois filófosos como o mais plenamente imitativo que o segundo: acordo sobre o fato, de qualquer modo sublinhado pelo desacordo sobre os valores, pois Platão condena os poetas enquanto imitadores, a começar pelos dramaturgos, e sem exceção de Homero, julgado ainda demasiado mimético para um poeta narrativo, só admitindo na Cidade um poeta ideal cuja dicção austera seria tão pouco mimética quanto possível; enquanto Aristóteles, simetricamente, coloca a tragédia acima da epopeia, e louva em Homero tudo o que aproxima sua escritura da dicção dramática. Os dois sistemas são portanto idênticos, com a única reserva de uma inversão de valores: para Platão como para Aristóteles, a narrativa é um modo enfraquecido, atenuado da representação literária - e percebe-se mal, à primeira vista, o que poderia fazê-los mudar de opinião".
"'A palavra cão', diz Willian James, 'não morde'". (...)
A operação linguística conduzirá "a esta conclusão inesperada, que o único modo empregado pela literatura enquanto representação é o narrativo, equivalente verbal de acontecimentos não verbais (...) e também de acontecimentos verbais, a não ser que ele se apague neste último caso diante de uma citação direta na qual se anula toda a função representativa". (...) A representação literária, a mimesis dos antigos, não é portante a narrativa mais os 'discursos': é a narrativa, e somente a narrativa. Platão oporia mimesis a diegesis como uma imitação perfeita a uma imitação imperfeita; mas a imitação perfeita não é mais imitação, é a coisa ela mesma, e finalmente a única imitação é a imperfeita. Mimesis é diegesis".
Novas fronteiras: a) a ressonância descritiva, presente sempre, mas pouco estudada. Pode aparecer mais ou pode aparecer menos. Mesmo os verbos trazem essas ressonâncias: "Basta para se convencer desse fato comparar 'empunhou' a faca, por exemplo a 'apanhou' a faca". (...) O objeto pode existir sem movimento mas o movimento não pode existir sem objeto". Suas funções: o ornamento (decoração), como no barroco; a de ordem explicativa e simbólica (Balzac). Na evolução dos textos na hstória a descrição também evolui do ornamento para a significação. Robbe-Grillet teria tentado libertar a descrição da tirania narrativa? A descrição é mais contemplativa, e, assim, mais poética?
Novas fronteiras: b) o "físico" Empédocles para Platão e Aristóteles não é poeta pelo simples fatos de, em que pese usar o mesmo metro que Homero, estar a falar (narrar) o tempo todo em seu próprio nome. Talvez a diferença entre "narrar" e "contar". Autor e autor virtual (um com CPF e o outro sem). Maneiras de se disfarçar. Quem está falando? É o fim da picada, a última fronteira, fingir que a história narra-se a si mesma: "ninguém está falando aqui". Eu, pessoalmente, aceito melhor que um poste possa falar e me contar uma história brilhante que lhe aconteceu uma noites dessas. Não me importaria nem um pouco em ouvir. 
O fim da narrativa, "coisa do passado", engolida pelo discurso. Antevemos a questão do ponto de vista, ou da focalização, objeto de dois livros que temos pela frente: Le discours du récit e o Le nouveau discours du récit, ambos de Genette. Vamos, então.